Em maio de 2003, três anos antes de morrer, Machiko Soga sentou com uma fã e falou de Hedrian, de Bandora e do dia em que tirou a maquiagem no set de Zyuranger. O Kyoudai Express traduziu a conversa na íntegra.
Machiko Soga nasceu em 18 de março de 1938, em Hachioji, Tóquio, e chegou à televisão pela voz: em 1965 foi o Q-taro do primeiro anime de Obake no Q-taro, sucesso de 40% de audiência. Cansada de ser reconhecida como Oba-Q na rua, largou o trabalho no começo dos anos 1970, passou quase três anos entre Itália, Síria e Afeganistão e voltou decidida a se transformar. A transformação veio pelas vilãs.
A bruxa God Iguana de Rainbowman (1972) foi a primeira. A bruxa Belbara de 5-nen 3-kumi Mahogumi (1976) convenceu a Toei, e em 1980 a rainha Hedrian de Denshi Sentai Denjiman abriu a sequência de rainhas do mal que ela levaria por 12 anos: a mesma Hedrian ressuscitada em Taiyo Sentai Sun Vulcan (1981), a rainha Pandora de Jikuu Senshi Spielvan (1986) e a bruxa Bandora de Kyoryu Sentai Zyuranger (1992), cujas cenas viraram a Rita Repulsa de Mighty Morphin Power Rangers no mundo inteiro. Entre uma série e outra ela tocava a loja de antiguidades Stella, em Kunitachi, onde recebia fãs, e voltou uma última vez à Toei em 2005 como a Grande Santa Celestial Magiel, no filme de Mahou Sentai Magiranger. Morreu em 7 de maio de 2006, aos 68 anos.
A entrevista abaixo foi realizada em 2003 por Yukinko, do HERO BOX, site japonês de fãs de Super Sentai. O Kyoudai Express resgatou esse raríssimo bate-papo e o traduziu na íntegra. Em três blocos, um por série, Soga conta o figurino pago do próprio bolso, a fita métrica de Denjiman, os disfarces de Sun Vulcan de que já não se lembrava, o roteiro de Zyuranger com uma única linha de fala e a tarde em que tirou a maquiagem e ameaçou deixar a série por causa de um feitiço lido ao contrário.
01A primeira rainha
Vamos começar por Denjiman, seguindo a ordem cronológica. A senhora já deve ter respondido isso em outras entrevistas, mas gostaria que contasse como surgiu o convite para interpretar a rainha.
O convite aconteceu porque Toki Shiozawa, que interpretava a bruxa Iguana em Ai no Senshi Rainbowman, cansou da maquiagem pesadíssima de rugas que usava para se transformar em velha. O papel chegou até mim, e foi a primeira vez que fiz uma vilã em programa de tokusatsu. Quando digo "primeira vez", os fãs sempre corrigem e lembram que antes houve Kappa no Sanpei. Mas aquele trabalho eu fiz apenas porque me pareceu divertido. Nunca tive a intenção de me especializar nesse tipo de papel. O que me atraía era a ideia de que um ator faz de tudo. Não havia nenhum plano de criar uma marca do tipo "rainha ou bruxa, chame a Machi Soga". Quando Toki Shiozawa saiu, pensei que seria interessante experimentar, e assim nasceu a bruxa God Iguana. Refleti seriamente sobre como construir o papel para entrar naquele mundo. Na época eu fazia muito teatro, e percebi que bastava interpretar como num clássico de Shakespeare, com a voz cheia. Um vilão nesse tipo de programa é diferente de um drama comum: exige exagero, uma dicção e uma movimentação de palco. Entrei em Rainbowman achando graça do nome "Shine Shine Dan" [a organização vilã da série], mas confesso que a atuação em geral não me agradou. Ainda assim me esforcei para fazer bem a minha parte. Depois disso, por motivos pessoais, fiz uma longa viagem pelo Oriente Médio, e quando voltei senti que precisava me transformar em alguma coisa. A primeira transformação foi justamente uma bruxa, em 5-nen 3-kumi Mahogumi. Interpretar a bruxa foi uma delícia. Pensei: "esse é o meu mundo!". A Toei também estava satisfeita, porque a audiência ficou em dois dígitos do começo ao fim, e chegou a negociar com o patrocinador, a fabricante de brinquedos, para continuar a série. A resposta foi que eles queriam vender brinquedos novos e precisavam de outro programa. Ficou decidido então que fariam algo em formato diferente. Um dia me mostraram a proposta de Denjiman. Ali havia muitos pontos em que a imagem de bruxa e rainha que eu queria criar podia crescer. Pensei: "isso dá para fazer, e vou pensar em ideias junto com eles". Por isso, quando chegou o desenho da rainha Hedrian, apontei que a orelha à mostra tirava a elegância e fiz a peça por conta própria. No teatro é a mesma coisa: o quimono a gente aluga, mas quando convém que a personagem pareça mais cheia, a atriz prepara ela mesma o figurino e os acessórios. Como tenho essa mania, hoje penso que deveria ter cobrado por isso. Muitas peças saíram do meu bolso (risos).
