KYOUDAI EXPRESS / REVIEW ESPECIAL
Henshin Hero · Toei · 1976Original de Shotaro Ishinomori

Uchu TetsujinKyodainOs irmãos de aço que desafiaram os limites do tokusatsu

A história, os bastidores, os atores, os monstros e os segredos de produção de uma das séries mais singulares de Shotaro Ishinomori.

Skyzel e Granzel posam lado a lado diante de um edifício branco

Por trás das armaduras de Skyzel e Granzel existia muito mais do que uma aventura de ficção científica. Lançada pela Toei em 1976, Uchu Tetsujin Kyodain combinou drama familiar, robôs transformáveis, invasores extraterrestres, técnicas experimentais de efeitos especiais e um universo de personagens extravagantes. Décadas depois, entrevistas com Yusuke Natsu, Takeshi Sasaki e Mitsuko Horie, além de materiais de produção e desenhos originais de Shotaro Ishinomori, ajudam a revelar como a série foi concebida e por que continua despertando o interesse dos fãs do tokusatsu japonês.

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Uma experiência diferente na Toei

A década de 1970 foi um período fértil para o desenvolvimento do tokusatsu japonês. Impulsionada pelo sucesso de produções como Kamen Rider, Jinzo Ningen Kikaider e Himitsu Sentai Gorenger, a Toei experimentava diferentes fórmulas para conquistar o público infantil, combinando histórias de super-heróis, ficção científica, monstros e espetáculos de ação. Foi nesse ambiente de intensa criatividade que surgiu Uchu Tetsujin Kyodain, lançado em 2 de abril de 1976.

A nova produção colocava no centro da narrativa dois irmãos robóticos, unidos pela necessidade de defender a Terra e por uma tragédia familiar. Skyzel e Granzel eram representações artificiais de dois jovens desaparecidos, criadas para enfrentar uma ameaça extraterrestre e, ao mesmo tempo, proteger o irmão caçula que havia permanecido na Terra.

Essa premissa dava à série uma dimensão emocional pouco comum. Por trás das batalhas contra os Dadaroids, das transformações mecânicas e dos ataques especiais, havia uma pergunta que acompanhava os protagonistas o tempo todo, a de saber até que ponto aqueles robôs poderiam ser considerados os verdadeiros irmãos Hayama.

A série mantinha a estrutura tradicional das aventuras de heróis, com organizações inimigas, monstros semanais, máquinas de guerra e situações de perigo envolvendo crianças. Esses elementos, porém, vinham combinados com questões ligadas à identidade, à família e à própria natureza da existência humana.

Outro aspecto que diferenciava Kyodain era o peso das transformações mecânicas. Skyzel e Granzel trocavam de aparência e ganhavam armas novas, e seus corpos também assumiam formas de veículos e projéteis, o que abria espaço para sequências de efeitos especiais bastante incomuns. Em alguns episódios, os próprios inimigos viravam máquinas gigantescas, em confrontos mais próximos das aventuras de robôs de ficção científica do que das batalhas tradicionais entre heróis e monstros.

Vista hoje, a série chama atenção por esse espírito de experimentação, a tentativa de ampliar as possibilidades do gênero mesmo quando algumas ideias acabaram usadas por pouco tempo ou não receberam todo o desenvolvimento previsto no início.

A tragédia que criou os Kyodain

A história começa com o professor Hayama, considerado uma das maiores autoridades mundiais em engenharia robótica, que vive com os três filhos, Joji, Ryuji e Kenji. Durante a festa de aniversário de Kenji, o caçula, acontece o evento que muda a vida da família. O professor e os dois filhos mais velhos são sequestrados por extraterrestres do planeta Dada, integrantes de uma organização que pretende conquistar a Terra, e Kenji fica no planeta, separado do pai e dos irmãos.

Um ano depois, quando as forças invasoras iniciam suas operações, surgem dois misteriosos super-robôs com aparência humana, Skyzel e Granzel. Criados pelo professor Hayama a partir das características dos filhos desaparecidos, os dois cibernoides receberam a missão de defender a humanidade contra o Exército Dada. Skyzel representa Joji Hayama, o irmão mais velho, e Granzel representa Ryuji Hayama, o segundo filho.

Embora tenham aparência humana e conservem traços dos jovens que lhes serviram de modelo, os dois são seres artificiais construídos para combater uma ameaça que ultrapassa a capacidade dos seres humanos comuns. Essa condição faz da relação com Kenji o principal elemento emocional da história. Para o menino, aqueles dois heróis representam a possibilidade de recuperar a família perdida. Para os robôs, proteger Kenji significa cumprir uma missão que envolve a defesa da Terra e a preservação dos vínculos familiares dos irmãos originais.

A base dos protagonistas conta ainda com outros personagens. Entre eles está Etsuko Shirakawa, antiga assistente do professor Hayama e integrante da divisão japonesa das Forças de Defesa da Terra. Embora participe das atividades militares e científicas do grupo, Etsuko assume também uma função afetiva, cuidando de Kenji e oferecendo ao menino a companhia e a atenção de que ele precisa, e acaba funcionando como uma presença maternal dentro da equipe.

Outro integrante é Gonbes, um pequeno robô auxiliar que chegou à Terra junto com os Kyodain. Gonbes foi concebido para tarefas longe do combate, como consertar equipamentos, ajudar nas atividades do dia a dia e até preparar refeições. Sua presença acrescenta humor e leveza à história e reforça a ideia de que aquele grupo forma uma espécie de família improvisada.

Skyzel, Gonbes e Granzel no alto de uma sacada
Skyzel, Gonbes e Granzel. O pequeno robô cuidava dos consertos e até da cozinha da base · foto: Toei

A equipe recebe ainda o apoio de militares como o coronel Marui e o sargento Hosoda, ligados às Forças de Defesa da Terra. Outro personagem relevante é o professor Kaido, antigo conhecido do professor Hayama, que tenta decifrar a misteriosa Canção de Colher Flores, relacionada aos segredos da luta contra os invasores. Esses personagens trazem para a narrativa as perspectivas científica, militar, familiar e emocional.

Em muitas produções da época, os personagens secundários existiam sobretudo para pedir a ajuda dos heróis. Kyodain procurava construir um universo em que diferentes pessoas contribuíam para a resistência contra a invasão extraterrestre.

Skyzel e Granzel

A relação entre os protagonistas era a base da série. Joji Hayama, representado por Skyzel, era o irmão mais velho. Antes dos acontecimentos envolvendo o planeta Dada, ajudava o pai nas pesquisas de robótica e lutava boxe, e na caracterização original tinha cerca de 20 anos. Como Skyzel, suas principais qualidades eram a velocidade e a agilidade, e o corpo robótico podia assumir diferentes configurações, entre elas Skyjet e Skymissile, que permitiam ataques aéreos e combinações com as máquinas do irmão.

Ryuji Hayama era o segundo filho da família. Mais impulsivo e fisicamente poderoso, destacava-se na luta livre e tinha o hábito curioso de bater no próprio rosto quando esquecia alguma coisa. Na apresentação original dos personagens, tinha cerca de 18 anos. Seu correspondente robótico, Granzel, privilegiava a força, e entre suas transformações estavam o Grancar, um veículo terrestre, e o Granmissile, usado em ataques combinados.

A divisão das habilidades permitia aos roteiristas explorar uma grande variedade de situações. Skyzel usava a velocidade para surpreender os adversários, e Granzel enfrentava os inimigos com resistência e força física. O aspecto mais interessante estava na possibilidade de combinar as transformações dos dois. Skyjet e Granmissile, assim como Skymissile e Grancar, podiam atuar em conjunto, em cenas que exigiam soluções técnicas muito diferentes das usadas nas séries de heróis da época.

