Na noite de 22 de agosto, no palco apertado do Loft Plus One, em Tóquio, dois homens cruzaram espadas de cena diante de algumas dezenas de pessoas sentadas em banquinhos. A coreografia era de Kazuo Niibori, e o duelo tinha um destinatário que não estava ali. Kenji Ohba morreu em maio, e a décima nona edição do Kanreki-sai foi o primeiro encontro daquela turma sem ele. Quem conta a noite é Mishio Suzuki, repórter do Yomiuri Shimbun que organiza desde 2003 os eventos da série 340 Presents e publicou a cobertura no Yomiuri Shimbun Online.
Um ator que fazia os dois lados do herói
Ohba era o Gavan de 1982, o policial do espaço que abriu a linhagem dos Metal Hero, e antes disso fez na Toei uma coisa que quase ninguém fazia: interpretar o herói dentro e fora do uniforme em duas séries seguidas. Foi Shirou Akebono e Battle Kenya em Battle Fever J, foi Daigoro Oume e Denji Blue em Denziman, e nas duas assinou a própria ação. Saiu do Japan Action Club de Sonny Chiba, hoje Japan Action Enterprise, a mesma escola que formou Niibori e boa parte de quem entrou naqueles trajes nos anos 1980.
O Kanreki-sai é uma noite de conversa comandada por Niibori, o homem que vestiu praticamente todos os vermelhos do Super Sentai, ao lado de Junichi Haruta, o preto de Goggle V e de Dynaman dentro e fora do traje, e de Toshimichi Takahashi, o general Desgiller do mesmo Goggle V. Ohba era o quarto lugar daquela mesa e não faltava a uma edição até 2018, quando adoeceu.
Niibori saiu do hospital para ir
Niibori também vinha faltando. Ele machucou a coluna no verão de 2024, ficou internado e passou as últimas edições longe do palco. Pelo amigo, conseguiu autorização para sair do hospital no meio da reabilitação e apareceu de cadeira de rodas, fazendo com o tronco as poses de herói que antes saíam do corpo inteiro. Participou da conversa a noite toda, e a plateia recebeu a aparição como quem recebe de volta uma parte da casa.

Ao redor dele estavam os regulares, o discípulo Kenji Takechi e o ator Kihachiro Uemura. Tsutomu Kitagawa, que assina como Kitagawa 2tom, estava nos Estados Unidos para um evento e mandou um recado que foi lido no palco. Kitagawa escreveu: "O Kenji me ensinou uma porção de coisas, que a expressão muda conforme a direção da máscara, a imagem do braço girando, o ângulo do joelho."
A lista de convidados dava a medida de quem estava sendo lembrado. Vieram Takanori Shibahara, o suit actor de Vul Shark em Sun Vulcan, e Satoshi Kurihara, veterano do JAC que fez o general Gailer em Sharivan. Subiram também Jun Murakami, que vestiu a armadura de Gavan enquanto Ohba fazia Retsu Ichijouji de rosto descoberto, e Koji Unoki, o azul de Dynaman dentro e fora do uniforme.

A queda no mar das Filipinas
A história mais contada da noite veio da juventude de Ohba, no mar das Filipinas. Ele e outros rapazes do JAC toparam trocar de veículo em pleno voo, subindo por uma escada de corda pendurada num avião pequeno para alcançar um helicóptero. O avião ia a 120 ou 130 quilômetros por hora, o piloto do helicóptero teve medo de se aproximar e a manobra nunca aconteceu. Ohba largou a escada naquela velocidade e caiu no mar, quicando na água como pedra jogada de raspão. Não quebrou nada, subiu no barco de apoio e passou um bom tempo furioso.
No palco, a mesa voltou ao episódio rindo. "O Kenji ficou bravo, né", lembrou um deles, e outro emendou: "Foi a primeira e a última vez que eu vi o Kenji com tanta raiva."

Kushida, o tema de Gavan e a pose que Ohba ensinou
O ponto alto da noite foi a entrada de Akira Kushida. A voz dos temas de Gavan passou por uma doença grave e tinha voltado aos palcos havia pouco tempo. Kushida falou de Ohba, cantou o tema com a força de sempre e fechou com a pose de jouchaku, o grito de transformação da série, do jeito que aprendeu com o próprio Ohba. A casa veio abaixo.

No fim, Takechi cantou "Chichi yo", a música de inserção de Gavan que era do repertório do mestre, e Kushida emendou "Hoshizora no Message". Muita gente no palco e na plateia ouviu as duas chorando.

Durante a noite, Takechi repetiu várias vezes que o amigo estava por ali. "O Kenji deve estar em algum canto do salão", disse. Suzuki escreveu que pensa o mesmo, e que relatos como os daquela noite se perdem quando ninguém organiza um lugar para eles. Ela fecha a coluna assim: "Quero continuar mantendo esses espaços de conversa e fazer os depoimentos chegarem ao maior número de pessoas possível." O duelo que abriu a noite tinha a assinatura de Niibori na coreografia, e era o jeito mais direto que aquela gente conhecia de se despedir de alguém que passou a vida caindo, levantando e marcando o próximo golpe.
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