Já li que muita coisa era sua, os sapatos por exemplo.
Economizar nesse tipo de coisa dá uma impressão de mesquinharia. Para causar impacto, é aí que não se poupa dinheiro. O que vem indicado no roteiro, o departamento de figurino providencia. O que não vem indicado, eu achava natural providenciar sozinha. Se alguém dizia "aqui vai unha postiça", eu ia direto à loja e comprava várias iguais, para o caso de alguma cair. E comprava lamê brilhante em grande quantidade, de uma vez.
02Figurino do próprio bolso
Nesse sentido, a Hedrian de Sun Vulcan usou muito mais figurinos, com todos aqueles disfarces.
Os disfarces para andar pela cidade, por exemplo, eram todos meus.
Sério?
Sim, porque as roupas do estúdio eram peças genéricas. Quando ela se disfarça de secretária e caminha pela rua, nada do acervo cai bem de verdade. Fica brega, desculpe a franqueza. Na prova de figurino da Toei eu vestia por obrigação, depois dizia "gostaria de ir neste clima", fazia um esboço rápido das roupas que tinha em casa, indicava as cores e perguntava o que achavam. A resposta era sempre "então faça assim, Soga".
E terminava tudo do seu guarda-roupa.
Eu ficava contente, e o resultado era melhor do que uma roupa qualquer.
Uma roupa comum ficaria sem graça.
Uma pessoa normal, fazendo aquilo, tem restrições demais e morre de medo. Comigo é o contrário: não há restrição nenhuma. Uma atriz de drama convencional, vestida daquele jeito, não consegue fazer uma pose grandiosa nem soltar um grito. E fazer o que ninguém consegue é justamente o que me diverte. No palco eu também sei fazer o normal. Essa diversão tem parentesco com o "crazy" do vilão de A Pantera Cor-de-Rosa. Eu gosto do caótico, do bagunçado. Mas, sendo rainha, é preciso um pouco de dignidade também.
03Uma rainha com humanidade
A primeira Hedrian, a de Denjiman, era assim.
Exatamente. Ela é a chefe dos vilões, então não pode ficar gritando o tempo todo. O que chamo de "caótico" é quando a personagem faz tudo direitinho e de repente comete uma gafe. Isso é comédia. Eu não estava querendo fazer comédia. Interpretava a rainha, mas dentro dela precisava haver algo de humano.
A feminilidade aparecia claramente.
Precisava aparecer. Quando surge algo mecânico, a tendência é imaginar uma fala de robô, pausada e dura. Ninguém aguenta assistir a isso, só gasta tempo. Então ela fala normalmente, continua sendo rainha, mas há sempre alguma coisa engraçada ali.
E aparecia mesmo.
No fundo, eu queria mostrar vários lados ao mesmo tempo. Queria uma atuação que cada espectador pudesse interpretar como preferisse.
De fato, cada pessoa sentiu a Hedrian de um jeito. Houve quem a achasse assustadora e quem a achasse feminina e fofa.
E quem a achasse atrapalhada. É isso que eu adoro nas séries Sentai: a liberdade de fazer o que se quer.
Principalmente do lado dos vilões.