Essa mistura de características humanas, personalidade e transformação mecânica tornou-se uma das marcas mais reconhecíveis de Uchu Tetsujin Kyodain. A complementaridade entre os irmãos estava presente na própria concepção de seus corpos robóticos.

Skyzel e Granzel lado a lado numa pedreira
Skyzel e Granzel numa locação de pedreira · foto: Toei
Foto promocional de Granzel e Skyzel com o logotipo da série
Foto de divulgação com o logotipo original · foto: Toei

Os Dadaroids

Se Skyzel e Granzel representavam o lado heroico da história, os Dadaroids eram o seu equivalente monstruoso. Criados para executar os planos de conquista da Terra, esses inimigos combinavam características de robôs, animais, armas e criaturas fantásticas. São mais de vinte personagens e grupos de inimigos, e a sequência deles permite acompanhar a evolução visual da série.

Nos primeiros episódios, os adversários eram concebidos a partir de equipamentos militares e máquinas. Com o desenvolvimento da história, surgiram criaturas mais próximas dos monstros tradicionais do tokusatsu, além de oficiais superiores e personagens de aparência cada vez mais extravagante.

A evolução do Exército Dada
Ep.1
Estreia

Os irmãos chegam à Terra. Começa a fase das máquinas de guerra.

Ep.3
Tankuda

O tanque que repete o próprio nome. Episódio levado ao cinema.

Ep.12
A roda enfaixada

Bogan fere Granzel, e o Grancar sai de bandagem.

Ep.22
Gabrin

Novo comando e guarda de elite de soldados robóticos.

Ep.26
Cinco Generais

Death Viking, Flash, Giran, Gatter e Cat.

Ep.31
Gabrin Queen

Os generais caem. Surge o braço direito de Gabrin.

Ep.32
A volta

Os Cinco Generais da Morte ressuscitam.

Ep.39
Black Knight

O Cavaleiro Negro abre a etapa final.

Canhões, tanques e máquinas transformáveis

A base do exército inimigo era formada pelos soldados robóticos, os Robot Hei, que atacavam em grupo e podiam separar partes do corpo para depois reorganizá-las, comportamento mecanizado que combinava com a ideia de uma força militar feita de máquinas. Acima deles vinham os primeiros oficiais e monstros, todos pensados como armas ambulantes.

Bazucard, oficial encarregado das operações iniciais da invasão, tinha canhões instalados na cabeça e nas costas e podia assumir uma forma ampliada de combate, o Bazucardon, conceito que refletia a proposta inicial da série, em que o inimigo funcionava como monstro e como máquina de guerra. Tankuda seguia a mesma lógica. Transformava-se num tanque e avançava contra os adversários repetindo o próprio nome, comportamento que dava personalidade à aparência mecânica, e está ligado ao terceiro episódio, depois adaptado para exibição nos cinemas.

Daikirai tinha um visual mais monstruoso, estendia o pescoço e o braço direito, ressuscitava depois de uma derrota e assumia uma forma gigantesca. Gatlinger partia das armas automáticas, e a combinação das mãos com outras partes do corpo o transformava numa metralhadora do tipo Gatling.

Esse conjunto mostra como roteiristas e designers exploravam ao pé da letra a associação entre anatomia robótica e armamento.

Radar Batton e a versatilidade das máquinas

Um dos Dadaroids mais interessantes desse período era Radar Batton, com um míssil no braço esquerdo e uma broca no direito. Ao abrir as asas virava Great Batton, configuração de combate mais poderosa, e controlava seres humanos por meio de ondas eletromagnéticas, combinação que o levou a histórias bem diferentes das simples batalhas físicas e lhe rendeu interpretações próprias nos mangás da época.

Nokogirin tinha serras no corpo que se desprendiam e funcionavam como armas arremessáveis, além de projéteis cortantes semelhantes a estrelas ninja. Bogan tinha o corpo formado por esferas metálicas que podiam ser separadas e usadas nos ataques, e é o responsável pelo ferimento de Granzel no episódio 12. Kabutoon vestia uma armadura descrita como feita de um dos metais mais fortes do universo, com uma espada capaz de cortar praticamente qualquer material e um escudo de grande resistência, e sua fraqueza era um componente magnético em forma de U no peito.

Taihon levava adiante a tradição dos inimigos inspirados em armamentos, com o corpo inteiro funcionando como um enorme canhão de projéteis de grande potência, e a estrutura usada nos disparos era também seu ponto vulnerável. Cycleman tinha chifres que funcionavam como brocas, movimentos giratórios e equipamentos cortantes, o que o tornava perigoso em confronto direto.

Arqueiros robóticos e monstros inspirados em animais

À medida que a série avançava, o repertório de Dadaroids ficou mais variado, e temas reconhecíveis da cultura popular viraram inimigos robóticos. Um exemplo foi a dupla de arqueiros inspirada na imagem tradicional de Robin Hood, tendência que seria cada vez mais explorada, ao lado de monstros com traços de animais e de criaturas saídas do cinema de terror.

Robonhood 1, o irmão mais velho da dupla, era considerado um mestre do arco espacial e usava flechas enormes chamadas Hood Arrow. Robonhood 2 tinha mecanismos no corpo para disparar flechas em sequência e dispositivos especiais presos aos projéteis, que ampliavam as possibilidades de ataque.

Waninger, com aparência de crocodilo, aparece numa história ambientada nas férias de verão, quando Ryuji, Kenji e os companheiros visitam a província de Miyagi, e ficava mais agressivo ao som de tambores. Mummy Saturn ressuscitava de um sarcófago nas montanhas, tinha aparência de múmia e interesse por sangue humano e atacava com bandagens e com uma substância expelida pela boca, mistura de terror clássico e ficção científica comum no tokusatsu da época.

Granzel e Skyzel enfrentam um Dadaroid vermelho coberto de espinhos
Granzel e Skyzel contra um Dadaroid. Os inimigos misturavam robô, monstro e armamento · foto: Toei

A chegada de Gabrin

O aparecimento de Gabrin, por volta do episódio 22, marcou uma nova etapa das operações militares dos invasores. Gabrin passou a comandar unidades especializadas, incluindo uma guarda de elite de soldados robóticos subordinados diretamente a ele, que auxiliava as estratégias dos Dadaroids e os ataques contra os Kyodain.

A presença do personagem mudou o equilíbrio da narrativa. Os inimigos ganharam uma hierarquia mais complexa, os conflitos passaram a depender menos do monstro enviado em cada episódio e o visual dos antagonistas ficou progressivamente mais elaborado.

Os Cinco Generais da Morte

A partir do episódio 26, a organização inimiga ganhou um novo grupo de oficiais, os Cinco Generais da Morte, conhecidos como Desu Goninshu e formados por Death Viking, Death Flash, Death Giran, Death Gatter e Death Cat. Os primeiros Dadaroids tinham características associadas a armas e máquinas, e os Cinco Generais exibiam uma aparência mais próxima de guerreiros monstruosos, com armaduras, máscaras e traços individuais que reforçavam a ideia de uma elite militar. O grupo foi derrotado no episódio 31 e voltou no episódio seguinte, ressurreição que permitiu aos personagens continuar nas operações inimigas.

Outra figura relevante dessa fase foi Gabrin Queen, que apareceu a partir do episódio 31 como braço direito de Gabrin. Tinha habilidades especiais, entre elas poderes de transformação, e um figurino ornamentado bem diferente daquele dos primeiros monstros da série.

O Cavaleiro Negro

Entre os adversários da etapa final estava o Cavaleiro Negro, ou Black Knight, que surgiu a partir do episódio 39, quando a série já tinha se afastado bastante da fórmula mecânica do início. A criação do personagem estava ligada à combinação de elementos dos Cinco Generais da Morte, e o resultado era uma figura de aparência mais tradicionalmente ameaçadora, próxima dos grandes comandantes e guerreiros monstruosos de outras produções da Toei.

