Quarenta e seis anos depois de estrear num palco de loja de departamentos, Shocker Ohno fala ao Kyoudai Express sobre Kazuo Niibori, Kenji Ohba, Shotaro Ishinomori, o nascimento do Aniki e o futuro de Super Sentai.
Hiroshi Oono nasceu e cresceu em Yokohama. Não tinha irmãos e os pais trabalhavam fora, então acabou mergulhando no mundo da televisão, uma criança da televisão no sentido exato da expressão. Nesse ambiente, os programas de heróis, quase todos com o crédito de Shotaro Ishinomori na abertura, viraram a bússola de uma vida inteira. Em 1980, ainda estudante, ele entrou num traje de soldado inimigo num espetáculo de Ultraman 80 em Higashimatsuyama e, no mesmo dia, acabou com o microfone na mão como chefe dos vilões. Pela agência M Project passou pelos sets da Ohno Kenyukai e da JAC, onde estreou na dublagem no primeiro episódio de Kamen Rider Super-1, e trabalhou como dublê, soldado e monstro de Denziman, Goggle-V, Dynaman, Bioman, Gavan e Sharivan. Nos programas de variedades da época, como Oretachi Hyokinzoku, Hachiji Da Yo! Zenin Shugo e Ikinari Friday Night, ele vestiu os trajes de heróis como Gekko Kamen, Kamen Rider, Kaiketsu Lion-Maru e O Retorno de Ultraman. Passou ainda pelo especial Nascimento do Décimo! Todos os Kamen Riders Reunidos!!, em que Masaru Okada o recebeu com um elogio à sua luta.
Oono trabalhou durante anos na casa de Shotaro Ishinomori, como manager do criador de Kamen Rider, e foi no rádio, ao lado de Akira Sakuma, que o apelido Shocker ganhou público e depois o padrinho. Dali a carreira se ramificou em vendedor de editora, roteirista de programas, produtor de televisão e de eventos, dublador formado por Akira Kamiya, coreógrafo de ação, empresário de talentos e autor. Em 1988 lançou o primeiro livro de ensaios, Rider Kick wa Itakatta (O Rider Kick Doía), e foi ele que abriu caminho para o mangá de 1989, Nekketsu Hero Nikki, sobre o cotidiano dos espetáculos de heróis. Depois vieram Cult Quest: Kamen Rider Hen, a Enciclopédia de Todos os Monstros e Vilões, a Grande Enciclopédia dos Espetáculos de Super-Heróis e a história dos espetáculos de Korakuen.
No microfone ele construiu a parte mais visível dessa trajetória. No fim dos anos 1980 apresentou os espetáculos do edifício NS, em Shinjuku, sob a supervisão de Kazuo Niibori, aprendeu o ofício observando Hiro Narita em Korakuen e em 1997 deu a Ichiro Mizuki o apelido Aniki. Em 1999 propôs o Super Hero Spirits, o primeiro show dedicado apenas a músicas de tokusatsu, e ainda hoje conduz o Super Sentai Spirits, que em novembro de 2026 volta a Tóquio e Osaka. Com o mangá a caminho de uma edição brasileira financiada coletivamente, a conversa abaixo passa pela viseira embaçada de Denzi Blue, por uma madrugada de curry com tonkatsu ao lado de Kenji Ohba, pelas fotos que salvaram a enciclopédia e pela noite em que ele precisou falar do fim de Super Sentai diante de uma plateia de fãs.
01Criança da televisão
Quando era criança e crescia em Yokohama, o que o tokusatsu significava para você? Depois de trabalhar nesse universo por 46 anos, o que ele passou a significar?
Meus pais trabalhavam fora, eu era filho único e, naquela época, não havia videogames nem internet. Inevitavelmente, acabei me tornando uma "criança da televisão". Entre todos os programas, os de heróis de tokusatsu eram uma presença muito importante, que me dava coragem e esperança.
No ensino médio, em meio ao boom de anime que começou com Uchu Senkan Yamato, a série de ficção espacial de 1974 que no Brasil ficou conhecida como Patrulha Estelar, me apaixonei pela reprise de Cyborg 009. Dali explodiu a minha paixão pelas obras de Ishinomori, representadas por Kamen Rider, e pelos programas de tokusatsu que eu via quando criança. Passei a trilhar o caminho do tokusatsu, que começou pelo mundo da ação, e por meio dele ganhei muitos amigos e companheiros que ocuparam o lugar dos irmãos que eu não tive. Quando me dei conta, tinha passado a maior parte da vida envolvido com tokusatsu, a ponto de me chamarem de lenda.
02A estreia em Higashimatsuyama
No seu primeiro espetáculo de Ultraman 80, você deveria interpretar um soldado inimigo, mas acabou, de repente, assumindo o microfone como o chefe dos vilões. Como conseguiu se sair diante de centenas de crianças?
Foi na loja de departamentos Maruhiro, em Higashimatsuyama, na província de Saitama, perto de Yoshimi Hyakuana, um lugar bastante conhecido pelas filmagens.
Durante o ensaio, de repente, quem interpretava o chefe dos vilões comentou: "Ultimamente, minhas falas no palco estão sempre iguais. Já enjoei. Não tem alguma ideia nova?". Contei sobre uma piada do Ken Shimura que tinha visto outra equipe usar, e ele me pegou de surpresa: "Então faça você!".
Como eu já gostava muito de espetáculos de heróis, isso acabou ajudando. Consegui me virar com presença de palco e improvisação. Essa foi a minha estreia.
