矜
Capa do livro Suit Actor no Kyouji, de Mishio Suzuki, com a ilustração de um herói de jaqueta vermelha e cachecol diante de um céu de nuvens
KYOUDAI EXPRESS / REVIEW · LIVRO
Mishio Suzuki · Suit Actors Shueisha International · 2023
Suit Actor no Kyouji

O orgulho de ser suit actor

A jornalista do Yomiuri Shimbun ouviu mais de 50 profissionais de ação para contar o tokusatsu a partir de quem veste a máscara, do Gekko Kamen de 1958 ao primeiro Kamen Rider da era Reiwa. O livro saiu no Japão em 2023 e ainda não tem tradução.

SHUEISHA INTERNATIONAL·26 DE SETEMBRO DE 2023·18 ENTREVISTAS·1.980 IENES·SEM TRADUÇÃO NO BRASIL

Suit Actor no Kyouji (O orgulho de ser suit actor), da jornalista Mishio Suzuki, conta a história do tokusatsu pelo lado de dentro do traje. O livro saiu no Japão em 26 de setembro de 2023, pela Shueisha International. Reúne 18 entrevistas com intérpretes, diretores e coreógrafos de ação, escolhidas numa apuração que ouviu mais de 50 pessoas do meio, e ainda não tem edição em português nem em inglês.

Compartilhar:

Em março de 2023, o suit actor Jiro Okamoto apareceu como um soldado de Tokugawa em Dousuru Ieyasu, a novela histórica anual da NHK, e morreu em cena atingido por uma flecha. A participação foi curta e bastou para o nome dele circular no X, onde espectadores lembraram que quem vestia o traje de Kamen Rider Black, em 1987, "era o Jiro". Suzuki abre o livro com essa cena porque ela resume o argumento das páginas seguintes, o de que o público passou a querer saber quem está dentro do traje.

Quando a autora publicou o livro anterior, em 2015, a palavra suit actor circulava só entre fãs, e explicar a profissão a colegas exigia várias tentativas. Suzuki conta que começou a usá-la no início dos anos 2000, meio constrangida por se tratar de um termo inventado no Japão a partir do inglês. Em 2023, a conta oficial da Toei anunciou os suit actors de Ohsama Sentai King-Ohger. A publicação teve cerca de 3.000 curtidas em uma semana, número parecido com o do anúncio do elenco sem máscara.

No último episódio de Kikai Sentai Zenkaiger, em fevereiro de 2022, os nomes dos suit actors apareceram nos créditos ao lado dos personagens. A robô Magine, vivida por Ayumi Shimozono, chegou a posar para a Weekly Playboy. No verão de 2023, Kamen Rider Geats e King-Ohger voltaram a agrupar os nomes num bloco. Suzuki registra que ainda há gente no meio que defende a ideia de que "não existe ninguém dentro do traje". A resposta dela vem em forma de pergunta: "Não seria justamente o profissional que interpreta o personagem quem tem o direito de falar sobre ele?".

A autora

Mishio Suzuki nasceu em 1964, estudou na Universidade Hosei, em Tóquio, e na Universidade de Boston, e fez mestrado em ciência política na Universidade Northwestern, nos Estados Unidos. Entrou no Yomiuri Shimbun em 1989 e passou pelas editorias de política e de cultura antes de assumir funções de editora no jornal. Foi comentarista de programas da Nippon TV e se apresenta em público como presidente de um partido imaginário, o Partido Tokusatsu do Japão.

Desde 2003, Suzuki organiza o 340 Presents, série de bate-papos com atores e técnicos de séries de heróis. O nome vem dos algarismos 3, 4 e 0, que em japonês podem ser lidos mi, shi e o, o primeiro nome dela. Ela também comanda o Kanreki-sai, encontro no Loft Plus One, em Shinjuku, que homenageia suit actors veteranos quando completam 60 anos. O livro anterior, Showa Tokusatsu Bunka Gairon (Introdução à cultura tokusatsu da era Showa), saiu em 2015.

Numa das edições do Kanreki-sai, Suzuki pediu a Tetsuya Nakayashiki que improvisasse, sem música nem luz, um Rider que acaba de lutar no alto de um penhasco e se vira para trás. Ele mexeu de leve os ombros, como quem recupera o fôlego, e se virou. A plateia, que conversava, ficou em silêncio, e a autora descreve o momento numa frase: "Ali estava Kamen Rider".