Sim, ali se pode ser livre. O galã precisa ser galã, e se tropeça sem uma atuação que sustente, fica constrangedor. Já o nosso lado pode ficar à vontade. Por isso a sensação era de que eu não conseguiria parar. Eu não esperava que aquilo durasse para sempre, mas em algum canto do coração havia o desejo de continuar. Depois do sucesso com Oba-Q, eu queria acertar em cheio como bruxa e rainha. Só que isso não pode transparecer no rosto. O público precisa gostar por conta própria, e a produção, a Toei, precisa chegar sozinha à conclusão de me chamar de novo. Eu não posso pedir nada. O meu trabalho era me expressar, me divertir com liberdade e aproveitar o momento. O reconhecimento eu decidi encarar como bônus (risos).
A diversão transparecia. Assistindo hoje, dá para ver que a senhora se divertia.
A Hedrian foi a minha primeira rainha de verdade.
Sim.
Até então, God Iguana tinha mais de bruxa do que de rainha, Mahogumi era uma bruxa, e em Kappa no Sanpei fiz uma espécie de monstro. Rainha exige um ar de rainha. Por isso viajei pelo mundo, vi tesouros de rainhas, provei um pouco da vida elegante nos castelos e respirei aquele ar. Como já tinha lido livros sobre rainhas de vários países, estava preparada. Mas fazer rainha é difícil, e normalmente ninguém consegue. Quem tem porte de rainha costuma ter corpo de modelo, esguio, e em compensação não pode tropeçar, porque não sabe atuar. Gente com aparência de rainha existe aos montes.
Para ficar em pé, apenas.
Para ficar em pé, muita gente parece rainha. Mas assim o trabalho não tem graça (risos). Fazendo bruxas e rainhas, a cada episódio eu só pensava em me divertir e em como trabalhar de forma agradável com todo mundo. Nunca me preocupei em fazer média com os chefes nem puxei saco de produtor. Preferia me unir ao pessoal da iluminação e à equipe em volta. Quem atuava mal talvez me achasse uma pessoa terrível, porque eu me empolgava e dizia "faça assim que fica melhor". Podem dizer que eu deveria cuidar da minha vida, mas o clã Vader, em especial, precisava estar coeso. Um só atuar bem não é atuar bem. É preciso união e firmeza. Quando eu dava uma ordem, todos tinham que se mexer na hora. Sem aquela tensão inicial, a cena fica sem sal. Comecei falando dos chefes e terminei nos subordinados, mas se eu continuar tudo vai virar a mesma história, então paro por aqui (risos).
04Hedrian volta do gelo
E a rainha Hedrian continuou direto em Sun Vulcan.
Soube no meio do caminho que iam usar a Hedrian de novo. Eu já planejava viajar para longe assim que Denjiman terminasse. Fiquei sabendo no inverno, quando as filmagens estavam acabando.
Perto do fim de Denjiman?
Quando faltavam poucos episódios, me disseram que a ideia era mais ou menos aquela. Eu não podia responder que não dava, muito menos falar de viagem. Perguntei se seria com a Hedrian, e achei que ela apareceria em Sun Vulcan com o mesmo figurino desde o começo.
Isso seria complicado.
Pensei que, se fosse do mesmo jeito, eu manteria o sentimento de então, mas o entorno ia mudar, e precisava entender como. Pedi para ver o desenho. Como o projeto já estava começando, os desenhos deviam estar prontos. Eu estava concentrada em Denjiman, então pedi que me explicassem Sun Vulcan a partir das ilustrações. Contaram que ela ressuscitava de dentro do gelo e recebia um coração artificial. Entendi que seria uma personagem totalmente diferente, mesmo com o nome Hedrian. Sendo assim, tudo bem.
E quando viu o desenho da Hedrian de Sun Vulcan?
O desenho precisava de ajustes em pontos que não se notam à primeira vista.
Mudou muito?
Nem tanto. Se eu mexesse demais, seria desrespeito com quem fez o desenho.
É verdade.
Numa situação apertada como aquela, eu ainda poderia pedir correções se fosse mais cedo, mas com o figurino pronto, os adereços passei a usar os meus.
Foi assim que os objetos pessoais foram aumentando.
Aumentaram. Se tivesse participado desde o começo, eu jamais teria usado coisas minhas.
A primeira aparição da Hedrian em Sun Vulcan é marcante. Ela muda num instante.
Sim, de dentro do gelo.
No momento em que acorda, já está diferente.
E ela sente o novo coração.