03A máscara embaçada de Denzi Blue
Em janeiro de 1981, você interpretou Denzi Blue em um espetáculo usando um traje feito para as filmagens. Para quem está dentro dele, qual é a diferença entre um traje de filmagem e um traje de palco?
Foi na loja de departamentos Tobu, em Utsunomiya, na província de Tochigi.
No caso de Super Sentai, a partir de Denshi Sentai Denziman (a série de 1980), as máscaras de filmagem normalmente têm uma viseira transparente. Já as de palco têm essa parte feita de FRP, plástico reforçado com fibra de vidro, com vários furinhos de ventilação, o que permite enxergar bem.
A viseira de filmagem, em condições normais, também não prejudica tanto a visão. O problema é que, quando você coloca a máscara e começa a fazer ação, ela embaça completamente e você quase não consegue enxergar.
Por isso, antes de filmar, os integrantes mais jovens da JAC aplicavam um produto para evitar o embaçamento. Como normalmente usavam xampu, chamavam isso de "men-shan", algo como "xampu de máscara".
Naquele dia, porém, ninguém imaginava que receberíamos uma máscara de filmagem. Ela embaçou assim que a coloquei, e fiz toda a luta sem enxergar nada. Como não conseguia calcular a distância, meus socos acabaram acertando os colegas mais experientes que contracenavam comigo! [risos]
Em abril do ano seguinte, num espetáculo de Taiyo Sentai Sun Vulcan (o Sentai de 1981) no Festival de Segurança no Trânsito de Musashino, eu interpretava Vul Eagle. Havia uma cena em que lutava em cima de uma pequena construção, saltava para o chão e corria até o palco principal fazendo ação.
Mesmo tendo aplicado o antiembaçante, a máscara embaçou com o calor enquanto eu aguardava no telhado, na parte de trás da construção. Mais uma vez, saltei sem enxergar nada. Como não consegui perceber o momento da aterrissagem, acabei sofrendo uma entorse.
04Quem ensinou a cair
Nos espetáculos dos anos 1980, vocês saltavam de alturas consideráveis sobre caixas de papelão usadas no lugar de colchões. Como aprendiam a cair? O que Kazuo Niibori ensinou a você sobre isso?
Aprendi muitas coisas com Niibori, a começar pela postura e pela maneira de me comportar nos sets, e também a interpretação, o senso de distância entre os corpos numa luta e o jeito de trabalhar nos espetáculos e nos eventos. Mas quem me ensinou ação diretamente foram os colegas mais experientes da minha agência, a M Project.
Aprendi as técnicas de luta com Yoshitake Iwaizumi, que interpretou Kamen Rider X no último episódio de Kamen Rider (a série de 1979, conhecida como Skyrider), o próprio Skyrider no filme de Kamen Rider Super-1 (1981) e, entre outros trabalhos, o Ultraman 80 da cena em que o herói vira para-raios, no episódio do monstro Medan em Ultraman 80 (1980).
Já os trabalhos de dublê aprendi com Shinichi Yoshida, que interpretou Kamen Rider Amazon tanto no último episódio de Skyrider quanto no filme de Super-1. Ele também fazia cenas de trampolim quando Hiroshi Ueda, da Ohno Kenyukai, estava ocupado.
05Kenyukai e JAC
Na mesma época, você trabalhou tanto com a Kenyukai quanto com a JAC. Como era a maneira de trabalhar de cada equipe? O que um iniciante percebia de diferente entre os sets de Masaru Okada e Osamu Kaneda?
Basicamente, os sets em que trabalhávamos funcionavam em torno do coreógrafo de lutas ou do diretor de ação. Portanto, as diferenças eram as maneiras de trabalhar e os estilos de cada um. Mas nunca senti algo como: "Nossa, aqui é completamente diferente!".
Uma coisa que me deixou muito feliz aconteceu no primeiro dia de filmagem de Nascimento do Décimo! Todos os Kamen Riders Reunidos!! (o especial de TV de 1984 que apresentou Kamen Rider ZX ao lado dos nove Riders anteriores). Okada me disse: "Ohno, ouvi dizer que você é bom de luta, hein? Hoje estou contando com você!".
Na verdade, Okada e o presidente da nossa agência, Masao Mizuta, eram amigos de longa data. Acho que ele me disse aquilo por causa dessa amizade. Fiquei muito agradecido!!
Com Kaneda trabalhei em Uchu Keiji Gavan e Uchu Keiji Sharivan. Assim como Okada, ele escalava um dublê vindo de outra agência para ajudar exatamente como escalava os membros da JAC. Um quarto de século depois, o diretor Kaneda me procurou diretamente: "quero filmar uma cena cômica com os soldados, aparece lá, Ohno!", para o filme Super Hero Taisen Z (2013).
Em janeiro do ano passado, convidei os dois, Okada e Kaneda, para a primeira aparição conjunta deles na história do meio, no Shocker Tours presents Legend Suit Actor Special Talk Show. O pessoal em volta estava tenso, imaginando no que aquilo ia dar. Em Kamen Rider, que era um trabalho da Kenyukai, quem fazia as cenas de trampolim eram Kaneda, Junichi Haruta e outros integrantes da JAC, que tinha acabado de nascer. Okada elogiou: "o Kin-chan e a turma dele faziam o trampolim no nosso lugar!", e Kaneda respondeu: "que nada, era porque vocês ficavam em volta dando apoio que eu conseguia saltar tranquilo!". Me emocionei ao ver que a amizade dos dois era firme desde aquela época.