Aos seis anos, Suzuki não pôde ver o primeiro episódio de Kamen Rider porque a família controlava a televisão das crianças. No ensino médio, ela visitava os estúdios algumas vezes por ano, onde encontrava outras garotas da idade dela. A primeira das três partes do livro trata do suit actor como figura pública e da influência dos heróis japoneses no exterior. A segunda conta a formação do ofício, da Ohno Kenyukai ao Japan Action Club (JAC), e a terceira discute técnica, condições de trabalho e quem é, afinal, o protagonista de uma série de heróis.

Hollywood

O capítulo 2 compara o Japão com os Estados Unidos a partir de Power Rangers, que estreou em 1993 e completou 30 anos em 2023. A série americana reaproveitou as lutas de Super Sentai e, quando passou a refilmar as cenas, continuou trazendo suit actors do Japão. O diretor Koichi Sakamoto trabalhou na franquia de diretor de ação a produtor executivo. Segundo ele, os dublês americanos dominam as artes marciais e não conseguem os "movimentos e interpretações que transmitam a presença de um herói".

Sakamoto conta que um herói vermelho de Super Sentai comemorava cada vitória com o punho erguido e a outra mão junto ao cotovelo, gesto obsceno na televisão americana. A equipe dos Estados Unidos quase caiu para trás ao ver as imagens. Michi Yamato veio da Ohno Kenyukai e foi o suit actor principal de Saban's Masked Rider, em 1995. Ele explica a diferença pelo ma, a pausa entre um golpe e outro herdada do kabuki e dos filmes de espada:

"Os americanos se movimentam demais. Não conseguem se aproximar lentamente, parar por um instante, segurar a tensão e então assumir uma pose marcante. Eles não conseguem trabalhar o ma."

Michi Yamato, coordenador de dublês

Três anos depois do fim de Gavan, Paul Verhoeven escreveu ao designer Katsushi Murakami para pedir autorização de usar elementos do traje em RoboCop, de 1987, e recebeu o sim de graça. Suzuki compara o sofrimento de Peter Weller dentro da armadura, que deixava a boca de fora, com o de Jun Murakami, que dava saltos mortais e lutava de espada com o traje fechado de Gavan.

O Homem-Aranha

A parte mais saborosa do capítulo é a defesa do Homem-Aranha da Toei, de 1978. Hirofumi Koga, do JAC, vestiu o herói e teve o nome creditado como "Spider Action" a partir do episódio 9, coisa rara na época. Na abertura, ele sobe pela estrutura da Torre de Tóquio e lembra, rindo: "Corda de segurança? Colchão de proteção? Não tinha nada disso". Nas escaladas de prédio, cinco ou seis colegas puxavam do terraço a corda presa a um arnês sob o traje, e Koga precisava parecer que subia sozinho.

Suzuki chama de "decepcionante" a série americana da mesma época e repete o que escreveu em 2015, que a versão japonesa é superior. Koga responde com modéstia: "Eu achava o Homem-Aranha americano incrível. Mas, talvez porque o traje me servisse bem, às vezes pensava que o meu físico ficava melhor". O livro cita ainda um depoimento de Stan Lee, gravado para um box de DVDs de 2005, em que o criador do personagem elogia os japoneses por fazerem a ação "com o próprio corpo".

Koga queria ser dublê e tinha dificuldade com as falas, que o Homem-Aranha da Toei dizia de máscara para repreender vilões e aconselhar crianças:

"No começo, eu detestava ter de dizer as falas. Detestava mesmo. Então passei a colocar a máscara já nos ensaios. E, para minha surpresa, conseguia atuar sem tanto problema. Para mim também, aquela era uma máscara mágica."

Hirofumi Koga, o Homem-Aranha da Toei

Os pioneiros

Koichi Ose, nascido em 1937 e primeiro entrevistado do livro, fez Juro Iwai e o próprio Gekko Kamen, série de 1958. Recebia 7.000 ienes por episódio, valor que o fez achar que a cédula de 10.000 ienes, lançada naquele ano, "foi criada por minha causa". Para dizer as falas de máscara, ele soltava o ar por baixo dela, "fff, fff", e combinava com os colegas que, depois de alguns segundos daquele som, eles podiam responder.