A evolução de Bazucard até o Black Knight ilustra o percurso visual de Kyodain, que começou privilegiando máquinas de guerra transformáveis e terminou explorando também monstros, guerreiros e figuras de fantasia. A diversidade enriqueceu o repertório de inimigos e mostra, ao mesmo tempo, que algumas ideias centrais do início foram ficando em segundo plano.

Monstros com voz própria

O encanto desses inimigos tem raiz na tradição visual dos personagens criados para produções como Kikaider e Gorenger. Nas séries de Ishinomori, a aparência dos antagonistas costumava combinar elementos reconhecíveis com formas artificiais e grotescas, e em Kyodain essa tendência foi levada a um extremo. Os inimigos tinham corpos desproporcionais, armas incorporadas à anatomia e características que os tornavam difíceis de classificar, numa ambiguidade entre robô convencional e monstro orgânico que dava grande liberdade de criação.

Os personagens também se diferenciavam pelo comportamento. Mesmo representando uma ameaça à humanidade, alguns Dadaroids tinham traços quase cômicos, sobretudo quando associados a vozes marcantes, e o trabalho dos dubladores foi fundamental. Entre os intérpretes estavam Shozo Iizuka, Eiji Maruyama e Mahito Tsujimura, e Iizuka se destacou com uma interpretação que transmitia uma personalidade exagerada e, em certos momentos, divertida, de modo que alguns personagens carregavam um componente de humor mesmo em situações ameaçadoras.

Muitos desses dubladores trabalharam em outras produções importantes da televisão japonesa, emprestando a voz a criaturas, robôs e personagens de séries de grande popularidade. Cada inimigo tinha uma voz, um comportamento e uma maneira própria de enfrentar os heróis, e a variedade visual somada às interpretações dos dubladores ajudou a manter o interesse do público ao longo da produção.

Os desenhos de Ishinomori

Os esboços preliminares de Shotaro Ishinomori estão entre os registros mais valiosos de Kyodain. Os desenhos de design de personagens produzidos durante o desenvolvimento da série permitem comparar as ideias originais com os figurinos usados nas filmagens. Alguns personagens já tinham, desde as primeiras ilustrações, uma aparência próxima da versão definitiva. Outros passaram por alterações significativas, e há desenhos que aparentemente nunca chegaram a ser usados. A coleção ajuda a entender uma característica do trabalho de Ishinomori, a capacidade de transformar conceitos simples em personagens fáceis de reconhecer.

Entre os primeiros desenhos está um projeto ligado ao desenvolvimento de Skyzel, bem diferente da aparência definitiva do personagem. Alguns elementos são reconhecíveis, e a composição geral ainda estava longe do figurino que os espectadores conheceriam, sinal de que a identidade visual dos Kyodain passou por várias etapas antes da forma final.

Essa evolução aparece também nos primeiros materiais promocionais. Uma edição da TV Land de março de 1976 publicou fotos de protótipos do Grancar e do Skyjet com uma combinação de cores diferente da usada na televisão, o corpo principal predominantemente branco e alguns componentes em vermelho. A revista identifica essas fotos como registros de versões preliminares, anteriores à definição do acabamento final, um exemplo de como o material promocional podia revelar etapas do desenvolvimento de uma produção.

Da prancheta de IshinomoriO que a coleção de esboços revela, personagem por personagem
Gonbes

Está entre os personagens cujos desenhos mudaram pouco. O esboço original já tem o corpo compacto, os olhos expressivos e o formato peculiar da cabeça mantidos no modelo das filmagens. A simplicidade comunicava de imediato a personalidade de um robô simpático, acessível às crianças e pronto para situações de humor, e Ishinomori reuniu tudo isso num desenho fácil de reconhecer.

Daikirai

Cabeça de proporções incomuns e estrutura corporal que enfatiza o aspecto monstruoso. A ideia original já mostrava interesse por formas salientes e detalhes que poderiam virar componentes do figurino.

Gatlinger

Direção mais associada a equipamentos militares, com elementos cilíndricos e componentes que reforçam a relação com armas automáticas. A figura transmite peso e agressividade, coerentes com um inimigo identificado com uma metralhadora.

Radar Batton

Combinação ousada de morcego, armamento mecânico e elementos tecnológicos. O design preliminar explora a ideia de transformar asas, braços e partes do corpo em mecanismos ofensivos.

Cycleman

Concebido a partir de formas que remetem a brocas, serras e movimentos giratórios. O esboço difere em alguns detalhes do figurino definitivo e traz anotações sobre a transformação e os equipamentos incorporados ao corpo.

Robonhood 1 e 2

No caso de Robonhood 1, muitas características do esboço foram mantidas, com o corpo humanoide, os elementos mecânicos e a armadura já definidos. Robonhood 2 seguiu processo semelhante. O motivo de Robin Hood mostra outra faceta de Ishinomori, a de transformar referências culturais conhecidas em personagens de ficção científica.

Waninger

Cabeça alongada e desproporcional, pernas curtas e uma figura visualmente desequilibrada, e é essa falta de proporção que torna o personagem reconhecível. A silhueta remete de imediato a um crocodilo sem abandonar os traços artificiais dos Dadaroids, solução importante numa série que apresentava inimigos novos com frequência.

Cinco Generais

Visual mais ornamentado, máscaras complexas e referências que vão além do mecânico. Death Gatter tem uma cabeça elaborada que transmite liderança. Death Flash usa formas abstratas que não derivam de um objeto ou animal específico. Death Cat exagera traços felinos, como um gato monstruoso vindo do espaço. Death Giran tem a cabeça em formato de cogumelo. Death Viking lembra algumas máscaras de Himitsu Sentai Gorenger pela composição do rosto e das peças próximas ao pescoço.

Gabrin Queen

Elementos ornamentais que lembram referências visuais do Sudeste Asiático e um figurino que transmite autoridade e sofisticação, distante dos soldados comuns. Mostra que a série já tinha deixado para trás a estética exclusivamente mecânica, com posição hierárquica e personalidade comunicadas pelo design.

Gamereon

Os esboços sugerem que, durante o desenvolvimento, existiu a possibilidade de o personagem ter uma configuração feminina, ideia que não chegou à versão final.

Os descartados

A coleção inclui desenhos de personagens que não apareceram na televisão. Um deles é uma figura robusta, de braços volumosos e aparência de guerreiro mecanizado. Outro combina elementos orgânicos e mecânicos numa estrutura ameaçadora.

A comparação entre esboços e figurinos mostra o esforço da equipe de produção para preservar o que havia de mais marcante nos desenhos dentro das limitações físicas das máscaras e armaduras. Esses materiais permitem imaginar outros caminhos que a série poderia ter seguido e confirmam que os desenhos de Ishinomori faziam parte de um processo de experimentação, além de servirem à divulgação. Algumas ideias foram aproveitadas quase por inteiro, outras modificadas pela equipe, e algumas acabaram abandonadas, numa identidade visual construída a partir de muitas experiências, revisões e soluções criativas.

Kyodain nas revistas japonesas

A popularidade de Kyodain foi além da televisão. Como outras produções infantis da Toei, a série teve ampla cobertura das revistas japonesas dedicadas a mangás, brinquedos e programas de TV. Quatro publicações se destacaram, TV Magazine e Tanoshii Yochien, da Kodansha, TV Land, da Tokuma Shoten, e Boken O, da Akita Shoten.

