No episódio 60 de Kamen Rider, o Homem-Coruja recebe o Rider Kick, rola por uma encosta de cerca de 10 metros e explode. Dentro do traje estava Hiroshi Namekawa, da Ohno Kenyukai, que contou que as asas nas costas amorteceram a queda e o pouparam de ferimentos. Depois de parar, ele ficou um momento sem conseguir respirar nem se mover.
A queda fazia parte da rotina de trabalho da Ohno Kenyukai, equipe de ação fundada em 1964 pelo coreógrafo de lutas Kotaro Ohno. Em Kamen Rider, série que estreou em abril de 1971, seus integrantes desenharam as lutas, deram forma à pose de transformação e ao Rider Kick e vestiram os trajes do herói, dos monstros e dos soldados da Shocker, trabalho que depois receberia o nome de suit actor.
O Japan Action Club, o JAC, criado pelo ator Shinichi Chiba, fornecia profissionais para a mesma produção. O comando das lutas ficava com Kazutoshi Takahashi, cofundador da Ohno Kenyukai, a quem a equipe chamava de Kashira, o chefe. Num talk show de julho de 2021 no cinema Toei Marunouchi, em Tóquio, o ator Hiroshi Fujioka, o Rider original, afirmou que a série não existiria sem o grupo.

Os anos de espada
A origem desse trabalho está em Kotaro Ohno, que nasceu em Suginami, Tóquio, em 6 de junho de 1933, passou pelo Gekidan Himawari e aprendeu a luta cênica com Tatsuo Ouchi ainda no ensino médio. Em 1964 deixou a Ouchi Kenyukai, onde os mais jovens quase não recebiam trabalho, e abriu a própria equipe, com dojo e escritório de dois andares no terreno de sua casa.
A equipe vinha da luta de espada dos dramas de época, e os movimentos de seus integrantes guardavam essa raiz. Takahashi, nascido em Asakusa em 1943, entrou na época da fundação e assumiu a coreografia das lutas. Masaru Okada, de Saitama, ingressou em 1967 depois de recusar o convite durante um ano. Em janeiro de 2025, num evento com ex-integrantes em Shibuya, ele explicou que recusou porque queria ser astro.
A equipe já tinha feito a luta cênica de Nihon Kengekiden, em 1968, e a ação contemporânea de Judo Itchokusen, série da TBS exibida a partir de 1969, com Takahashi à frente das cenas de ação. Nessa série, Takeshi Sasaki, o futuro Rider Nº 2, interpretou Ukyo Kazamatsuri e passou um ano trabalhando com a equipe. Quando Kamen Rider estreou, em 1971, Takahashi ainda estava ocupado com Judo Itchokusen, e Ohno coreografou pessoalmente as primeiras lutas.
O acidente de Fujioka
Foi nesse primeiro ano de filmagens que Hiroshi Fujioka, que interpretava o protagonista Takeshi Hongo, sofreu uma lesão grave, e a produção separou a atuação dramática da ação. O ator aparecia sem máscara, e um integrante da Ohno Kenyukai assumia o traje depois da transformação. Okada, que fizera o monstro Homem-Aranha no primeiro episódio, passou a vestir o Rider ao lado de Fumiya Nakamura. Perguntado como recebeu a tarefa, respondeu rindo: “As pernas ficaram mais curtas, não foi?”, em comparação com a época de Fujioka.
Nakamura, principal intérprete do Rider Nº 2 dentro do traje, vinha do teatro moderno, e Takahashi tinha sido ator mirim do Himawari. Tetsuya Nakayashiki e outros ensaiavam interpretação junto com as lutas, e vários deles formaram dentro da equipe uma companhia, a Gekidan Sei, com apresentações próprias.
Fujioka dizia que precisava de toda a atenção para interpretar, e a máscara de pouca visibilidade limitava até um ator de ação como ele. Com dois profissionais no papel, o cronograma ficou mais flexível e a produção passou a escrever cenas mais ousadas.
Sasaki chegou a vestir o traje escondido do produtor, apesar da proibição de que o protagonista se machucasse. Ele contou que a parte mais difícil começava depois do grito de “Transformação!” e que quis passar por aquilo para sentir a gratidão que devia aos homens da Ohno Kenyukai. Ao rever as imagens com Okada, os dois discutiram sobre quem aparecia em cena: “Esse sou eu”; “Não, sou eu!”.
A pose de transformação
Com a divisão, a transformação passou a ser o momento em que o ator de drama cedia o lugar ao integrante da equipe, e a cena pedia um gesto que o público reconhecesse. Takahashi passou horas diante do espelho em busca de uma pose de transformação elegante e chegou a ela combinando golpes da luta com duas espadas e a dança tradicional japonesa. Hayato Ichimonji, o Rider Nº 2, gritava “Transformação!”, abria os dois braços para a direita e os levava em semicírculo até parar. Segundo o Mynavi News, a emissora MBS queria uma transformação mais clara, e a postura de judô serviu de referência.