06Kenji Ohba
Você conheceu Kenji Ohba nas filmagens de Gavan. Como ele era no dia a dia do set? Qual é a sua lembrança favorita dele?
Na verdade, nosso primeiro encontro foi quando participei das filmagens do episódio 41 de Denshi Sentai Denziman, em Yoshimi Hyakuana.
Eu ainda era iniciante e, primeiro, fiquei surpreso ao descobrir que o próprio Kenji também vestia o traje de Denzi Blue. Depois, fiquei de queixo caído ao vê-lo executar um mortal impulsionado pelas mãos de outra pessoa dentro de uma caverna de teto baixo.
Em Gavan, frequentemente havia crianças participando como convidadas. Kenji gostava muito de crianças e brincava com elas nos intervalos. Eu pensava: "Que pessoa gentil!".
Pessoalmente, tenho muitas lembranças de bebermos juntos. Até poucos dias antes de ele passar mal, ficamos juntos até de manhã.
Mas a lembrança mais marcante foi uma noite de chuva torrencial em Shinjuku. Por volta das onze da noite, encontrei Kenji, que vinha de uma confraternização de Korakuen, e fomos de bar em bar pela região de Omoide Yokocho. Quando percebi, só restávamos nós dois, comendo curry com tonkatsu às cinco e meia da manhã!!
"Kenji, já amanheceu! A chuva também parou!", eu disse, acordando-o. Nós nos despedimos na estação de Shinjuku depois da chuva, e fui para casa. Quando cheguei, o térreo do meu prédio estava cheio de lama.
Na verdade, aquele dia ficou conhecido posteriormente como o primeiro caso reconhecido de "chuva de guerrilha", aquelas chuvas torrenciais repentinas e localizadas.
Ou seja: no dia em que nasceu a "chuva de guerrilha", eu estava bebendo e comendo curry com tonkatsu até de manhã com o Gavan!

Você começou como uma presença anônima dentro do traje de um soldado inimigo e hoje é reconhecido pelo público pelo rosto e pela voz. Como foi essa mudança? Às vezes sente saudade de estar do "lado invisível"?
Nos últimos anos, de vez em quando algum fã me aborda na rua dizendo "eu vou ao Super Sentai Spirits!", mas isso é muito raro. Não senti nenhuma mudança em especial.
07O mestre Ishinomori
Você trabalhou durante anos na casa de Shotaro Ishinomori e teve seu nome artístico aprovado pelo próprio mestre. Como ele era no cotidiano? Como aconteceu essa conversa sobre o nome? Ele se interessava pelos espetáculos de heróis e pelos atores que vestiam os trajes de seus personagens?
Não dá para falar da vida que tenho hoje sem começar pelo mestre Ishinomori.
Nos primeiros anos do ensino fundamental, minha obra favorita era Cyborg 009 (o mangá de Ishinomori sobre nove ciborgues, adaptado em anime em 1968). Na quinta série, conheci Kamen Rider. Depois vieram Suki! Suki!! Majo Sensei (a série da bruxa professora, de 1971), Henshin Ninja Arashi (o ninja transformável, de 1972), Jinzo Ningen Kikaider (o androide Kikaider, de 1972), Inazuman (o herói inseto, de 1973)… Todos aqueles programas de heróis de tokusatsu que eu acompanhava com tanta paixão traziam o crédito: "Obra original: Shotaro Ishimori"!!
Eu ficava imaginando: "Que tipo de pessoa será ele?".
No ensino médio, entrei num grupo chamado Circle Terebikko Center. Por meio dele, descobri o fã-clube de Shotaro Ishimori e me associei. Aos dezoito anos, finalmente conheci aquele que seria meu mestre para toda a vida, no café Rattan, em Sakuradai, onde ele costumava desenvolver os esboços de suas histórias.
Na mesma época, contei que estávamos filmando, no fã-clube de Cyborg 009, uma versão com atores da abertura do anime em preto e branco. Ele me perguntou, com muita gentileza: "É você quem interpreta o 009?".
Era um grande mestre, criador de tantas obras extraordinárias, mas não tinha nenhuma arrogância. Era uma pessoa afável. Desde então, além de fã de suas obras, tornei-me fã da pessoa que ele era e passei a participar das atividades do fã-clube.
O fã-clube de Shotaro Ishinomori, com mais de sessenta anos de história e uma longa tradição de fanzines, reunia muitos veteranos que já atuavam profissionalmente naquela época: escritores, roteiristas, produtores e editores, incluindo Kensho Ikeda, um dos pioneiros da escrita especializada em tokusatsu. Algumas das pessoas que conheci ali continuam tão próximas de mim que nossa relação é ainda mais forte que a de irmãos.
Quando comecei a participar de programas de rádio com Akira Sakuma, criador da série de jogos Momotaro Dentetsu, trabalhávamos no programa Attack!! Hokuto no Ken, que promovia o filme de animação de Hokuto no Ken (Fist of the North Star, de 1986).
Durante o programa, Sakuma disse: "Também temos um Shocker aqui!".
Sakuma era o responsável pela seção de leitores "Jump Hoso Kyoku", da Shonen Jump, que vendia mais de quatro milhões de exemplares na época. Seu programa liderava a audiência, então aquela menção a "Shocker" gerou uma reação enorme entre os ouvintes.