Bin Furuya, o Ultraman de 1966, resistiu ao convite porque acabava de entrar na turma de novos talentos da Toho e queria ser astro de cinema. Entrar numa fantasia era visto então como trabalho menor, comparável a fazer as pernas do cavalo no kabuki, até Haruo Nakajima mostrar em Godzilla que se podia atuar ali dentro. Como funcionário da Toho, Furuya recebia o salário mensal da empresa e nenhum adicional pelas cenas com gasolina e água.

Hiroshi Fujioka, o Kamen Rider 1, vestiu o próprio traje no começo da série de 1971 e descreve a máscara que embaçava, as botas escorregadias e o couro que apertava o corpo com o suor. O acidente de moto nas gravações do episódio 10 quebrou a perna dele. Na entrevista, Fujioka diz que se incomoda com o pouco caso da sociedade japonesa por quem trabalha nos bastidores:

"Uma pessoa sozinha não consegue simplesmente voar. Há sempre alguém que a apoia. Muitas vezes, a história registra quem aparece, mas não mostra as pessoas que trabalharam nos bastidores."

Hiroshi Fujioka, o Kamen Rider 1

Ohno Kenyukai

Com Fujioka fora de cena e a estreia marcada para 3 de abril de 1971, a Toei reaproveitou imagens já gravadas. O Rider transformado ficou com a Ohno Kenyukai, grupo de luta de espadas fundado por Kotaro Ono por volta de 1964. Fumiya Nakamura, Tetsuya Nakayashiki e Masaru Okada passaram a vestir o traje, e o produtor Toru Hirayama, contra a ideia de matar Takeshi Hongo, criou o Rider nº 2. Para Suzuki, a divisão entre o ator do rosto e o ator do traje, nascida dessa emergência, é a origem do ofício que o livro descreve.

A Kenyukai trouxe dos filmes de espada a pose de transformação, que o coreógrafo Kazutoshi Takahashi montou diante do espelho com movimentos da luta com duas espadas e da dança tradicional japonesa. Também trouxe o costume de nunca pôr a máscara no chão, porque ela era o "rosto do protagonista". Takeshi Sasaki, o Rider nº 2, vestiu o traje escondido do produtor para entender o trabalho dos colegas:

"Eu grito "Transformação!", posso me despedir da equipe e seguir para o próximo trabalho. Mas é a partir daí que começa a parte mais difícil, feita pelos homens da Ohno Kenyukai. Eles se esforçam arriscando a vida."

Takeshi Sasaki, o Kamen Rider 2

Os integrantes da Kenyukai treinavam de duas a três horas de manhã e outras tantas à noite, descalços, sem água e sem ar-condicionado, e só folgavam em 31 de dezembro e 1º de janeiro. Kazuo Niibori, ainda novato, vomitou pela janela do dojo para a rua, e na manhã seguinte Kotaro Ono quis saber quem tinha sido. Quem dissesse "não consigo" ouvia "então tire o traje", e outro o vestia. Nakayashiki subiu à chaminé de 50 metros em V3 pela diária de sempre, "alguns milhares de ienes", e todos os entrevistados disseram à autora que não recebiam adicional por perigo.

Homem com o uniforme de Kamen Rider V3, verde com peito prateado, segura o capacete junto ao corpo diante do céu
O uniforme de Kamen Rider V3, série de 1973 em que Nakayashiki subiu na chaminé de 50 metros (reprodução)

O JAC

O capítulo 5 acompanha a passagem das lutas para o Japan Action Club, fundado por Sonny Chiba, a partir do episódio 67 de Gorenger, em janeiro de 1976. Suzuki não investiga os motivos da troca, que diz ter várias versões e envolver pessoas já mortas. Ela descreve a mudança de estilo, com trampolins espalhados pelo chão, torres humanas como a Denji Tower de Denziman e soldados inimigos que davam saltos mortais em sincronia.

Kazuo Niibori estreou como Akarenger aos 20 anos, cercado de veteranos que respondiam "vai você!" quando ele gritava "avancem!", e fez 14 vermelhos até Jetman, em 1991. Hirofumi Ishigaki conta que, num ensaio, Niibori passou a espada de leve por uma fila de cápsulas explosivas presas ao corpo de um monstro e quebrou todas, com uma precisão que "normalmente seria impossível". Como Niibori não sabia nadar, os roteiros passaram a desfazer a transformação sempre que o Red tinha de cair na água.

O cantor Ricardo Cruz, de São Paulo, integrante associado do JAM Project, aparece no capítulo entre os admiradores do Red de Niibori:

"Mesmo quando ele está usando a máscara, consigo perceber imediatamente que é Niibori quem está interpretando o personagem. Existe alguma coisa quase mágica em seus movimentos."