Essas revistas tinham papel importante na divulgação das séries de tokusatsu. Além de fotos dos personagens, publicavam histórias em quadrinhos, diagramas mecânicos, explicações sobre armas e transformações, informações sobre os inimigos e prévias dos episódios seguintes. No caso de Kyodain, a quantidade de máquinas e formas transformáveis rendia material especialmente rico, e os leitores podiam observar detalhes dos equipamentos e entender mecanismos que nem sempre eram explicados nos episódios.

Os Dadaroids também eram assunto recorrente, porque cada inimigo novo trazia ilustrações, informações sobre poderes e detalhes de transformação. Mesmo na segunda metade da série, quando Gabrin e os Cinco Generais da Morte ganharam espaço, as publicações continuaram recebendo personagens e material novos.

As primeiras imagens

Um detalhe histórico aparece na edição de março de 1976 da TV Land. Publicada antes da estreia, a revista trazia uma prévia da nova produção, combinando fotos de máquinas e personagens com ilustrações feitas para a divulgação. Numa das páginas, o Skymissile aparece desenhado, enquanto outros elementos aparecem fotografados, composição típica das revistas infantis japonesas da época.

A mesma edição mostrava os protótipos do Grancar e do Skyjet, registro visual de modelos anteriores às versões definitivas. Essas imagens têm hoje valor especial para pesquisadores e colecionadores, porque permitem acompanhar as mudanças feitas entre a preparação do material promocional e o início das filmagens.

Os mangás

Kyodain recebeu diferentes adaptações em quadrinhos, e uma particularidade dessas versões era a liberdade dada aos artistas para reinterpretar acontecimentos e características dos personagens. A versão da Boken O, desenhada por Shinichi Tokisato, dedicava muitas páginas ao desenvolvimento da narrativa e, era uma das adaptações mais próximas da história da televisão.

A versão da TV Land, atribuída a Yoshiki Tsuchiyama, seguia outro caminho. Em determinado momento apresentava uma interpretação da situação de Ryuji que se afastava da continuidade televisiva, com a ideia de que o personagem original já tinha morrido, o que dava à história uma dimensão dramática própria. Na TV Magazine, a adaptação de Norio Narui também tinha elementos particulares, entre eles o destaque dado à dupla formada por Radar Batton e Death Cat.

As diferenças mostram como os mangás funcionavam como versões alternativas da mesma história, com personagens, máquinas e conceitos em comum e liberdade para fugir do roteiro da televisão.

Página dupla da revista B-Club número 13 com diorama de figuras de Kyodain no alto de um prédio de Tóquio
Dez anos depois da estreia, a revista B-Club nº 13, de novembro de 1986, abriu sua série de dioramas de heróis com Kyodain, em figuras na escala 1/15 · reprodução

Enciclopédias e livros

Além das revistas regulares, Kyodain ganhou publicações especiais, como os títulos da linha TV Land One Pack, da Tokuma Shoten, e pequenas enciclopédias ilustradas da Elm. Esses livros reuniam informações que apareciam de forma fragmentada nas revistas semanais ou mensais, com diagramas mecânicos, fotos dos personagens e explicações sobre os Dadaroids. A maior parte do material concentrava-se nos inimigos apresentados até a chegada de Gabrin, prova de que as mudanças feitas durante a série se refletiam na própria organização dos livros, e o público encontrava versões diferentes do mesmo universo conforme a época da publicação.

Para os colecionadores atuais, essas diferenças têm interesse especial. As revistas de lançamento preservam ideias promocionais e protótipos, os mangás oferecem interpretações alternativas da história e as enciclopédias trazem dados técnicos e fotografias que nem sempre aparecem em outras fontes. Em conjunto, esses materiais permitem reconstruir aspectos da produção que vão além dos episódios exibidos.

Capa do compacto da Columbia com Granzel, Skyzel e Gonbes sob o logotipo de Kyodain
O compacto da Columbia com o tema de abertura, na voz de Isao Sasaki · reprodução

Kyodain no cinema

Em 18 de julho de 1976, poucos meses depois da estreia na televisão, Uchu Tetsujin Kyodain chegou ao cinema como parte do Toei Manga Matsuri, o Festival de Mangás da Toei. O evento era uma das principais vitrines das produções infantis do estúdio e reunia várias atrações numa programação voltada ao público familiar. Séries populares da televisão costumavam ganhar versões para o festival, algumas produzidas especialmente para o evento e outras adaptadas de episódios já exibidos.

No caso de Kyodain, foi escolhido o terceiro episódio da série, "Batalha decisiva! A fúria desenfreada de Tankuda!", apresentado numa versão preparada para os cinemas. A programação daquele festival incluía Grendizer, Getter Robo G e Great Mazinger: Batalha Decisiva! O Grande Monstro Marinho, aventura especial que reunia personagens de diferentes séries de robôs, a reprise de Ali Babá e os 40 Ladrões, Himitsu Sentai Gorenger: Bomb Hurricane, The Kagestar e versões para o cinema de Ikkyu-san e Haha wo Tazunete Sanzenri. A presença de Kyodain nesse conjunto mostra a importância que a Toei dava à série naquele momento.

Programação
Toei Manga Matsuri
18 de julho de 1976
Festival de Mangás da Toei
  1. Uchu Tetsujin KyodainEp. 3, "Batalha decisiva! A fúria desenfreada de Tankuda!"
  2. Grendizer, Getter Robo G e Great MazingerBatalha Decisiva! O Grande Monstro Marinho
  3. Himitsu Sentai GorengerBomb Hurricane
  4. The Kagestar
  5. Ikkyu-sanversão para o cinema
  6. Haha wo Tazunete Sanzenriversão para o cinema
  7. Ali Babá e os 40 Ladrõesreprise

Com a escolha de adaptar um episódio já produzido para a televisão, ficou no papel a ideia de uma grande aventura criada para os irmãos robóticos, com um exército de Dadaroids ressuscitados enfrentando os protagonistas numa batalha mecânica de grandes proporções, algo que parecia feito para a tela de cinema. A participação no festival permanece como registro da circulação de Kyodain por diferentes mídias.

Arquivo de entrevistas

O elenco relembra Kyodain

Os dois irmãos Hayama, Yusuke Natsu e Takeshi Sasaki, e Mitsuko Horie, a Etsuko Shirakawa da série, contam como chegaram ao programa e como era a rotina nos estúdios de Oizumi. Escolha uma das conversas.

01
Yusuke Natsu
Joji Hayama · Skyzel
Marcos da carreira
  • Osaka · The Grand Prix
  • The Ox · Tóquio, 1969
  • Horipro
  • Nora-neko Rock: Wild Jumbo, 1970
  • Totsugeki! Human!!, 1972
  • Love Love Rival, 1973
  • Kyodain, 1976
  • Theater Japan
Do rock dos anos 1960 ao irmão mais velho

A entrevista com Yusuke Natsu, intérprete de Joji Hayama, reconstrói sua participação em Kyodain e o caminho que o levou à carreira artística. Na apresentação, a revista destaca a maneira elegante e enérgica com que Natsu interpretou Joji e o peso dele na personalidade da série, e o ator recorda os bastidores, a convivência com os colegas de elenco e as experiências que marcaram sua passagem pelo programa.

Antes da televisão, a música

A trajetória de Yusuke Natsu começou longe dos estúdios de efeitos especiais. Ainda no ensino médio, em Osaka, ele teve contato com um grupo chamado The Grand Prix, que procurava um tecladista para substituir um integrante que havia deixado a formação. Natsu se aproximou da banda, primeiro ajudando em tarefas ligadas às apresentações e depois participando das atividades musicais. O ambiente era o do Group Sounds, movimento que marcou a música popular japonesa nos anos 1960 com bandas inspiradas em grupos ocidentais de rock e pop, muito populares entre os jovens.