Okada contou em janeiro de 2025 que mostrou ao Kashira posturas de Judo Itchokusen e que ele escolheu entre cinco ou dez opções. Quando lhe perguntaram quanto havia de seu na pose, respondeu que tudo era do chefe e que o seu papel não importava.
“Isso é exatamente como um drama de época!”
O produtor Hirayama, sobre a poseA pose cumpria a função do selo mostrado em Mito Komon e do gesto de apresentação do kabuki, o mie. Em Kamen Rider V3, Takahashi buscou inspiração na entrada do yokozuna no ringue de sumô. O ator Hiroshi Miyauchi disse ao Cinema Today, em novembro de 2025, que a pausa no meio do gesto foi ideia sua, para aparecer um segundo a mais na tela.
Nobuhiro Yamaguchi, num capítulo publicado pela KADOKAWA em 2012, aponta Kamen Rider Stronger, de 1975, como provável primeira série de heróis a incorporar o tsurane, a fala de apresentação do kabuki.
“O céu chama, a terra chama, as pessoas chamam! Chamam por mim para derrotar o mal!”
Tsurane de Kamen Rider Stronger, 1975O Super Sentai herdou esse tipo de encenação no mesmo ano, e a apresentação diante da câmera passou a fazer parte do gênero.
O nascimento do Rider Kick
Depois da transformação vinha o golpe final, que o roteiro do primeiro episódio descrevia assim:
“Kamen Rider salta bem alto, descreve um oito no ar para acumular o máximo de energia e cai como uma bola de fogo”
Roteiro do primeiro episódio de Kamen Rider, 1971A Ohno Kenyukai transformou o trecho num chute aéreo com trampolim, e Okada supõe que a ideia foi do Kashira, que pensou num golpe dado no ar porque o Rider era um gafanhoto.
O coreógrafo Masatsugu Takase observou em livro de 2013 que o Rider já usava o chute como golpe final dois anos antes de Bruce Lee, com Operação Dragão, de 1973, popularizar a luta de chutes. Um chute dado por uma pessoa também custava menos que os raios de Ultraman, que exigiam composição de imagens.
Depois do sucesso de Bruce Lee, Takahashi quis atualizar o estilo das lutas do Rider. Até então o tronco ia quase paralelo ao chão nos chutes comuns, e o astro chutava com o tronco ereto e de forma curta e rápida. Os integrantes passaram a erguer a perna segurando as esquadrias das janelas do dojo, e alguns ficaram com dor forte na lombar.
Uma criança morreu ao saltar de um lugar alto tentando imitar o Rider, e o caso foi tratado como problema social. No episódio 68, Fujioka, como Hongo, pediu às crianças que não imitassem as cenas, em um apelo dirigido ao público da série.
Os soldados da Shocker
O golpe final era dado no monstro, mas a luta começava com os soldados da Shocker, que nos primeiros episódios de Kamen Rider usavam pintura no rosto e boinas. A maquiagem tomava tempo, e era preciso esconder o rosto para que um número pequeno de atores aparecesse várias vezes, o que levou ao uniforme inteiramente preto que se consolidou na série. Atacando o Rider por todos os lados, eles preparavam o público para o duelo com o monstro.
Um precursor aparece em Magma Taishi, nos Hitomodoki, criaturas vestidas de preto dos pés à cabeça que assumiam formas humanas. Em Kamen Rider, as vozes dos soldados eram acrescentadas depois da filmagem e feitas pela própria equipe. Shinichi Wakasa, que entrou no grupo por admiração pelas cenas de ação da série, disse que quase todas as vozes dos soldados dos anos 1970 eram da Ohno Kenyukai. Segundo ele, o dublador Nobuyuki Ishizuka também fazia as vozes dos Shocker Riders.
O ator atrás da máscara
A voz também importava para quem atuava dentro dos trajes, e os integrantes decoravam as falas mesmo com o rosto coberto pela máscara. Quando tropeçava nas palavras, Nakayashiki pedia para interromper a filmagem e repetir a tomada, num tempo em que a película era cara e havia quem protestasse que ninguém veria sua boca.
No episódio 9 de Kamen Rider, o Rider interpretado por Nakamura deposita flores no túmulo de um cachorro, de costas para a câmera, numa cena sem diálogo. No episódio 45, o mesmo Rider derrota Namekujira, o Homem-Lesma vivido por Okada, diante de tanques de gás reais e sai do quadro sem responder aos agradecimentos das crianças.
