
A primeira incursão da Toho no herói de TV, e a mais estranha de todas. Um homem comum que treina até virar as sete faces do arco-íris para enfrentar o Esquadrão Morra, Morra, uma organização estrangeira decidida a exterminar o povo japonês.
Ai no Senshi Rainbowman foi ao ar na NET, atual TV Asahi, entre 6 de outubro de 1972 e 28 de setembro de 1973, toda sexta-feira das 19h30 às 20h, somando 52 episódios. Foi a primeira vez que a Toho, o estúdio de Godzilla e Mothra, entrou de fato no herói de televisão. E entrou torto de propósito. Criada por Kohan Kawauchi, o mesmo de Gekko Kamen, a série cravou 15,5% de audiência média no Kanto e 20,5% no Kansai fazendo quase tudo ao contrário do que o gênero mandava.

O primeiro choque é conceitual. Os heróis de transformação do começo dos anos 1970 eram alienígenas, ciborgues ou mutantes. Yamato Takeshi, o protagonista vivido por Kunihisa Mizutani, não é nada disso. É um lutador amador de dezessete anos, expulso do clube por machucar adversários demais, que carrega a culpa por um acidente de infância que deixou a irmã caçula com sequela na perna. É para pagar o tratamento dela que ele viaja sozinho à Índia atrás de força e dinheiro, e acaba encontrando outra coisa.
O mestre é Deva Datta, o iogue de mais de cento e cinquenta anos vivido por Shōbun Inoue. Diante da guerra entre povos que se matam por ganância, o velho ensina que a própria vida só tem valor se a vida do outro também tiver. Takeshi larga o egoísmo, treina por um ano e desperta para o amor à humanidade. Quando Deva Datta chega ao fim de sua vida, entrega o espírito ao corpo do discípulo, e nasce o guerreiro de sete cores. Nada nisso é inato: Rainbowman não é um super-homem, é um homem que suou. A transformação vem de um mantra budista, anuttara samyak sambodhi, a iluminação perfeita e insuperável, repetido três vezes antes do grito Rainbow Dash.
O preço vem junto. O maior ponto fraco do herói é o Sono da Ioga: esgotada a energia, o corpo se petrifica sozinho em posição de meditação, volta a ser Takeshi e fica cinco horas exatas totalmente indefeso, respiração parada, à mercê de qualquer bala. Um herói que precisa dormir feito pedra no meio da guerra é uma vulnerabilidade que nenhum roteiro de ação teria coragem de manter hoje.
Rainbowman muda de forma conforme a necessidade, e cada forma é um Dash. São sete, ligadas aos shichiyō, os sete luminares: o Sol, a Lua e os cinco elementos do pensamento chinês, madeira, fogo, terra, metal e água. A ordem de Dash 1 a 7 segue os dias da semana, de segunda a domingo. Dash 7 é a encarnação do Sol e a forma base, branca com uma faixa vermelha cruzada que evoca de propósito a bandeira do Japão, com uma lâmpada solar dourada na testa. Dash 1 é a Lua, amarelo, mestre do corpo e do relâmpago; Dash 2, o fogo; Dash 3, a água; Dash 4, o bosque, quase um ninja; Dash 5, o ouro, que domina o voo e a luz; Dash 6, a terra, que perfura o solo e provoca tremores.
Um único herói que troca de forma e de poder conforme a situação era uma ideia ousada em 1972, e virou gramática básica de Kamen Rider e Super Sentai décadas depois. Mais para o fim, Takeshi aprende a Fusão do Arco-Íris, combinando o Dash 7 com outras duas formas ao mesmo tempo.
Se o herói impressiona, o vilão assombra. A organização inimiga se chama Shine Shine Dan, o Esquadrão Morra, Morra, e aparece a partir do episódio 4. O plano não é uma vaga dominação mundial: é, ao pé da letra, a dissolução do Japão e a extinção do povo japonês. Os membros são estrangeiros de nacionalidade nunca revelada, muitos movidos por parentes mortos por soldados japoneses na Segunda Guerra. Em vez de destruição simples, eles preferem fazer os próprios japoneses desconfiarem uns dos outros, empobrecerem e ficarem isolados do mundo.