Depois dessa experiência, Natsu entrou para The Ox, outro grupo do movimento, no lugar de Ai Akamatsu, e mudou-se para Tóquio em 1969. O momento já não favorecia as bandas. O auge do Group Sounds tinha passado, e muitos músicos procuravam alternativas profissionais. Segundo suas lembranças, o empresário do grupo incentivava os integrantes a pensar em formas de continuar na indústria do entretenimento depois daquela fase.

Natsu já se interessava por cinema, influenciado pelo gosto do pai por filmes, e a carreira de ator começou a parecer atraente. Ele assinou contrato com a Horipro e passou a participar de produções de cinema e televisão.

O início da carreira de ator

Entre os primeiros trabalhos estava o filme Nora-neko Rock: Wild Jumbo, de 1970, experiência que o marcou. Natsu lembra a quantidade de profissionais envolvidos na realização de um filme. Até então, sua experiência se concentrava na música, em que a relação entre artistas, técnicos e produtores era bem diferente, e no set ele percebeu a complexidade da estrutura necessária para transformar um roteiro em imagens. A variedade de funções e o número de pessoas trabalhando ao mesmo tempo chamaram sua atenção e consolidaram o interesse pela atuação, que passou a ser seu principal caminho profissional.

A origem do nome artístico

A escolha do nome artístico envolveu um profissional ligado à editora Heibon Shuppan, identificado como Saito, e levou em conta a combinação dos caracteres japoneses. Entre as possibilidades estavam Yusuke Natsu e Koshiro Nagare, e Natsu comenta, com humor, que a segunda opção parecia mais adequada a um personagem de drama histórico. Ficou Yusuke Natsu, escolha que o ator relaciona ao gosto pelo verão e pelo mar. O episódio retrata a indústria do entretenimento japonesa daquele período, quando a construção da imagem pública de um artista incluía a escolha cuidadosa do nome profissional.

Os trabalhos anteriores

Antes de interpretar Joji Hayama, Natsu participou de produções como Totsugeki! Human!!, de 1972, e Love Love Rival, de 1973, protagonizada por Yuki Okazaki. Essas experiências consolidaram sua presença na televisão e desenvolveram habilidades importantes para uma série como Kyodain. Os programas de efeitos especiais exigiam preparação própria, e o trabalho de interpretação continuava dependendo da construção de personagens convincentes. No caso de Joji, a tarefa pesava mais, porque o protagonista precisava funcionar ao mesmo tempo como jovem adulto, irmão mais velho e representação humana de um robô.

O desafio de Joji Hayama

Quando recebeu o convite, Natsu encontrou uma produção com premissa diferente das histórias tradicionais de super-heróis, e o que mais o interessou foi a relação familiar. Joji combatia monstros e fazia parte de uma história de irmãos separados, um pai desaparecido e uma criança à espera da família, dimensão dramática que permitia construir um personagem com sentimentos e responsabilidades. Como irmão mais velho, Joji precisava transmitir segurança e maturidade, e a série abria espaço para momentos de humor e descontração na convivência com Ryuji e Kenji.

Natsu procurava equilibrar esses elementos. As cenas de ação eram importantes para o espetáculo, e a relação entre os personagens precisava parecer natural. O ator considerava a ligação entre os irmãos um dos fundamentos da produção, o que ajuda a entender a atmosfera própria de Kyodain, com uma relação emocional contínua entre os protagonistas mesmo nos episódios centrados em batalhas.

A convivência com o elenco

A gravação de uma série semanal exigia longos períodos de convivência, com muitas horas de trabalho em estúdio e em locações externas. Natsu lembra que essa rotina criou uma relação de proximidade entre os integrantes do elenco, num ambiente cansativo que também tinha seus momentos de descontração.

A presença de atores mirins acrescentava outra dinâmica. Natsu admite, com humor, que no começo não se achava muito habilidoso com crianças, e a convivência durante a produção tornou a relação mais natural. O detalhe pesa porque Joji precisava ser, dentro da história, uma figura protetora para Kenji, e o ator teve de construir uma relação convincente com o jovem intérprete do personagem.

O lugar de Kyodain na carreira

Depois de Kyodain, Natsu continuou trabalhando em televisão e cinema, em dramas e histórias policiais, trajetória comum entre atores do tokusatsu que buscavam uma carreira mais ampla e evitavam ficar presos a um único personagem. Mais tarde passou a ter também atividades empresariais e, na época da entrevista, estava ligado à empresa Theater Japan.

Mesmo depois de tantos trabalhos, ele guardava lembranças afetivas de Kyodain e se alegrava ao reencontrar pessoas que tinham acompanhado a série na infância. Para um ator, descobrir que um personagem continua lembrado décadas depois é uma forma particular de reconhecimento, e no caso de Joji Hayama essa permanência está ligada à imagem do irmão mais velho decidido a proteger a família e enfrentar os invasores do planeta Dada. A entrevista revela um profissional que encontrou no tokusatsu a chance de reunir a experiência musical, a formação dramática e a atuação em cenas de ação.

02
Takeshi Sasaki
Ryuji Hayama · Granzel
Marcos da carreira
  • Grupo NLT · teatro
  • Judo Icchokusen
  • Kamen Rider · Hayato Ichimonji
  • Kyodain, 1976
  • Tokuso Saizensen
Do segundo Kamen Rider ao irmão impulsivo

A segunda entrevista é com Takeshi Sasaki, intérprete de Ryuji Hayama. Antes do papel, Sasaki já era conhecido dos fãs de tokusatsu como Hayato Ichimonji, o segundo Kamen Rider, experiência que o deixava familiarizado com as exigências das produções de ação da Toei. Sua carreira, porém, começou muito antes de vestir o uniforme de um herói transformável.

A decisão de ser ator

Na entrevista, Sasaki recorda o fim dos estudos. A família esperava que ele seguisse um caminho tradicional, e o pai achava que, se não entrasse na universidade, ele deveria assumir responsabilidades nos negócios da família. Sasaki queria explorar outras possibilidades. Desde criança gostava de filmes de samurai e de produções dramáticas, e a irmã, que também gostava de teatro, ajudou a aproximá-lo desse universo.

Nesse período ele assistiu a uma montagem de A Morte de um Caixeiro-Viajante com o ator Osamu Takizawa, experiência que pesou na decisão ao mostrar que a interpretação podia ser uma carreira artística séria e desafiadora. Sasaki foi então buscar formação em Tóquio.

O teatro e os primeiros contatos

O ator entrou numa companhia teatral ligada ao grupo NLT, dirigido por Natsuko Kahara, onde teve contato com técnicas de interpretação e com profissionais experientes. Nos primeiros anos participou de apresentações e testes para diferentes produções. A entrevista menciona um encontro com Akiji Kobayashi, ator com quem voltaria a cruzar na carreira, e o dramaturgo Mamoru Takagaki, que o ajudou a fazer contatos na televisão.

A carreira de Sasaki começou no teatro, como ator dramático, e as oportunidades surgiam aos poucos, por testes e indicações. A televisão era um mercado em expansão, e conseguir papéis importantes era difícil para quem não tinha contrato fixo.

Judo Icchokusen

Um dos trabalhos que tornaram Sasaki conhecido foi Judo Icchokusen, em que interpretou Ukyo Kazamatsuri. A série misturava drama juvenil e artes marciais e exigia preparação física. Com formação teatral, Sasaki precisou adaptar a interpretação a histórias em que as sequências de ação eram centrais, combinando expressão dramática, movimentos físicos e trabalho com equipes especializadas, combinação que ficaria ainda mais importante quando ele chegou a Kamen Rider.