Diante disso, pensei que, mesmo sendo o nome de um inimigo, eu não poderia simplesmente continuar usando-o por conta própria. Fui consultar diretamente o mestre Ishinomori, e ele resolveu tudo com uma frase:
"Ohno, se eu for o padrinho do nome, não tem problema, certo?".
Desde então, já são mais de quarenta anos usando esse nome. Tudo graças ao mestre Ishinomori!!
08A despedida repentina do mestre
Em janeiro de 1998, no dia em que Shotaro Ishinomori morreu, o senhor acabou no meio do turbilhão, e foi Toru Hirayama, o produtor de Kamen Rider na Toei, quem mandou Hiroshi Fujioka procurar o senhor. Como foi aquele dia?
Foi uma coisa completamente inesperada. Eu tinha feito um exame de saúde pela manhã e almoçava tarde numa casa de soba perto de casa quando recebi a ligação de Makoto Aoyagi, presidente do fã-clube de Shotaro Ishinomori, ex-funcionário da Ishimori Pro e, na época, subeditor-chefe de uma revista semanal: "chegou aqui a informação de que o mestre Ishinomori morreu. Isso é verdade?". Respondi: "não, hoje de manhã eu estava ao telefone com um colega mais novo da Ishimori Pro, que é diretor executivo, e ele não falou nada. Deve ser boato, não?". Era uma coisa em que eu não conseguia acreditar, então disse isso e desliguei.
Em seguida ligou um colega escritor mais velho, que estava organizando fotografias na sede da Toei: "chegou um boato de que o mestre Ishinomori… A Toei inteira está de pernas para o ar agora. É verdade?". A mesma notícia me alcançou de duas direções completamente diferentes, uma atrás da outra, e aí eu pensei: é isso mesmo. Liguei para o colega da Ishimori Pro com quem tinha falado de manhã, e ele: "na verdade…". Como ainda não havia anúncio à imprensa, era segredo absoluto. "Me desculpe por não ter podido contar nem ao senhor, Ohno." Foi um raio em céu azul.
Voltei correndo para casa e o programa de variedades de uma emissora soltou um plantão, com uma entrevista por telefone com Hiroshi Fujioka, que naquela época fazia um enorme sucesso como Segata Sanshiro, o personagem dos comerciais do videogame Sega Saturn. Logo depois disso, o telefone da minha casa não parou de tocar. Todos perguntavam se a notícia era verdadeira, e como eu não podia sair falando por conta própria, dizia: "perguntem à Ishimori Pro". A resposta era sempre a mesma: "o telefone da Ishimori Pro não completa de jeito nenhum!".
No fim, passei quatro horas e meia daquele dia atendendo ligações. Quando as coisas começavam a se acalmar, o telefone tocou mais uma vez: "alô, aqui é o Hiroshi Fujioka". Era ele mesmo, o homem que eu tinha acabado de ver na entrevista por telefone da televisão. Fujioka também soube da morte naquela entrevista, e as redações que assistiram ao programa passaram a ligar para ele sem parar. Houve até quem pedisse a ele uma entrevista coletiva, o que não fazia o menor sentido.
Fujioka era o ator principal de Kamen Rider e estava em altíssima evidência por causa do comercial, mas aquilo não tinha nada a ver com o mestre Ishinomori. Sem saber o que fazer, ele consultou Toru Hirayama, o produtor de Kamen Rider quando ele ainda estava na Toei. O conselho do produtor Hirayama foi: "quando estiver em apuros, pergunte ao Shocker Ohno". Foi assim que o telefone da minha casa tocou.
Liguei de novo para o colega da Ishimori Pro e soube que, naquela mesma tarde, os filhos do mestre dariam às pressas uma entrevista coletiva no Keio Plaza Hotel. Avisei Fujioka e conseguimos acalmar o cerco da imprensa.
Tempos depois, Hirayama me contou isso rindo: "pois é, naquele dia o Fujioka estava mesmo em apuros e eu fiquei sem saber o que fazer, então falei: quando estiver em apuros, pergunte ao Shocker Ohno. Você deu conta direitinho, e desde então o Fujioka confia em você!".
Hirayama tinha a mesma idade do meu pai e fazia aniversário quase no mesmo dia. Como perdi meu pai cedo, ele me tratou com muito carinho, como o pai que eu tinha dentro do meio. Anos depois, no programa de tokusatsu Voicelugger, que eu produzi, pedi a ele a direção geral. E foi justamente essa obra que acabou sendo a última do meu mestre, Shotaro Ishinomori.
09O edifício NS e Hiro Narita
No final dos anos 1980, você começou a promover encontros em que os artistas conversavam com o público depois dos espetáculos no edifício NS, em Shinjuku. De onde veio essa ideia? Acredita que a cultura atual dos talk shows começou ali?
Os espetáculos de heróis do edifício NS já aconteciam desde a época de Dai Sentai Goggle-V (o Sentai de 1982). Inicialmente, eram realizados pela Ohno Kenyukai.
O responsável pelo planejamento e pela produção era Tadashi Koizumi, presidente da K Production. Ele havia trabalhado como responsável pela coordenação das filmagens no Estúdio Ikuta, em produções como Kamen Rider e Inazuman, e depois atuado na Toei Kikaku Promotion.
Por essas conexões, tinha uma relação próxima com Okada, da Kenyukai. Sua passagem pela Toei também permitia negociar com o estúdio e viabilizar a participação dos atores.
Depois, a equipe passou da Kenyukai para o departamento de negócios da Toei e, finalmente, para o Red Action Club, criado por Kazuo Niibori. Foi nessa fase que me chamaram para apresentar os espetáculos.