Okada montava os movimentos dos monstros a partir do que cada um tinha, como um chicote ou um veneno. Kawarasaki, que interpretou muitos deles, disse que os movimentos mudam conforme o vilão deva assustar ou fazer rir, e que o papel pede sensibilidade de ator além do domínio do corpo.

Nakayashiki seguiu como Rider principal até Kamen Rider Super-1, em 1980, e Kawarasaki, o General Shadow de Kamen Rider Stronger, disse que ele parecia ter nascido para o papel. Michi Yamato, também da equipe, disse que o Rider de Nakayashiki era sensual, no bom sentido, e parecia envolver o inimigo durante a luta.

O Kanreki-sai é um encontro que homenageia veteranos do tokusatsu ao completarem 60 anos. No palco do Shinjuku Loft Plus One, o organizador pediu a Nakayashiki que improvisasse um Rider no alto de um penhasco, ao fim de uma luta. Sem som nem iluminação, ele mexeu os ombros como quem recupera o fôlego e se virou, e a plateia, que conversava até então, ficou em silêncio.
O treino diário no dojo
Aquele domínio do corpo vinha do dojo, onde os treinos aconteciam todos os dias, de manhã e à noite, com duas a três horas por período. As folgas eram 31 de dezembro e 1º de janeiro, e mesmo nos dias de gravação os integrantes eram orientados a voltar ao dojo à noite. Começavam pelas formas básicas de espada, passavam às sequências de ação contemporânea, aos chutes e às quedas de costas e terminavam nas lutas de Okada, repetidas devagar e depois na velocidade máxima.
O dojo não tinha ar-condicionado, ninguém bebia água durante o treino e as lutas eram ensaiadas descalço no piso de madeira, até a pele das solas se soltar e os pés sangrarem. Kazuo Niibori, que viria a interpretar muitos heróis vermelhos de Super Sentai, vomitou pela janela do segundo andar, em direção à rua, no tempo de novato. Na manhã seguinte, Ohno apareceu furioso e quis saber quem tinha sido.
Nos primeiros meses de Kamen Rider, as cenas de trampolim ficaram com Misumi e Mitsuo Haruta, do JAC, que já aparece creditado como Junichi Haruta. Reservava-se um dia de filmagem de trampolim para cada dois episódios, e Haruta contou que saltava da manhã à noite. Depois entraram na Ohno Kenyukai atletas que tinham feito ginástica artística na escola, entre eles Hiroshi Ueda, e a equipe passou a fazer os saltos.
O mangaká Kenichi Muraeda, autor de Kamen Rider SPIRITS, afirmou em texto publicado pela Gendai Business em abril de 2023 que os membros do JAC absorveram a técnica da Ohno Kenyukai e melhoraram a partir dela. Em outro texto da mesma série, também de abril de 2023, Okada descreve Takahashi como um chefe que queria manter o trabalho dentro da própria facção: um ferimento de integrante do grupo podia ser mantido em segredo, o que não se podia pedir a integrantes de outra equipe.
Na hierarquia da equipe, os novatos só podiam segurar a máscara dos veteranos nos intervalos das filmagens, e a peça nunca ia ao chão, porque era tratada como o rosto do protagonista. Quem dissesse “não consigo” ouvia que devia tirar o traje, e outro o vestia.
“Para nós, a palavra ‘não’ não existia”
Hiroshi Ueda, que fez a ação de Himitsu Sentai Gorenger, em 1975O risco sem protetores
Essa disciplina era posta à prova nas filmagens. Riders, monstros e soldados rolavam por cascalho e barrancos sem protetores, usando só o traje, exceto nas partes em que o figurino exigia volume, e esfolavam braços, pernas e costelas. Nakayashiki considerava os músculos visíveis sob o tecido justo parte da interpretação.

Na ponte de sete ou oito metros que aparece nos créditos finais a partir do episódio 14, os soldados caem na água do mar um depois do outro. Vários deles, Okada entre eles, não sabiam nadar, e Okada disse que, daquela altura, a queda sentado era suportável. As colunas de água que cada queda levantava substituíam as explosões, que custavam dinheiro. Kawarasaki saltou de uma ponte na barragem de Ogouchi, em Okutama, em pleno inverno, e tinha ordem de cair de costas para levantar bastante água.
No episódio 46, Okada, de Rider, foi arrastado por uma motoneve numa montanha coberta de neve. O traje de malha, que substituíra o couro, era fino demais para rolar pela neve, e Okada contou que a dor era a mesma de ser arrastado sobre concreto.
No episódio 97 houve uma luta em cima do teto de uma cabine de teleférico. Nakayashiki, de Rider, enfrentou Kawarasaki, que fazia o monstro Ganikomori, e chegou a erguê-lo nos ombros. Uma corda de segurança aparece no começo da sequência e foi retirada durante a filmagem porque atrapalhava. Nakayashiki disse que foi a única vez, em todo o seu trabalho nas séries de Kamen Rider, em que viu uma corda.