Ricardo Cruz, cantor do JAM Project
Kazuo Niibori, hoje, em gesto de ação ao lado de uma foto de Red One, de Bioman
Niibori em gesto de ação, ao lado de Red One, de Bioman, um dos 14 vermelhos que vestiu (reprodução)

Kenji Ohba, o Battle Kenya de Battle Fever J e o Denzi Blue de Denziman, e Junichi Haruta, o Goggle Black e o Dyna Black, levaram o JAC para os papéis sem máscara. No meio, eram chamados no meio de "Ohba, o computador" e "Haruta, o homem selvagem". Ohba calculava onde pisar e onde aterrissar. Haruta atacava como se quisesse derrubar o adversário de verdade, e os novatos do grupo se dividiam entre os dois estilos.

Os colchões das pontas da formação, apelidados de kuzu matto, "colchões imprestáveis", eram piores do que o do Red, no centro. Michihiro Takeda, o suit actor de Goggle Pink, sangrava pelo nariz em quase todas as quedas. Kuniyasu Ito, o Goggle Yellow, fraturou vértebras do pescoço num salto mortal triplo, ficou sem movimentos do pescoço para baixo. Voltou no ano seguinte, em Dynaman, e fez um salto mortal duplo uma única vez, como ritual para vencer o medo. Takeda também saltou de um helicóptero, a 20 metros, no filme de Sun Vulcan:

"Enquanto caía de costas, o céu estava lindo, completamente azul. Tudo parecia acontecer em câmera lenta. Eu conseguia enxergar até o contorno das montanhas, bem distantes. Aquela queda pareceu durar uma eternidade."

Michihiro Takeda, o Goggle Pink
Osamu Kaneda, de jaqueta com a palavra STUNT, com a equipe de suit actors de Flashman segurando os capacetes
A equipe de ação de Choushinsei Flashman, de 1986, com Osamu Kaneda (de jaqueta STUNT) e, embaixo à esquerda, Hikaru Kurosaki, o Jaspion (reprodução)

Suzuki escreve que, como autora, não pode "romantizar de maneira irresponsável" as condições de trabalho da era Showa nem encerrar a discussão dizendo que antes tudo era melhor. A ressalva ocupa um parágrafo, e o resto do capítulo trata cada fratura com a admiração de quem viu aquelas cenas na infância.

Gavan

O capítulo 6 começa com Uchu Keiji Gavan, a série de 1982 que, no relato de Suzuki, tirou o tokusatsu do inverno do começo dos anos 1980 e chegou a 18,6% de audiência. O protagonista Kenji Ohba aparecia em quase todas as cenas, e a produção entregou o herói prateado a Jun Murakami, do JAC. Murakami levava as próprias botas para o set e pedia que fossem pintadas de prateado. Para economizar na composição de efeitos, a espada laser ganhou uma lâmpada fluorescente como lâmina, e o ator tinha de lutar sem tocar o adversário e escondendo o fio com o movimento das pernas.

Hiroshi Watari, que sucederia Ohba em Sharivan, conta no livro que assistia às lutas dele em vídeo até quase gastar as fitas:

"As diferenças de físico e de experiência são evidentes. Mas, acima de tudo, aquela força do tronco, aquela estabilidade que permite executar uma sequência inteira de luta com precisão absoluta, sem nenhuma oscilação, é algo que só o Kenji Ohba tem."

Hiroshi Watari, o Sharivan
Kenji Ohba, como Retsu Ichijoji, de uniforme branco e azul, ao lado de Wakiko Kano, como Mimi, de rosa, numa sala de comando
Kenji Ohba como Retsu Ichijoji, ao lado de Wakiko Kano, a Mimi, em Uchu Keiji Gavan, de 1982 (foto: Toei)

Em maio de 2018, menos de um mês depois de aparecer num evento organizado por fãs, Ohba adoeceu e se afastou do trabalho. Suzuki fecha o trecho dizendo acreditar "firmemente" que ele voltaria a aparecer diante do público, "assim como os heróis que interpretou". Kenji Ohba morreu em 6 de maio de 2026, aos 71 anos. Lida hoje, a passagem guarda a esperança que a autora dividia com os fãs.