Isso aconteceu muito antes de o parque de diversões Korakuen começar a realizar apresentações com os atores das séries.
Niibori e eu tínhamos a ideia de "fazer um espetáculo que não pudesse ser visto em nenhum outro lugar". A JAC também colaborou plenamente, dizendo: "Se é o Niibori quem vai fazer, podem contar conosco".
Assim, reunimos uma equipe que até hoje é lendária entre os fãs de tokusatsu: os atores que interpretavam os heróis antes da transformação, os próprios suit actors das filmagens, a Yamamoto Onkyo cuidando do som, como também fazia em Korakuen, Shocker Ohno como apresentador e Kazuo Niibori responsável pela estrutura, direção e direção de ação.
Durante oito anos, esses espetáculos foram uma tradição da Golden Week no edifício NS de Shinjuku. Numa época sem redes sociais, reuníamos mais de duas mil pessoas por dia.
Era muito divertido!
Você aprendeu muito com Hiro Narita, o célebre apresentador de Korakuen. O que faz um bom apresentador de espetáculos de heróis? O que mudou nesse trabalho entre 1980 e hoje?
Quando se fala no rosto do teatro ao ar livre e do Sky Theater do parque Korakuen, estamos falando do mestre Hiro Narita, o "Hiro-chan".
Durante cerca de trinta anos, desde os espetáculos de Denshi Sentai Denziman até a última apresentação de Engine Sentai Go-Onger (o Sentai de 2008), ele foi uma figura fundamental para conectar as crianças aos heróis.
Sua capacidade de envolver, de uma só vez, as duas mil pessoas do teatro ao ar livre era extraordinária. E, acima de tudo, não havia desperdício nas suas falas!!
Em um espetáculo de menos de trinta minutos, havia ação, interpretação, acrobacias e grandes estruturas de cenário. Conduzir tudo isso com tamanha naturalidade era uma arte.
Assisti às suas apresentações dezenas, centenas de vezes, estudando-as profundamente. Também saíamos bastante para beber.
Ele me chamava pelo meu nome verdadeiro, Hiroshi, e brincava: "Você é mais Hiro-chan do que eu!".
Uma lembrança inesquecível foi o encerramento da segunda edição do Super Sentai Spirits, em 2006. Hiro-chan apareceu de surpresa, e nós, mestre e discípulo, pudemos fazer juntos o nosso "Até maaaais!"!!
Quando olhei para a plateia, havia gente erguendo os punhos de alegria e gente chorando. Todos estavam tão felizes! Foi maravilhoso.
É por isso que, até hoje, continuo apresentando o Super Sentai Spirits em homenagem ao mestre Hiro. ☆☆☆
Neste ano de 2026, teremos dois dias de apresentações em Tóquio, em 7 e 8 de novembro, no Zepp DiverCity, e a apresentação de Osaka em 15 de novembro, no Namba Hatch!!
10Super Hero Spirits e o Aniki
O Super Hero Spirits nasceu de uma ideia sua em 1999. Como foi a primeira edição? Como você trouxe MoJo de volta aos palcos?
MoJo não participou da primeira edição. Naquela ocasião, conheci Akira Kushida e Takayuki Miyauchi.
Tudo começou quando Tatsuji Yamagishi, presidente da Birthday Song, me perguntou: "Vamos realizar um evento chamado Anime Japan Festival durante dois dias. Um deles será o Super Robot Spirits (o show de músicas de anime de robôs). Você tem alguma ideia para o outro?".
Se era para eu propor algo, queria fazer um show dedicado exclusivamente às músicas de programas de tokusatsu, algo que ninguém tinha feito até então. Foi assim que sugeri o Super Hero Spirits.
No dia do evento, havia tanta gente que, quando entrei para fazer a abertura, o público ainda não tinha terminado de entrar.
Quando começou a introdução da primeira música, o tema de abertura de Uchu Keiji Gavan, com o Kusshy [Akira Kushida], a reação, a empolgação e os gritos da plateia foram impressionantes!
Só que, naquela primeira música, o microfone do Kusshy estava desligado!!
Normalmente, um problema desses faria todo mundo pensar: "O que aconteceu?". Mas ninguém percebeu. Por quê? Porque a plateia inteira estava cantando Gavan em coro!
Naquela época, a equipe ainda não tinha muita experiência. O microfone que haviam entregado ao Kusshy estava identificado com o nome "Ichiro Mizuki".
O Super Hero Spirits fez tanto sucesso que a turnê de outono, com apresentações em Tóquio, Osaka e Nagoya, que normalmente seria do Super Robot Spirits, foi substituída naquele ano pelo Super Hero Spirits. Foi nessa turnê que MoJo participou pela primeira vez.
Nos conhecemos pouco antes do show, na área dos camarins junto ao palco do Shibuya On Air East, hoje O-East.
Quando ele disse: "Olá, sou o MoJo", pensei: "Ele existe mesmo!".
Para mim, ele era o cantor de Battle Fever J (o Sentai de 1979), a série que me fez mergulhar no universo Sentai, e também dos temas de Dai Sentai Goggle-V e Kagaku Sentai Dynaman (o Sentai de 1983), produções em que trabalhei como ator de ação.
Desde então, ele sempre me tratou com muito carinho. Depois, durante cerca de dez anos, também cuidei do planejamento, da estrutura, da seleção musical e da apresentação de seus shows próprios.