Hayato Ichimonji

Como Hayato Ichimonji, Sasaki tornou-se um dos rostos mais reconhecidos da primeira fase da franquia. O personagem tinha características próprias e precisava conquistar um público que já acompanhava o primeiro Kamen Rider, e o trabalho exigia participação intensa em cenas de ação. Na entrevista, ele lembra as dificuldades desse tipo de produção, entre elas os riscos das sequências físicas e das gravações com motocicletas.

Interpretar um herói de tokusatsu envolvia jornadas longas, locações difíceis e uma rotina de produção exigente, e essas experiências acabaram preparando o ator para Kyodain.

O convite para Ryuji Hayama

Quando surgiu a possibilidade de entrar na nova série, Yusuke Natsu já estava no projeto, e Sasaki encontrou uma história centrada na relação entre irmãos. Para quem já tinha interpretado um herói popular, Ryuji era um desafio novo, porque a atuação dependia diretamente da relação com Joji e os dois precisavam funcionar como dupla nas cenas dramáticas e nas de ação. Ryuji era mais descontraído e impulsivo, Joji transmitia mais maturidade, e essa diferença ajudava a construir a dinâmica familiar.

A parceria com Yusuke Natsu

Sasaki recorda que a relação entre os integrantes do elenco ficou bem próxima, porque as longas jornadas de gravação favoreciam vínculos profissionais e pessoais. Os atores também precisavam adaptar a interpretação ao fato de que os personagens alternavam o tempo todo entre a aparência humana e a forma robótica. Em algumas cenas o personagem aparecia como um jovem comum, em outras era um traje especial ou uma miniatura mecânica, e a continuidade emocional tinha de existir mesmo quando o ator não estava na imagem.

A relação entre Joji e Ryuji dependia, assim, de uma combinação de interpretação, roteiro, dublagem, efeitos especiais e montagem.

A rotina de uma produção semanal

Outro ponto das lembranças de Sasaki é a intensidade do trabalho. Nos anos 1970, as produções semanais exigiam que os episódios fossem concluídos em ritmo acelerado, com gravações em estúdio, cenas externas, sequências de ação e efeitos especiais, e os atores muitas vezes participavam de outros projetos ao mesmo tempo. Sasaki tinha experiência para entender essas exigências e reconhecia que cada produção trazia suas próprias dificuldades. Em Kyodain, as cenas com robôs e transformações mecânicas acrescentavam elementos ausentes de muitos de seus trabalhos anteriores, e o resultado dependia da colaboração entre vários departamentos.

Depois de Kyodain

A carreira de Sasaki seguiu em produções dramáticas e policiais, entre elas Tokuso Saizensen, série importante na história dos dramas policiais japoneses. O ator procurou personagens de gêneros variados, para além de Hayato Ichimonji e Ryuji Hayama, numa trajetória marcada também por dificuldades pessoais e profissionais, comuns a uma carreira artística de várias décadas.

Os personagens dos programas de heróis continuaram importantes para o público. Em Kyodain, sua contribuição está ligada à personalidade de Ryuji, cuja força física, impulsividade e ligação com o irmão ajudaram a equilibrar a dupla protagonista. A entrevista mostra um ator que chegou ao tokusatsu depois de uma formação teatral e usou a experiência em diferentes produções para construir personagens memoráveis.

03
Mitsuko Horie
Etsuko Shirakawa
Marcos da carreira
  • Estreia como cantora, 1969
  • Ienaki Ko
  • Kyodain, 1976
  • Candy Candy
  • Himitsu no Akko-chan
  • Voltes V
A rainha das canções de anime diante das câmeras

A terceira entrevista é com Mitsuko Horie, intérprete de Etsuko Shirakawa. Conhecida como uma das principais vozes da música de anime japonesa, Horie fez em Kyodain uma das raras participações regulares no elenco de uma série de tokusatsu como atriz, particularidade que a revista destaca na apresentação. Associada sobretudo às canções de anime e aos programas infantis, ela interpretou uma personagem importante para o cotidiano dos protagonistas.

Da música para a atuação

Horie estreou como cantora em 1969 e, nos anos seguintes, tornou-se uma das principais intérpretes de temas de animação e produções infantis do Japão, com a voz associada a obras como Candy Candy, Himitsu no Akko-chan e Voltes V. A artista também se interessava pela atuação. Na entrevista, menciona uma participação anterior no drama Ienaki Ko, ligado à atriz Ryoko Sakaguchi, um papel pequeno relacionado a uma situação musical. Kyodain seria a primeira oportunidade de integrar regularmente o elenco de uma produção dramática.

O convite

Horie lembra que naquela época sua carreira se concentrava nas gravações musicais e que começavam a surgir oportunidades de experimentar outros trabalhos. A chance de atuar numa série de televisão despertou seu interesse, e ela cita o carinho e a atenção que recebia de Shotaro Ishinomori como algo que tornou a oportunidade especialmente agradável. Mesmo com alguma experiência diante das câmeras, ainda precisava aprender as particularidades de uma produção semanal, que exigia disciplina, adaptação e capacidade de lidar com situações muito diferentes da rotina de uma cantora.

Etsuko Shirakawa

Na história, Etsuko trabalhava na organização encarregada de enfrentar o Exército Dada, ligada às atividades de defesa e apoio científico, e assumia uma função mais ampla. Como antiga assistente do professor Hayama, tinha ligação direta com a família dos protagonistas e era especialmente importante para Kenji, separado do pai e dos irmãos mais velhos. Etsuko oferecia cuidado e companhia ao menino e funcionava como figura maternal.

A personagem criava um contraste com as cenas de combate. Enquanto os Kyodain enfrentavam os Dadaroids, ela representava estabilidade emocional e humanizava o ambiente militar da base. Horie procurava interpretar essa relação com naturalidade, ressaltando o carinho de Etsuko por Kenji.

A dura rotina das gravações

Uma das partes mais reveladoras da entrevista trata das dificuldades de Horie durante a produção, porque a cantora não estava acostumada à rotina física de uma série de efeitos especiais. Os trabalhos começavam muito cedo, e ela morava longe dos estúdios da Toei em Oizumi. Em alguns dias o transporte da equipe saía por volta das seis da manhã, e chegar no horário exigia uma organização complicada. Em certas ocasiões, a produção providenciava hospedagem num hotel em Shinjuku para facilitar o deslocamento.

As gravações externas agravavam a rotina. Fora de um estúdio musical, onde muitas condições podiam ser controladas, as filmagens dependiam do clima. Quando chovia, cenas eram adiadas, quando a luz natural não bastava, a equipe reorganizava o trabalho, e em alguns dias as gravações terminavam tarde com retorno marcado para cedo na manhã seguinte. Para Horie, foi uma experiência cansativa.

O frio e as minissaias

Entre as lembranças mais curiosas estão as dificuldades com o figurino de Etsuko, que aparecia muitas vezes com roupas que pouco protegiam do frio. Nas gravações externas, Horie enfrentava baixas temperaturas de minissaia e lembra de ficar enrolada em toalhas ou outros tecidos nos intervalos para se aquecer.

Situações assim eram comuns nas produções de televisão da época e muito diferentes do que ela conhecia como cantora. A rotina musical também podia ser intensa, e Kyodain exigia horas em locações externas à espera da preparação de câmeras, equipamentos e cenas de ação, ritmo com que a atriz precisou aprender a lidar.

Natsu e Sasaki

A convivência com os dois protagonistas ocupa lugar importante nas lembranças de Horie. Ela descreve Yusuke Natsu como um colega atencioso, que procurava criar um ambiente agradável nas gravações, conversava com o elenco nos intervalos e se preocupava com o bem-estar de todos. Horie lembra também de colegas da produção que, depois de jornadas longas, ajudavam integrantes do elenco a voltar para casa ou a chegar ao transporte.