Kawauchi não inventou isso do nada. Ele participou de expedições para recolher ossadas de soldados japoneses mortos no Sudeste Asiático, e transformou em roteiro tanto o rancor da guerra quanto a desconfiança que o Japão animal econômico despertava no começo dos anos 1970. O chefe é o Mister K, vivido pelo veterano do especial Toho Akihiko Hirata, um homem de cabelo branco e óculos escuros, sem nome, sem passado, sem país. Frio até com os próprios comandados, ele executa fracassados numa máquina que reduz o corpo a cinzas ao som da Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach.
A série abandona o formato de episódio fechado e conta uma grande história por bloco de treze episódios. Na Operação Cats Eye, uma droga que enlouquece as pessoas espalha o caos. Na Operação M, dinheiro falso distribuído pela seita Otafukukai afunda o Japão numa hiperinflação com fome e saques. No arco do Mogurat, tanques subterrâneos provocam terremotos e tsunamis artificiais para isolar o país e plantar a fama de nação perigosa. No arco final, a Operação Ciborgue converte gente em máquina. São planos que dão calafrio até hoje, e que assustam mais por parecerem plausíveis.
E Rainbowman não só bate. Quando a Operação M gera tumulto de gente faminta, ele invade o gabinete em Kasumigaseki para forçar o governo a distribuir comida de graça. Ao saber do plano de bombardear Tóquio, volta ao ministério para exigir uma ordem de evacuação. O objetivo do herói nunca é o combate bonito. É salvar gente.
A trilha é de Jun Kitahara, e a abertura marcou a estreia artística de Yū Mizushima. Mas a faixa que ninguém esquece é o Tema do Esquadrão Morra, Morra. Cantada do ponto de vista dos vilões, ela repete a palavra morra dezenas de vezes logo na primeira estrofe e emenda vá morrer, os japoneses são um estorvo, esmague. É difícil acreditar que veio do mesmo autor do lema vamos perdoar de Gekko Kamen. E, num detalhe que cai bem para o público brasileiro, o arranjo é um funk de dezesseis tempos com naipe de metais e, no meio, uma cuíca, aquele instrumento do nosso samba, dando um clima único e sinistro. Foi essa canção violenta que fixou o Shine Shine Dan como o inimigo inesquecível de uma geração inteira de crianças.
Rainbowman abre a trilogia de heróis humanos de Kohan Kawauchi, seguida por Diamond Eye e Condorman. O fio comum é sempre o mesmo: o herói nunca é um super-homem, é um humano que reverencia um poder maior que ele, o mestre, o deus, o espírito. Não é à toa. Kawauchi era filho de um templo em Hakodate e estudou o budismo Mahayana desde jovem. E, nas três séries, a mãe do herói é uma figura quase absoluta, forte e severa, projeção da própria mãe do autor. Em Rainbowman, a mãe de Takeshi toca sozinha uma casa de bolinhos de arroz chamada, não por acaso, Ofukuro, mãezinha, e reza diante do altar budista acreditando no filho mesmo sob ordem de evacuação.
O que se segue, neste verbete, é o mapa completo dessa obra. Do enredo aos personagens, do bestiário do Esquadrão Morra, Morra aos bastidores, do Japão de 1972 ao legado de uma série que previu, com um desconforto quase profético, um mundo bem menos inocente do que o de um programa infantil.
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O lado humano de Takeshi, sua família, e os rostos do Esquadrão Morra, Morra. Entre parênteses, o ator ou atriz que deu vida a cada um.
O grande achado da série. Em vez de monstros genéricos, o Esquadrão Morra, Morra manda contra Rainbowman uma equipe de assassinos profissionais, cada um pensado para anular um de seus sete poderes, além das bruxas Iguana e Godd Iguana.
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Rainbowman foi um sucesso sólido na faixa das sextas à noite da NET, com médias na casa dos 15 a 20 por cento. Abaixo, as médias que restaram e o guia completo dos 52 episódios, um a um.
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A arte de época de Rainbowman, das sete formas Dash à capa do disco. Imagens © Toho.