Dizem que o apelido "Aniki", de Ichiro Mizuki, surgiu num show que você apresentou em 1997. Como foi aquele momento? Como foi trabalhar com ele durante 25 anos? Desde 2018, você também cuidava da estrutura e da seleção musical. Como escolhia as músicas e qual foi a mais difícil de viabilizar ao longo dessa história?
Na primeira música do Robonation Live, antecessor do Super Robot Spirits, uma banda de 22 músicos começou a tocar a introdução do tema de Mazinger Z (o anime de robô gigante de 1972, cantado por Ichiro Mizuki).
Ao ouvir os metais, comecei a chorar espontaneamente na lateral do palco.
Ichiro Mizuki entrou sob uma enorme ovação!! Quando a música terminou, vieram aplausos intermináveis e gritos de entusiasmo.
Como apresentador, ouvi muitas pessoas chamando: "Mizuki!". Algumas diziam "Professor Mizuki!" ou "Mestre!". Havia muitos alunos da escola de canto dele na plateia, então acho que isso explicava parte desses chamados.
Foi quando eu disse:
"É claro que Mizuki é um grande veterano e, considerando sua carreira, entendo quem o chama de professor ou mestre. Mas ele é uma pessoa muito mais próxima da gente. Ichiro Mizuki não é o irmão mais velho de todos nós?".
O público respondeu com aplausos ensurdecedores e um enorme "Siiim!".
"Então vamos chamar 'Aniki' juntos! Um, dois, três!"
"Anikiiii!!"
E Mizuki, como se aquilo traduzisse exatamente o que sentia, respondeu:
"Sou o Aniki, zeeeeetto!!"
Foi o momento em que nasceu o Aniki.
Depois disso, viajamos juntos por todo o Japão, de Hokkaido, ao norte, até Kyushu, ao sul, e participamos de muitos eventos. Mas o que mais me marcou foi ter sido o apresentador geral do Show de 1.000 músicas em 24 horas de Ichiro Mizuki, que também foi transmitido nacionalmente pela Fuji TV.
E isso não vale apenas para o Aniki. Trabalhar e conviver pessoalmente com Isao Sasaki, Mitsuko Horie, Hiroshi Fujioka, Takeshi Sasaki, Daisuke Ban, Hiroshi Miyauchi, Yoshinobu Kaneko e tantas outras pessoas que eu assistia e ouvia com paixão na televisão desde pequeno…
Às vezes, tenho vontade de dizer ao menino que eu era: "Vai chegar o dia em que essas pessoas que você tanto ama vão contar com você!".
11O milagre de Kamen Rider
Você escreveu sobre a história dos espetáculos de heróis de Korakuen. O que mais o surpreendeu durante a pesquisa? Se houver alguma história dos bastidores do teatro ao ar livre que gostaria de contar, fique à vontade.
Assim como aconteceu com o Super Robot Spirits, quando surgiu o projeto desse livro e me convidaram para trabalhar como redator e entrevistador, pensei: "Que bom que vieram falar comigo!".
Os escritores mais jovens conseguiam escrever sobre a JAC, mas pareciam ter dificuldades quando o assunto era o período da Ohno Kenyukai e as entrevistas com as pessoas daquela época. Era justamente aí que eu podia ajudar.
Além de figuras como Masaru Okada, Tetsuya Nakayashiki e Kazuo Niibori, também consegui entrevistar meu mestre na dublagem, Akira Kamiya, que havia narrado os comerciais durante muitos anos!!
E, falando em dublagem, por aquela época fui a um estúdio de animação a trabalho. Ao cumprimentar uma dubladora e entregar meu cartão, ela perguntou:
"Você é o Shocker Ohno? Tem alguma ligação com a Ohno Kenyukai?"
"Bem, somos praticamente uma família."
"Você conhece Tetsuya Nakayashiki?"
"Se conheço? É um veterano de quem gosto muito e que sempre me tratou com enorme carinho!"
"É que eu adoro Kamen Rider desde criança. No ensino fundamental II, eu ia praticamente toda semana ao parque Korakuen. O pessoal da Kenyukai acabou me reconhecendo e me tratava muito bem, especialmente Nakayashiki e a esposa dele…"
Olha só como essas coisas acontecem!!
Entrei em contato com Nakayashiki e os dois se reencontraram depois de catorze anos. Até hoje, mantêm uma amizade que inclui as famílias.
A dubladora era Yuko Kobayashi. Desde então, também nos tornamos amigos como fãs de Kamen Rider. Até hoje, de vez em quando, nos reunimos para beber em Asakusa num grupo chamado "Shonen Kamen Rider Tai", a "Equipe Juvenil Kamen Rider".
Também fazem parte do grupo Shinichi Wakasa, produtor responsável pelas criaturas e trajes da série de filmes Godzilla da era Heisei; Shigekazu Tajiri, diretor de ação da companhia teatral Gekidan Shinkansen; e Motokuni Nakagawa, que atuou dentro dos trajes de heroínas cor-de-rosa de Super Sentai e do Mechagodzilla nos filmes da era Heisei.
Naquela época, estávamos justamente editando a Grande Enciclopédia dos Espetáculos de Super-Heróis, e havia um problema que não conseguíamos resolver: tínhamos pouquíssimas fotografias do teatro ao ar livre, especialmente dos espetáculos de Kamen Rider do período da Ohno Kenyukai.
Os colegas mais jovens já estavam quase desistindo: "Passou tanto tempo… Vai ser difícil reunir essas fotos, não é?".