Takeshi Sasaki aparece como um profissional experiente, com quem era possível conversar e dividir as dificuldades do trabalho. Os dois já conheciam os programas de ação, Horie estava descobrindo aquele universo, e a convivência com eles tornou a adaptação menos complicada.

Os estúdios de Oizumi

A cantora fala ainda da atmosfera dos estúdios de Oizumi. Como várias produções da Toei eram feitas no complexo, era comum cruzar com atores de outros programas, técnicos de efeitos especiais e profissionais de áreas diversas, o que permitia fazer contatos e observar o funcionamento de outras produções. Para quem estava acostumada aos estúdios de gravação musical, foi uma experiência enriquecedora. Ela lembra também de observar os outros atores para entender melhor como interpretar suas cenas, num aprendizado que acontecia nos ensaios e no próprio cotidiano das filmagens.

Uma atriz em formação

Apesar de já ser uma cantora conhecida, Horie ainda desenvolvia sua experiência como atriz. As cenas dramáticas exigiam atenção à posição das câmeras, aos movimentos dos colegas e à continuidade entre tomadas, e algumas sequências precisavam ser repetidas várias vezes. Ela também precisava adaptar a interpretação às necessidades de uma produção infantil, transmitindo emoções com clareza e naturalidade.

A relação com Kenji pesava mais. Etsuko tinha de demonstrar carinho pelo menino e continuar cumprindo suas responsabilidades na organização de defesa, equilíbrio que fez da personagem uma presença importante na série.

O legado de Etsuko

A entrevista termina com reflexões sobre a permanência da personagem na memória do público. Horie demonstra satisfação ao ver que pessoas que assistiram à série na infância ainda se lembram de Etsuko, e acha curioso que alguns fãs recordem detalhes dos episódios que ela mesma já não guarda com tanta precisão. O intérprete passa por inúmeras cenas em ritmo acelerado, o público acompanha os acontecimentos semana a semana e os associa a momentos da própria vida, e décadas depois essas lembranças permanecem.

Para Horie, Kyodain é também o registro de uma experiência artística distante daquela que a tornou conhecida. Etsuko Shirakawa segue lembrada pela gentileza, pela relação com Kenji e pela presença humana que acrescentava ao universo dos irmãos robóticos.

Da invasão às grandes batalhas

A relação dos episódios de Uchu Tetsujin Kyodain, com títulos, roteiristas, diretores, monstros e atores convidados, oferece um panorama da evolução narrativa e visual da produção.

A fase mecânica

Os episódios iniciais apresentam os protagonistas, a ameaça do Exército Dada e as possibilidades de transformação dos robôs. O primeiro episódio introduz os irmãos mecânicos e estabelece a relação entre Joji, Ryuji e Kenji, e a partir daí os roteiros trazem diferentes máquinas de guerra enviadas pelos invasores. O segundo e o terceiro episódios destacam os adversários mecânicos, e Tankuda torna-se um dos primeiros grandes inimigos graças à forma de tanque, batalha cuja importância é reforçada pela escolha do terceiro episódio para a versão exibida no Toei Manga Matsuri.

Nos episódios seguintes aparecem armas especiais, dispositivos de controle, bases secretas e novas formas de transformação dos Dadaroids. A série segue a estrutura das aventuras semanais e acrescenta mecanismos e soluções visuais para surpreender o público, com adversários associados a canhões, serras, brocas, radares e armaduras resistentes. É o período em que a proposta mecânica de Kyodain fica mais evidente.

Os monstros ganham personalidade

Com o avanço dos episódios, os roteiros exploram histórias mais variadas e dependem menos das máquinas gigantescas. Surgem inimigos inspirados em animais, criaturas fantásticas e personagens de aparência grotesca. Os irmãos Robonhood trazem o conceito do arqueiro Robin Hood, Waninger leva a história para as férias de verão e Mummy Saturn incorpora elementos clássicos dos filmes de terror, enquanto Dadazemi, Togerunga e Gasmurder mostram o interesse dos roteiristas por adversários de habilidades especiais.

Nesse período, disfarces, transformações corporais e ataques que afetam o ambiente ao redor dos protagonistas aparecem com mais frequência. Os episódios continuam com batalhas e efeitos especiais, e os conflitos se aproximam das aventuras tradicionais de monstros do tokusatsu.

O episódio 12

Entre os episódios, o décimo segundo merece destaque pela batalha contra Bogan e pelo ferimento de Granzel, que continua visível depois da transformação, com a roda do Grancar envolvida numa faixa branca que reproduz a bandagem da perna. O recurso resume a capacidade de Kyodain de combinar situações dramáticas com um humor visual peculiar e de preservar as características humanas dos protagonistas mesmo quando eles são robôs e máquinas de guerra.

Gabrin e os Cinco Generais

A partir do episódio 22, Gabrin assume posição importante na organização inimiga, muda a dinâmica das batalhas e introduz uma estrutura de comando mais complexa, com a guarda de elite auxiliando as operações do Exército Dada e mais personagens militares com funções específicas. A mudança aparece na aparência dos inimigos, e os monstros mecânicos da primeira fase dão lugar, aos poucos, a figuras com roupas, máscaras e ornamentos mais elaborados.

A introdução dos Cinco Generais da Morte é outro ponto de virada. Com Death Viking, Death Flash, Death Giran, Death Gatter e Death Cat, o Exército Dada passa a ter um conjunto de comandantes que voltam ao longo da história, além do monstro novo de cada episódio, e a estrutura cria uma sensação maior de continuidade. No episódio 31 os generais são derrotados, e o retorno do grupo no episódio seguinte mostra o peso que eles ganharam na narrativa. A chegada de Gabrin Queen amplia ainda mais o universo da organização inimiga.

A fase final

Nos episódios posteriores, a narrativa avança para a estrutura de comando do Exército Dada e a verdadeira finalidade da invasão da Terra. O surgimento de figuras como o Cavaleiro Negro reforça a mudança visual e temática, com confrontos que trazem personagens parecidos com guerreiros monstruosos ao lado dos robôs que viram armamento. A história trata também da identidade dos protagonistas e das consequências da separação da família Hayama, e a relação entre os irmãos e o destino do pai seguem importantes mesmo nas aventuras mais independentes.

Algumas dessas ideias poderiam ter sido mais desenvolvidas, porque a série tinha vários elementos narrativos interessantes e nem todos chegaram a uma conclusão igualmente satisfatória. A variedade de personagens, situações e técnicas de produção mostra, ainda assim, a ambição criativa por trás do projeto.

Um drama de família

Há um aspecto de Uchu Tetsujin Kyodain que ajuda a explicar por que a série continua interessante tantas décadas depois. Por trás dos efeitos especiais e das batalhas contra os Dadaroids, a história é uma aventura sobre separação familiar. O professor Hayama é tirado de casa, dois de seus filhos desaparecem e o caçula fica sozinho na Terra, à espera de notícias.

Quando dois robôs surgem com a aparência dos irmãos desaparecidos, a situação se torna emocionalmente ambígua. Os cibernoides têm os rostos, as personalidades e algumas lembranças dos jovens originais e são seres artificiais, tensão que acompanha a história mesmo nos episódios que não tratam do assunto.

Granzel e Skyzel apertam as mãos num descampado
O aperto de mão dos irmãos, gesto que a série repetia como símbolo de cooperação · foto: Toei

Skyzel e Granzel representam a tentativa de preservar uma família por meio da tecnologia. O professor Hayama usa seus conhecimentos de engenharia robótica para criar defensores capazes de enfrentar os invasores e acaba produzindo versões artificiais dos próprios filhos. A série atribui o tempo todo características humanas a esses personagens, que discutem, brincam, se preocupam e protegem Kenji.