Visualmente, a cabeça é enorme.
As crianças chamavam aquilo de "Marukome" [o mascote careca de uma marca de missô] (risos).
Não era pesado?
No meu caso, a questão de peso já tinha ficado para trás. No verão escorregava, no inverno era frio, e todo figurino é assim. É duro. As meninas que faziam as Zero Girls ficavam sem colocar nada até a hora da gravação. Eu ficava com tudo firme no lugar, por mais pesado que fosse. Na hora de ajustar a luz, elas tiravam tudo sem pensar nas sombras e nos detalhes.
Tirar no ensaio e recolocar na gravação muda a sensação.
Esse tipo de preguiça eu não me permitia. Elas diziam que era a primeira vez que faziam aquilo, mas nesse ponto eram surpreendentemente relaxadas. Eu nunca dizia nada, porque mandar colocar direito seria intromissão. Quando a atuação estava ruim, aí sim eu dizia para atuar direito. A preguiça se volta contra a própria pessoa mais tarde. Ela precisa perceber sozinha. Na gravação aparece uma sombra estranha, o câmera reclama e manda colocar tudo desde o começo, e a atriz obedece. É preciso passar vergonha uma vez para aprender. Sou rigorosa.

05Os disfarces esquecidos
Em Sun Vulcan a Hedrian usa muitos disfarces.
Não me lembro muito deles (riso amarelo). Se me pergunta isso, fico em apuros (risos).
Revi há pouco e há uma cena em que ela dança de collant.
O collant era em outra série, Uchu Keiji Gavan, tenho quase certeza.
Em Sun Vulcan também há.
(surpresa) Há mesmo?
Ela faz Carmen e também uma dança japonesa de quimono.
(muito surpresa) Disso eu esqueci completamente (risos). Dança japonesa? Bom, eu fazia dança de vários tipos.
Ela tenta seduzir um homem para atrair o espírito de um ancestral dele e achar um tesouro.
Que engraçado, só de ouvir dá vontade de rir (risos). Eu me lembrava de algum disfarce, mas isso não.
Há também um figurino de deus do trovão.
Disso eu me lembro (gargalhada). Fiquei com vergonha daquela calça de deus do trovão na prova de figurino.
Ficou muito marcante.
Só dessa parte eu lembro. Reclamei da calça, mas era trabalho, então vesti. Da dança japonesa e do collant não lembro nada.
É o mesmo episódio.
Sério? Então é isso, não lembro mesmo.
06A cena da fita métrica
Achei que a Hedrian de Sun Vulcan tinha um toque mais cômico do que a de Denjiman.
Foi por isso que mudou.
Há a explicação do coração novo, mas ela mantém o ar de rainha e ganha um lado mais palhaço.
Vou contar uma coisa. Antigamente eu era ocupada demais e quase nunca assistia aos meus programas, mas nos últimos dois ou três anos vi algumas fitas que fãs me deram. Em Denjiman há uma cena em que a subordinada Mirror mede meu busto e minha cintura para fazer uma roupa. Naquela cena, briguei feio com a atriz Mikawa, que fazia a Mirror, por causa da atuação dela.
Sério?
Quando fizeram do jeito que eu improvisei, ficou engraçado, e vi que tinha dado certo. Ri alto (risos). Não costumo rir da minha própria atuação, mas fazia tanto tempo que não assistia que ri. Todo mundo estava em sintonia naquela cena.
Sim (risos).
No começo a Mirror fazia de um jeito afetado. Colocava a fita métrica com todo o cuidado no meu busto, fazia uma pausa estranha e anunciava "98 centímetros" ou "1 metro". Era "busto... 98, cintura... 98", com ela olhando fixamente para o meu busto, e demorava uma eternidade.
Entendo.
Assim o riso morria. Eu não estava tentando arrancar risada, mas disse a ela para parar de medir com aquela seriedade, sem se preocupar com um milímetro. Era um programa maluco, então bastava dizer rápido "busto 98, cintura 98, quadril 98", sem olhar com tanta atenção. Medindo com calma, gasta tempo. Quando ela diz mecanicamente "98, 98, 98", é a Hedrian que fica irritada. Enquanto ela mede, eu me contorço e fico emburrada. Como atriz, eu poderia responder ao "98" dela com um "no-ven-ta e oi-to" bem marcado, mas isso ficaria de mau gosto e pesado. É mais engraçado quando ela dispara os números e eu reajo.