Foi então que me lembrei:
"Yuko, você ia tanto aos espetáculos de Kamen Rider em Korakuen… Não chegou a tirar fotos?"
"Ah, meu pai fotografava toda vez. Se eu for à casa dos meus pais, elas devem estar lá!"
Assim, conseguimos de uma só vez fotografias preciosas das épocas de Kamen Rider V3, Kamen Rider X, Kamen Rider Amazon e Kamen Rider Stronger, que nem imaginávamos poder incluir.
Isso, sim, foi um "milagre de Kamen Rider"!!

12O fim de Super Sentai
Qual é sua opinião franca sobre o encerramento da série Super Sentai?
Dois dias antes do Super Sentai Spirits do ano passado, NewJack Takuro, cantor do tema de Gosei Sentai Dairanger (o Sentai de 1993), me perguntou:
"Shocker, a essa altura você já deve ter alguma informação sobre o próximo Sentai, não?"
"Não. Há dois ou três dias, eu estava conversando com o diretor Noboru Takemoto e comentamos: 'Normalmente, já seria a época de algum anúncio. Se ainda não apareceu nada, será que…?'"
Depois dessa conversa, voltei para casa, olhei o celular e… lá estava aquela notícia inesperada na internet!!
Mas, como ainda não havia anúncio oficial, resolvi esperar para ver.
Então chegou o primeiro dia do Super Sentai Spirits. O representante da Columbia Records me disse: "Nossa empresa também não recebeu nenhuma informação sobre esse assunto, então pedimos que ele não seja abordado durante o show".
Mas, mesmo que os artistas concordassem, se eu não mencionasse nada na abertura, o público presente e quem estivesse acompanhando pela transmissão ficariam inquietos, não é?
Por isso, perguntei ao representante da Columbia: "Até onde posso falar?". Procurei o limite do que era possível dizer.
É claro que, sem nenhum pronunciamento oficial, eu não tinha a menor intenção de sair falando por conta própria. Mas não conseguia acreditar que algo construído ao longo de cinquenta anos fosse "simplesmente acabar".
Então apenas mencionei um fato: "No ano que vem, Ultraman completa sessenta anos, e Kamen Rider, 55. E os dois estão no ar atualmente!".
Minha intenção era que, depois disso, todos aproveitassem o show ao máximo. Foi quando, de repente, me vieram estas palavras mágicas:
"Nos momentos difíceis e tristes da nossa vida, não foram as músicas de Super Sentai que estiveram ao nosso lado e nos deram ânimo? Hoje, vamos nos deixar levar por essas canções preciosas e comemorar com toda a energia! Afinal, estamos celebrando cinquenta anos de existência!"
É por isso que o show deste ano também se chama Super Sentai Spirits Forever.
De 1980 até hoje, você acompanhou o tokusatsu por dentro. O que mais mudou, para melhor ou para pior, nos sets, nos espetáculos e no público?
Acho que uma boa notícia é o aumento do número de fãs mulheres jovens que dizem: "Eu adoro tokusatsu!".
Fico feliz em ver esse universo alcançar cada vez mais pessoas. E acho especialmente maravilhoso poder me conectar, por meio do tokusatsu, com vocês do outro lado do planeta e com pessoas do mundo inteiro.
13O espetáculo definitivo de Kamen Rider
Foi o produtor Hirayama quem aproximou o senhor de Hiroshi Fujioka. Como foi essa convivência, e há algum espetáculo que ficou marcado?
Foi através do produtor Hirayama que passei a ter uma relação próxima com Hiroshi Fujioka, e ser chamado por ele de camarada de armas é uma felicidade enorme. Na verdade, alguns anos antes disso nós já tínhamos feito juntos um Espetáculo de Kamen Rider em Yokosuka, na província de Kanagawa. Jo Yamanaka, amigo de Fujioka e cantor conhecido pelo tema do filme Ningen no Shomei (A Prova de um Homem), fazia todo Natal um show para as crianças da instituição em que ele próprio havia crescido, e Fujioka ia participar. Sabendo disso, a equipe procurou o Niibori: "já que o Fujioka vem, não dá para fazer um Espetáculo de Kamen Rider?". E veio o convite: "Ohno, você faz o chefe dos vilões?".
No local, em Yokosuka, se reuniram os jovens da ação que admiravam o Niibori, entre eles Seiji Takaiwa, da série Kamen Rider da era Heisei, que mais tarde faria enorme sucesso no meio da ação no Japão. Sob as ordens do chefe dos vilões que eu interpretava, eles enfrentaram Fujioka, o Takeshi Hongo, e depois o Kamen Rider 1 já transformado, que naquele dia coube a Mizuho Yoshida, que mais tarde trabalharia em Zeiram e nos Godzilla da era Heisei. As crianças ficaram felizes e o Yamanaka nos agradeceu muito.
Depois que passei a trabalhar de verdade com Fujioka, fizemos eventos em Tóquio, por toda a região de Kanto, em Nagano, Nagoya, Osaka, Kyushu e em vários outros lugares do país. No Festival Internacional de Filmes de Herói de Fukuoka, eu cuidei da estrutura e da apresentação do evento dos 40 anos de carreira dele.