Essa humanidade aparece também nos detalhes visuais. Quando um dos irmãos é ferido, a forma mecânica continua mostrando o machucado, os veículos ainda podem fazer expressões faciais e os ataques combinados reforçam a ideia de cooperação entre irmãos. São recursos de humor que ajudam a preservar a personalidade dos protagonistas em todas as suas formas, robôs construídos para lutar que a história insiste em apresentar como membros de uma família.

A presença de Etsuko Shirakawa reforça essa dimensão emocional, com uma forma de carinho que os acontecimentos tiraram do cotidiano de Kenji, e Gonbes acrescenta humor e ajuda a construir um ambiente doméstico. O grupo de humanos, robôs e militares funciona como uma família substituta, unida pela necessidade de enfrentar a ameaça extraterrestre, e essa combinação de ficção científica e drama familiar diferencia Kyodain de muitas produções do período.

A televisão japonesa dos anos 1970

As conversas com Yusuke Natsu, Takeshi Sasaki e Mitsuko Horie ajudam a entender o funcionamento da televisão japonesa na década de 1970. Os três participaram da mesma série com trajetórias muito diferentes. Natsu vinha da música e consolidava a carreira de ator, Sasaki tinha formação teatral e experiência em programas de ação, incluindo Kamen Rider, e Horie era uma cantora conhecida que ainda aprendia o trabalho de atriz numa produção semanal.

Para Natsu, Kyodain era a chance de interpretar um personagem cuja responsabilidade familiar pesava tanto quanto a função heroica. Para Sasaki, era uma nova experiência no gênero que o tornara popular, agora dividindo o protagonismo com outro ator. Para Horie, significava entrar num ambiente profissional muito diferente do que conhecia como cantora.

Suas lembranças sobre os horários, o frio e os deslocamentos até os estúdios revelam um lado que costuma passar despercebido a quem assiste hoje a uma série antiga. Os episódios que podem ser vistos em sequência foram produzidos em ritmo intenso por profissionais que conciliavam vários compromissos, com filmagens externas sujeitas ao clima, cenas de ação que exigiam preparação, figurinos nem sempre adequados à temperatura e longas esperas pela montagem dos equipamentos.

As entrevistas mostram também um ambiente de companheirismo. A convivência prolongada aproximou o elenco, e isso pesou na própria série, porque a relação entre Joji e Ryuji precisava convencer o público de que eram irmãos, e a ligação entre Etsuko e Kenji precisava transmitir carinho e familiaridade. Muitas das lembranças dos entrevistados tratam do cotidiano da produção, dos deslocamentos, das conversas nos intervalos, dos encontros com profissionais de outras séries e das dificuldades nas filmagens, relatos que transformam Kyodain numa experiência concreta, vivida por dezenas de profissionais.

Skyzel e Granzel lado a lado diante do mar
Skyzel e Granzel numa locação à beira-mar. As externas dependiam do clima e da luz natural · foto: Toei

Ideias que ficaram pelo caminho

Vista hoje, a série deixa aparecer algumas contradições, e a mais evidente é a mudança na concepção dos adversários. Nos primeiros episódios, a série investiu pesado na transformação de robôs em armas e veículos, com efeitos especiais elaborados e cenas diferentes das vistas em outras produções. Com o desenvolvimento da história, essas transformações ficaram mais raras e os inimigos assumiram formas mais tradicionais, próximas dos monstros comuns às séries de heróis.

Essa mudança admite leituras diferentes. As criaturas variadas ampliavam as possibilidades narrativas, e a redução dos confrontos entre grandes máquinas afastava a produção de uma de suas ideias mais originais. As fotos de protótipos, miniaturas e veículos articulados que sobreviveram dessa fase ajudam a entender por que as primeiras batalhas mecânicas são as mais lembradas.

Outro elemento que poderia ter sido mais desenvolvido era a situação dos irmãos originais. Os cibernoides de aparência humana levantavam questões interessantes sobre identidade e memória, e a estrutura semanal muitas vezes exigia que os episódios se concentrassem em conflitos independentes. O mesmo acontecia com a organização inimiga. A chegada de Gabrin, os Cinco Generais da Morte e os planos de conquista ofereciam material para uma narrativa mais complexa, e essas mudanças exigiam reorganizar personagens e introduzir adversários novos, de modo que nem todas as questões receberam a profundidade possível.

Essas características ajudam a compreender o contexto em que a série foi feita e não diminuem sua importância. Kyodain nasceu numa época em que o tokusatsu de televisão experimentava fórmulas novas o tempo todo, e os produtores precisavam equilibrar inovação, custos, audiência, cronogramas de gravação e a necessidade de atrações inéditas a cada semana. O resultado foi uma série repleta de ideias, algumas desenvolvidas com brilho, outras abandonadas ou substituídas durante a produção.

Os irmãos de aço, cinquenta anos depois

Décadas depois da estreia, Uchu Tetsujin Kyodain continua uma produção de interesse na história da Toei. A série marca um momento em que diferentes tendências da ficção científica japonesa se combinavam. Os personagens tinham a aparência humana dos heróis de tokusatsu e características dos robôs transformáveis, os inimigos misturavam animais, máquinas, armamentos militares e criaturas fantásticas, e as histórias juntavam drama familiar, aventura infantil e invasão extraterrestre. Os efeitos especiais conciliavam atores fantasiados, miniaturas mecânicas, manipulação de bonecos e animação quadro a quadro.

A influência de Shotaro Ishinomori está em quase todos esses aspectos. Seus desenhos estabeleceram uma identidade visual distante dos robôs convencionais e dos monstros puramente orgânicos, e a coleção de esboços mostra a quantidade de ideias desenvolvidas na preparação da série. Os materiais promocionais preservam registros de modelos anteriores às versões definitivas, as adaptações em mangá oferecem outras leituras da história e as entrevistas com os atores acrescentam a dimensão humana que costuma se perder quando uma produção é analisada só pelas imagens.

Yusuke Natsu, Takeshi Sasaki e Mitsuko Horie seguiram caminhos profissionais diferentes e dividiram uma experiência ainda lembrada pelos fãs de tokusatsu. Essas recordações mostram que os personagens da televisão nasceram do trabalho coletivo de atores, roteiristas, designers, diretores, técnicos e especialistas em efeitos especiais, e que uma produção aparentemente simples podia reunir inúmeras experiências criativas.

Ilustração de Skyzel e Granzel diante da Terra com o logotipo de Kyodain, arte da linha Toei Retro Sofubi Collection
Skyzel e Granzel na arte da linha Toei Retro Sofubi Collection · reprodução
Figura colecionável de Granzel vista de baixo
Granzel em figura de colecionador da BU Toys · reprodução

Talvez seja essa combinação de ambição e improviso que torna Kyodain tão singular. A série explorou ideias pouco convencionais com recursos técnicos limitados, experimentou maneiras de transformar robôs em veículos, criou monstros extravagantes e construiu uma história em que a tecnologia servia para combater invasores e para preservar os vínculos de uma família. O resultado mistura série de robôs, aventura de super-heróis e a fórmula dos monstros semanais sem se encaixar por inteiro em nenhuma dessas categorias.

Uchu Tetsujin Kyodain é, acima de tudo, a história de dois irmãos que continuaram lutando juntos depois de terem sido transformados em máquinas, e é provavelmente isso que melhor explica a permanência de Skyzel e Granzel na memória dos fãs de tokusatsu. Meio século depois de a Toei e Shotaro Ishinomori desenvolverem suas aventuras, os dois irmãos de aço continuam entre as experiências mais peculiares, inventivas e humanas da ficção científica da televisão japonesa.

Fonte: Toei Hero Museum.

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