No episódio 4 de Kamen Rider V3, a direção pediu que Nakayashiki subisse de traje numa chaminé de cerca de 50 metros, sem grade. A única estrutura disponível era um para-raios deteriorado pela chuva e pelo vento, e ele precisou ficar com uma perna de cada lado da abertura, assumir a pose e erguer os braços. Todos os entrevistados disseram que não recebiam adicional pelo perigo, e Nakayashiki afirmou que a diária era a de sempre, alguns milhares de ienes. No evento de Shibuya, em 2025, disse que, aceito o trabalho, nunca cogitou recusar.
Os espetáculos ao vivo
A disposição para o risco acompanhou a equipe aos palcos, e o primeiro espetáculo de Kamen Rider aconteceu de 23 a 25 de julho de 1971 no Mirika Land, em Osaka, durante um evento da emissora Mainichi Broadcasting. Ohno dirigiu a apresentação com dois Riders. Enquanto um monstro da Shocker causava confusão, o herói surgia no telhado de um prédio vizinho, e a troca de intérpretes levava o olhar das crianças de um ponto a outro.
Em 1972 a equipe passou a se apresentar no teatro ao ar livre do parque Korakuen, hoje Tokyo Dome City Attractions, onde Ohno cuidava de estrutura, roteiro e direção. Trilhos de montanha-russa passavam sobre o palco, e Ohno os aproveitou para entradas em que o herói chegava a bordo do carrinho ou saltava dos trilhos, sobre um chão de concreto com um colchão no vão sob o palco.
Segundo o jornal Yomiuri Shimbun de 30 de abril de 1972, seis mil pessoas lotaram o terraço de uma loja e obrigaram a casa a limitar a entrada pela primeira vez desde a inauguração. Kawarasaki viajou mais de um ano por lojas e supermercados nos fins de semana e assinou mais de duas mil vezes num único dia. Nessa fase nasceu a sequência Nagasakiya, uma coreografia simples que um temporário de qualquer região aprendia depressa.

Kazuo Onaga, que dirige hoje uma empresa de eventos, sofreu uma queda e bateu a cabeça no concreto num espetáculo de Kamen Rider X, em 1974, vestido de soldado. Perdeu a consciência, levantou-se sem perceber e lutou contra o Rider até o fim da apresentação, e só então foi levado ao hospital. Onaga também mergulhou de cabeça no lago do jardim da casa da cantora Hibari Misora, em Aobadai, num show encomendado para o aniversário do filho dela, Kazuya Kato.
A equipe depois do Rider
As filmagens e os palcos mantiveram a equipe ocupada depois de Kamen Rider. Ela fez a ação de Chojin Barom-1 e Henshin Ninja Arashi, em 1972, de Inazuman, em 1973, e de Himitsu Sentai Gorenger, até o episódio 66. Takahashi saiu em 1976, depois de divergências com Ohno, que o expulsou, e fundou a Big Action com ex-integrantes do grupo. Os dois se reconciliaram por volta de 1986, cinco anos antes da morte de Takahashi, em 11 de novembro de 1991, aos 48 anos.
Em 1978, a Toei reduziu de forma acentuada a produção de séries de tokusatsu, e o grupo passou a atender também outras empresas. Em 1980, Ohno entregou a representação a Okada e assumiu a presidência honorária, cargo em que se dedicou a formar novos integrantes. Em 1985, a equipe virou a empresa Ohno Kenyukai Action Studio, com Okada na direção.

Kotaro Ohno morreu em 30 de outubro de 2009, aos 76 anos, de colecistite aguda, uma inflamação da vesícula biliar. A Ohno Kenyukai não se desfez com a morte do fundador e segue em atividade como empresa, com a coordenação de lutas em mídia, teatro e atrações. A edição ampliada de A história da Ohno Kenyukai, organizada por Okada, saiu em 2023 pela Sairyusha.
Em 25 de janeiro de 2025, o evento Cho Ohno Kenyukai Matsuri lotou o LOFT9 Shibuya, em Tóquio, com fãs vindos de Taiwan, Hong Kong e Estados Unidos. Okada, Nakayashiki, Kawarasaki e Ueda subiram ao palco, e cada um se apresentou com o grito de identificação do herói que interpretou.
Fontes: livro A história da Ohno Kenyukai, supervisionado por Masaru Okada (1999; edição ampliada de 2023), Cinema Today (janeiro de 2025), Cinema Today (novembro de 2025), Mynavi News (3 de julho de 2021), Mynavi News (20 de julho de 2021) e Gendai Business (21 de abril de 2023: texto 1 e texto 2).