Deu certo.
Com o tempo curto, o meu rosnado ganha força. Quando ela termina a leitura e eu solto o rosnado, quem está assistindo reage junto. Expliquei isso, ela entendeu e passou a dizer os números mecanicamente. O general Hedrer, que ouvia do lado e ia entrar na cena, começou a rir. Eu disse a ele que aproveitasse aquele tempo para pensar na próxima fala, em vez de ficar medindo só a própria parte com tanto cuidado.
Em Sun Vulcan, como a imagem mudou completamente e o coração também era outro, não teria graça repetir a mesma rainha. Não podia ser a mesma Hedrian com outro nome. Por isso eu queria algo mais leve, e os disfarces trazem essa leveza.
Sim, mais leve do que na série anterior.
Do sombrio ela pula para o leve. Era isso que eu queria.
E ela passou a sair mais para a rua.
Saía toda hora (risos).
Sobre subordinados, paro por aqui. No máximo falo do clã Vader. Em Sun Vulcan aconteceram muitas coisas, e desisti de cobrar as meninas que faziam as subordinadas (riso amarelo). Com mais gente ficou difícil, e eu me cansei. Por isso, no meio do caminho, passei o bastão para Yukie Kagawa, a Amazon Killer, que chegou depois. Pedi a ela que cuidasse das Zero Girls (risos). Somos amigas até hoje e nos falamos sempre.
07Bandora e a família
Por último, Zyuranger.
Zyuranger.
Gosto bastante dessa personagem. Ela tem um lado fofo.
A Bandora é bruxa, e a essa altura era preciso mudar tudo, a começar pelo visual. Além do meu papel, eu adorava o design do Pleprechaun. O Bookback e o Totpat seguiam uma linha meio O Mágico de Oz, e isso me agradou.
Eu também gostava daquela família.
As ideias para deixar aquilo ainda melhor vieram na hora. Por isso eu era amiga do pessoal do JAC, os suit actors que ficavam dentro das fantasias. O JAC dá a orientação de atuação deles, e é impressionante como a ação sai precisa, até num momento melancólico. Mas, enquanto o personagem fala, um pequeno ângulo do rosto muda sutilmente a fofura, e há um jeito de fazer a região do nariz parecer fofa num instante. Isso eu sussurrava para quem estava dentro, em segredo.
Li que ela ficou mais popular do que os protagonistas e que as falas dela foram cortadas.
Até mais ou menos o episódio 5, o pessoal de cima dizia que era um problema a Bandora parecer a protagonista. Os protagonistas eram todos novatos e, desculpe dizer, ninguém sabia atuar. Eu ia com tudo e virava um alvoroço. Decidiram reduzir minhas aparições para eu atuar menos, na ilusão de que assim os cinco brilhariam. Estavam errados, porque eles eram cinco. Eu achava que a minha intensidade era a medida certa, mas concluíram que, de qualquer ângulo, o peso da Bandora era maior, e que para os cinco viverem era preciso cortar as falas dela. Depois do episódio 5, cortaram sem dó. Houve um roteiro inteiro em que eu tinha uma única linha de fala.
Sério?
Sim. Aí fiquei teimosa e caprichei naquela única linha: coloquei riso, raiva, alegria e tristeza, todas as emoções em uma frase. A equipe de filmagem adorou e caiu na risada. Mas eu estava séria, porque só tinha aquela linha, e precisava tirar o máximo dela, com pausas e tudo. No fim concluíram que era melhor me deixar falar um pouco mais, porque com uma linha só eu chamava atenção demais.
Ficava mais marcante.
Exagerava (risos). Voltou a um nível normal, mas mesmo assim as falas continuaram poucas.

08O feitiço e a maquiagem
Eu também gostava mais da família Bandora do que dos protagonistas.
Era divertido, não era?
Com crianças como protagonistas, ficou com clima de família.
Essa era a nossa intenção.
E na quadrilha até havia um casal.