Okamoto

Jiro Okamoto tinha cerca de 1,80 m e três anos de JAC quando o diretor de ação Osamu Kaneda o escolheu para Kamen Rider Black, em 1987. O Red de Niibori servia então de manual para quem fazia herói, com o braço estendido a partir do ombro para apontar o inimigo. Okamoto cortou esses gestos para construir um Rider que apenas fica de pé. O suit actor Yasuhiro Takeuchi, o Don Murasame de Donbrothers, disse à autora: "Mesmo quando não está fazendo nada, o jeito como ele fica de pé é muito bonito".

Kamen Rider Black em pose de combate, com os braços dobrados à frente do corpo, num pátio de concreto
Kamen Rider Black, de 1987, o primeiro Rider de Jiro Okamoto (reprodução)

Parado, Okamoto já calculava onde poria os pés quando a luta começasse. Também mudou a posição das mãos de uma série para a outra, abertas em Black, como quem acabou de lutar, e fechadas em RX, como quem continua pronto para o combate. Na entrevista, ele diz que o sentimento é o que atravessa o traje:

"Se for uma cena de choro e eu chorar de verdade dentro da máscara, vou parecer estar chorando mesmo sem nenhum gesto específico. Se não houver sentimento, quem assiste percebe, e tudo vira mera forma."

Jiro Okamoto, o Kamen Rider Black

Heisei

Kenji Tominaga fazia ninja no parque temático Nikko Edomura e quase não tinha assistido a Kamen Rider quando foi escolhido para Kuuga, em 2000. Sem conhecer as convenções do gênero, atuava com o rosto escondido dentro da máscara, e a equipe ria dizendo que Kuuga não parecia surpreso nas cenas de surpresa. Seiji Takaiwa, o Mr. Heisei Rider, vestiu o protagonista em 18 séries, de Agito a Zi-O. Levou um ano para ganhar o que chama de "coragem de não se mover", depois que o diretor Ryuta Tasaki lhe disse que até o jeito de se virar dele era "de Sentai".

Kamen Rider Den-O, de 2007, rende as páginas mais divertidas do capítulo. Takaiwa fazia Den-O e o Imagin Momotaros, Okamoto fazia Kintaros, Eitoku fazia Urataros e Toshihiro Ogura, Ryutaros, e o grupo se provocava em cena com medo de ser ofuscado pelos outros. Takaiwa colou na máscara de Momotaros sobrancelhas de fita adesiva preta, direto na tomada valendo, para não correr o risco de ser vetado no ensaio.

Sanshiro Wada, um dos intérpretes de Ultraman Mebius, de 2006, protagoniza a passagem mais forte do capítulo. Na gravação da despedida, em que Mebius volta para o espaço, Wada subiu na plataforma que a equipe ergue nos braços para simular a decolagem e começou a chorar dentro da máscara. O esforço para segurar o choro aparece no abdômen, que sobe e desce dentro do traje, e Suzuki escreve que a imagem só existe porque há um ser humano no personagem.

As entrevistas

As sete entrevistas da segunda parte foram feitas entre junho e outubro de 2022, e cada uma abre com uma foto recente do entrevistado. Nakayashiki conta que a cena da chaminé de V3 nasceu de um mal-entendido, "É que eu não ia saltar de lá!", e avalia o próprio trabalho na época em "cinquenta por cento, sendo generoso". Masaru Okada, que vestiu o Homem-Aranha (Kumo Otoko), primeiro monstro da Shocker, abriu com uma chave de fenda os buracos dos olhos da máscara, e por isso os monstros seguintes ganharam olhos expostos.

Kosuke Asai, o Gavan do filme de 2012, lembra que Kenji Ohba ficou no set de madrugada só para assistir às cenas noturnas dele, mesmo sem ter o que gravar. Yuya Nawata, o Zero-One de 2019, rezou no santuário Kurumazaki, em Quioto, para fazer um protagonista ao menos uma vez e voltou lá para agradecer quando recebeu o papel. Suzuki faz aos entrevistados a mesma pergunta sobre a palavra suit actor, e as respostas, reunidas no quadro abaixo, formam um debate que o livro deixa em aberto.

Tetsuya Nakayashiki hoje, segurando uma figura de Kamen Rider
Tetsuya Nakayashiki
Jiro Okamoto apoiado no guidão de uma moto
Jiro Okamoto
Seiji Takaiwa de terno e gravata
Seiji Takaiwa
Três dos entrevistados do livro (reprodução; foto de Takaiwa: Oricon)
O nome do ofício
"Por que não simplesmente ator?"