Logo depois do terremoto do leste do Japão, em 2011, fomos juntos à região atingida, em Ishinomaki, na província de Miyagi. Fizemos um talk show em frente à estação e percorremos os abrigos. Vendo-o encorajar uma a uma as pessoas atingidas, me emocionei: "ah, esse homem é mesmo o defensor da justiça, o próprio Kamen Rider!". Claro que voltamos a Ishinomaki depois da reconstrução, e no dia em que o museu Ishinomori Mangattan reabriu fomos juntos até lá e fizemos um talk show. Ver as crianças e todo mundo sorrindo por causa de um evento é o que mais me alegra.
E por falar em sorrisos, eu e Fujioka nos encontramos de surpresa em vários lugares. Quando isso acontece, os dois abrem um sorriso, claro. Naquele dia nós estávamos com um Espetáculo de Kamen Rider da era Showa numa festa municipal de uma cidade da província de Chiba. Por que da era Showa? Porque não fomos chamados para um espetáculo infantil, e sim para a confraternização da equipe da festa, com a Câmara Júnior de Comércio e Indústria como cliente. Era um Espetáculo de Kamen Rider para adultos, depois do fim da festa, com os heróis 1, V3 e RX, e com um monstro da Shocker e o Shadow Moon do lado dos vilões. Nesse tipo de espetáculo chamam os membros da minha geração em vez dos jovens, e como são todos da geração que cresceu bem no meio de Kamen Rider, a peça vai se montando sozinha na improvisação durante o ensaio da luta, mesmo sem roteiro.
O padrão de sempre seria a Shocker atacando o local, 1 e V3 entrando alternadamente, a parte da brincadeira com o público no meio, 1 e V3 voltando, o Shadow Moon colocando os dois em apuros, o RX surgindo para o duelo com o Shadow Moon e, no fim, 1 e V3 derrubando o monstro da Shocker. Naquele dia resolvemos mudar o padrão: primeiro V3 e RX, e o 1 chegando para salvar no final. Terminado o ensaio, fui dar uma olhada no salão e, veja só, quem estava lá era o Fujioka!
Chamei ele baixinho, e ele levou um susto enorme, mas comigo foi a mesma coisa. Soube então que ele era o convidado principal da festa municipal, tinha dado uma palestra em outro local durante o dia e deveria voltar para Tóquio em seguida. Só que o prefeito, fã de carteirinha dele, e esse tipo de situação anda comum demais ultimamente, fez questão, e ele veio depois da palestra com a condição de ficar enquanto o tempo permitisse.
"Ué, o que você está fazendo aqui?" "Hoje eu sou Shocker de verdade!!" "Hahaha, então vou poder ver o Shocker do Ohno! Ah, mas olha, por causa do horário eu só consigo ficar até certo ponto." Ele foi todo simpático, sorrindo. Entrei no espetáculo com uma vontade enorme.
"Este salão agora é nosso, da Shocker…" Enquanto eu fazia o discurso de abertura do chefe dos vilões, no canto do meu campo de visão estava o sorriso do Fujioka. Saiu na improvisação: "não sei por quê, mas hoje sinto uma pressão muito forte vindo da plateia". Como todo o pessoal da Câmara Júnior sabia que ele estava ali, a casa caiu na gargalhada. E o Fujioka ficou até a parte da brincadeira com o público, que é o momento principal do chefe dos vilões que eu interpreto, sorrindo o tempo todo.
Depois veio "ataquem o salão, avancem!", "esperem aí!", e entram V3 e RX, que o monstro da Shocker e o Shadow Moon deixam em situação desesperadora. A apresentadora pede: "gente, chamem o Kamen Rider!", "Kamen Rideeer!". Como já era a confraternização e havia bebida, o pessoal da prefeitura embarcou junto. E então se ouve o ronco da Cyclone: "vruuuum!". "Não, não pode ser… ele estava ali agora há pouco… sumiu?" Fujioka tinha ido para o compromisso seguinte.
E do fundo da plateia aparece o Kamen Rider 1, interpretado por Kazutaka Shiina, veterano da Ohno Kenyukai, que também fez o 1 no filme Super Hero Taisen. Puxa, sem nenhuma combinação prévia: a estrutura em que por acaso a entrada do 1 tinha ficado para o final, o fato de o Fujioka ter vindo de outro local atendendo ao pedido do prefeito, e ainda o momento exato em que ele saiu, no meio do espetáculo. Tudo naquele dia foi obra do destino. Foi mesmo o espetáculo definitivo de Kamen Rider.
14Herói
Dublê, vendedor de editora, roteirista de programas, empresário, produtor de televisão, dublador, apresentador e autor. Olhando para trás, o que conecta tudo isso? Há alguma dessas atividades em que você pensa: "É isso que eu sou"? De qual trabalho mais se orgulha? Há algo que gostaria de refazer?
Como também escrevi em O Diário Apaixonado de Heróis de Shocker Ohno, que em breve terá uma edição em português, a resposta é direta: "HERÓI".

No Brasil, muita gente cresceu assistindo a Jaspion, Changeman, Jiraiya e Sharivan, obras das quais você esteve próximo. Que mensagem gostaria de deixar para esses fãs?
Continuem apoiando os heróis japoneses de tokusatsu!
Entre outubro e novembro, cerca de vinte pessoas virão do Brasil para o Japão numa "excursão de tokusatsu". A programação inclui o Super Sentai Spirits e uma experiência com explosões em Yorii. Eu também serei o guia de um passeio por locais emblemáticos do tokusatsu em Tóquio.
Mas, da próxima vez, quero ir ao Brasil e agradecer pessoalmente aos "amigos" que colaboraram recentemente com o financiamento coletivo!