Exatamente. Eu achava que dava para montar algo muito bom. Mas para chegar até ali houve atrito com o autor. A virada para o estilo musical também teve várias etapas, e minha opinião acabou entrando. A essa altura eu já não queria mais dar sugestões ao autor só para deixar a série mais divertida, mas o pensamento estava tão engessado que, na verdade, eu pretendia sair na metade.
Sério?
Sim. Fazia exatamente seis meses de série quando, numa cena de feitiço, pediram que eu lesse o encantamento de trás para a frente. Eu sempre criava meus feitiços por conta própria, como o "Atinie Power". Quando entramos em gravação, o diretor disse que a produção queria o feitiço lido de um jeito específico. Era uma sequência de sílabas que, lida ao contrário, formava "itoshi no waga musuko" [meu amado filho]. Era o enigma da história, e no final todos se surpreenderiam. Respondi que não brincassem comigo, que eu saía do programa naquela hora. Disse que ia tirar a maquiagem e que o diretor avisasse a todos que a Soga tinha saído. Ele pediu que eu esperasse e foi correndo avisar que eu ameaçava ir embora se tivesse que fazer daquele jeito. A resposta que voltou foi que eu fizesse como pediam. Expliquei então que a intenção do autor era previsível, que eu vinha atuando a sério porque não queria decepcionar o público, e que não tinha feito aquilo tudo para um esquete besta. Meus feitiços eu criava sozinha, com palavras vindas do árabe e de outras línguas, cada uma com significado. No começo o roteiro trazia apenas vogais soltas, e o diretor tinha me dito que, por ser feitiço, eu podia fazer do meu jeito. Seis meses depois vinham com vogais soltas de novo. Eu não ia fazer, e não era encenação. Tirei a maquiagem e disse que ainda dava tempo de me trocarem, que com seis meses de série era fácil inventar um motivo. Ligaram na hora para o roteirista, que perguntou por que eu não fazia o que ele tinha escrito (risos). Respondi que não dava, que se aquele feitiço era um enigma de final óbvio, eu não tinha me esforçado seis meses para terminar numa chatice, e que se era para sair, quanto antes melhor. Pediram que eu esperasse uma ligação. A resposta final foi que eu fizesse o feitiço como sempre, sem tirar a maquiagem. Disse que, se me deixavam fazer do meu jeito, eu não falava mais em sair. E gravamos. No episódio seguinte, o autor, que devia estar com o orgulho ferido, foi ao set assistir escondido (risos). Eu percebi que ele estava lá e comecei a comentar em voz alta que uma cena daquelas ficaria divertida em estilo musical. Daí nasceu a canção da Bandora (risos).
Eu adorava esse clima divertido.
Foi divertido. No final, ela canta enquanto é lançada ao espaço (risos).

09Um final para continuar
O último episódio é impressionante, e foi bom ninguém morrer.
Pedi que parassem com as explosões e com o padrão repetido. Todo mundo já sabia como acabava. Disse ao autor que o espectador assiste porque quer saber o que vai acontecer, e que finais previsíveis afastam o público. Foi o básico, mas ele ficou tão irritado que veio ouvir o que eu tinha a dizer. Depois inventou a canção da Bandora, gostou tanto que ela voltou várias vezes (risos).
E o final: ela é selada, mas termina alegre.
Decidi que no final ia me divertir, e me diverti demais (risos).
A última fala de despedida da Bandora foi muito fofa.
Por isso entendo por que o produtor americano quis a Bandora como a bruxa Rita em Power Rangers.
Dá a sensação de que ela vai voltar à Terra.
A ideia é que a história continua.
Não seria estranho se voltasse.
Nada estranho (risos).
Bastaria alguém desfazer o selo.
Os finais divertidos e com cara de continuação são, em geral, ideia minha.
Então aquele também foi. Não há outro igual.
Os outros eu fazia como estava escrito.
Nas primeiras séries a Hedrian sobrevive, mas os subordinados morrem.
Em Zyuranger eu fiz questão de deixar tudo pronto para continuar.
Realmente parecia que ia continuar.
A Bandora ia voltar para a Terra toda alegre (risos).
É um dos meus finais preferidos.
E aquela frase de despedida, "vocês vão se lembrar de mim!" (risos).
Fofa demais. Aquela fala também!
E ainda mostrei a língua. Isso eu acrescentei por conta própria (risos).
Sendo a Bandora, está tudo certo (risos).