Mishio Suzuki pergunta a vários entrevistados o que eles acham da expressão suit actor.

Bin Furuya · Ultraman

Furuya"Nos Estados Unidos, o termo suit actor ainda não é muito conhecido. Lá, usam suit performer. Mas considero suit actor, a expressão criada no Japão, uma palavra muito bonita. Quero que os jovens possam dizer ‘sou suit actor’ no exterior e que as pessoas entendam o que isso significa."

Tetsuya Nakayashiki · Kamen Rider V3, Skyrider e Super-1

Nakayashiki"Eu gosto. Soa melhor do que ‘a pessoa que está dentro da fantasia’. E eu realmente vestia um traje. Eu mesmo uso essa expressão."

Masaru Okada · Ohno Kenyukai

Okada"Não tenho nada contra. Cabe ao público decidir como chamar quem interpreta monstros e Riders. Mas eu vivo como Masaru Okada, coreógrafo de lutas, e quando me apresentam sem mencionar isso eu peço um minuto. Prefiro ‘Okada, o coreógrafo de lutas’ a ‘Okada, o suit actor’."

Jiro Okamoto · Kamen Rider Black e RX

Okamoto"Basicamente, para mim tanto faz. Só que, em vez de ouvir ‘o suit actor que faz aquele personagem é incrível’, quero ouvir ‘o Niibori, o Nakayashiki ou o Jiro que faz aquele personagem é incrível’."

Kenji Tominaga · Kamen Rider Kuuga

Tominaga"Não desgosto tanto assim. Acho que somos iguais aos atores no sentido de sermos intérpretes, mas também há diferenças entre os próprios intérpretes. Não é algo que me incomode muito."

Seiji Takaiwa · Riders de Agito a Zi-O

Takaiwa"Não me irrita, mas também não me deixava muito à vontade. Ainda penso: por que não simplesmente ator? Mas talvez tenha sido bom ganhar um nome. Antes éramos apresentados como ‘a pessoa de dentro’, e com um nome para a profissão ficou mais fácil aparecer na mídia, e os jovens passaram a poder dizer que querem ser suit actor."

Kosuke Asai · Zyuoh Eagle e Kamen Rider Saber

Asai"Eu queria ser um herói, e não ator, dublê ou profissional de ação, e agora isso se chama suit actor."

Yuya Nawata · Kamen Rider Zero-One

Nawata"Entendo que seja fácil de usar como categoria, mas não me apresento como suit actor. Às vezes digo ‘ator’. Se for para dizer se gosto ou não, não é uma expressão de que eu goste muito."

O livro

Suit Actor no Kyouji tem os vícios de um texto escrito por quem admira o assunto. Suzuki usa com frequência palavras como "extraordinário" e "sobre-humano". Alguns parágrafos empilham nomes de séries e de intérpretes em ritmo de catálogo. O capítulo 2 termina em tom de orgulho nacional, chamando a atuação de máscara de técnica "sem equivalentes" que o Japão deveria preservar. A própria autora reconhece que a crítica ao Homem-Aranha americano saiu "maldosa e severa".

A troca da Ohno Kenyukai pelo JAC em Gorenger, um dos episódios mais discutidos da história dos bastidores, fica fora do livro por decisão declarada. A autora prefere a palavra dos entrevistados à reconstituição dos conflitos. Em troca, Suzuki conversa com essa gente há duas décadas, desde o primeiro 340 Presents, e o acesso aparece nos detalhes. A corda puxada por cinco colegas no Homem-Aranha da Toei e o choro de Wada dentro de Mebius são exemplos de bastidor difíceis de encontrar reunidos.

Para o leitor brasileiro, que cresceu com Jaspion, Changeman e Black Kamen Rider na televisão, o livro diz quem estava dentro das armaduras daquela geração e quanto ganhava para cair de um prédio. Kyouji, a palavra do título, junta em japonês orgulho e dignidade profissional. Tetsuya Nakayashiki dá ao livro a definição mais próxima dela quando a autora lembra que muitos profissionais de ação o chamam de gênio:

"Eu me pergunto onde está essa genialidade. Gênio é quem faz tudo com facilidade, sem esforço. Eu me esforcei, então prefiro ser chamado de dedicado. Penso que consegui fazer aquilo porque me esforcei muito."

Tetsuya Nakayashiki, o Mr. Showa Rider
Compartilhar:

Fontes: Maruzen Junkudo, imidas e Kumamoto Nichinichi Shimbun.