Por trás das armaduras de Skyzel e Granzel existia muito mais do que uma aventura de ficção científica. Lançada pela Toei em 1976, Uchu Tetsujin Kyodain combinou drama familiar, robôs transformáveis, invasores extraterrestres, técnicas experimentais de efeitos especiais e um universo de personagens extravagantes. Décadas depois, entrevistas com Yusuke Natsu, Takeshi Sasaki e Mitsuko Horie, além de materiais de produção e desenhos originais de Shotaro Ishinomori, ajudam a revelar como a série foi concebida e por que continua despertando o interesse dos fãs do tokusatsu japonês.
Uma experiência diferente na Toei
A década de 1970 foi um período fértil para o desenvolvimento do tokusatsu japonês. Impulsionada pelo sucesso de produções como Kamen Rider, Jinzo Ningen Kikaider e Himitsu Sentai Gorenger, a Toei experimentava diferentes fórmulas para conquistar o público infantil, combinando histórias de super-heróis, ficção científica, monstros e espetáculos de ação. Foi nesse ambiente de intensa criatividade que surgiu Uchu Tetsujin Kyodain, lançado em 2 de abril de 1976.
A nova produção colocava no centro da narrativa dois irmãos robóticos, unidos pela necessidade de defender a Terra e por uma tragédia familiar. Skyzel e Granzel eram representações artificiais de dois jovens desaparecidos, criadas para enfrentar uma ameaça extraterrestre e, ao mesmo tempo, proteger o irmão caçula que havia permanecido na Terra.
Essa premissa dava à série uma dimensão emocional pouco comum. Por trás das batalhas contra os Dadaroids, das transformações mecânicas e dos ataques especiais, havia uma pergunta que acompanhava os protagonistas o tempo todo, a de saber até que ponto aqueles robôs poderiam ser considerados os verdadeiros irmãos Hayama.
A série mantinha a estrutura tradicional das aventuras de heróis, com organizações inimigas, monstros semanais, máquinas de guerra e situações de perigo envolvendo crianças. Esses elementos, porém, vinham combinados com questões ligadas à identidade, à família e à própria natureza da existência humana.
Outro aspecto que diferenciava Kyodain era o peso das transformações mecânicas. Skyzel e Granzel trocavam de aparência e ganhavam armas novas, e seus corpos também assumiam formas de veículos e projéteis, o que abria espaço para sequências de efeitos especiais bastante incomuns. Em alguns episódios, os próprios inimigos viravam máquinas gigantescas, em confrontos mais próximos das aventuras de robôs de ficção científica do que das batalhas tradicionais entre heróis e monstros.
Vista hoje, a série chama atenção por esse espírito de experimentação, a tentativa de ampliar as possibilidades do gênero mesmo quando algumas ideias acabaram usadas por pouco tempo ou não receberam todo o desenvolvimento previsto no início.
A tragédia que criou os Kyodain
A história começa com o professor Hayama, considerado uma das maiores autoridades mundiais em engenharia robótica, que vive com os três filhos, Joji, Ryuji e Kenji. Durante a festa de aniversário de Kenji, o caçula, acontece o evento que muda a vida da família. O professor e os dois filhos mais velhos são sequestrados por extraterrestres do planeta Dada, integrantes de uma organização que pretende conquistar a Terra, e Kenji fica no planeta, separado do pai e dos irmãos.
Um ano depois, quando as forças invasoras iniciam suas operações, surgem dois misteriosos super-robôs com aparência humana, Skyzel e Granzel. Criados pelo professor Hayama a partir das características dos filhos desaparecidos, os dois cibernoides receberam a missão de defender a humanidade contra o Exército Dada. Skyzel representa Joji Hayama, o irmão mais velho, e Granzel representa Ryuji Hayama, o segundo filho.
Embora tenham aparência humana e conservem traços dos jovens que lhes serviram de modelo, os dois são seres artificiais construídos para combater uma ameaça que ultrapassa a capacidade dos seres humanos comuns. Essa condição faz da relação com Kenji o principal elemento emocional da história. Para o menino, aqueles dois heróis representam a possibilidade de recuperar a família perdida. Para os robôs, proteger Kenji significa cumprir uma missão que envolve a defesa da Terra e a preservação dos vínculos familiares dos irmãos originais.
A base dos protagonistas conta ainda com outros personagens. Entre eles está Etsuko Shirakawa, antiga assistente do professor Hayama e integrante da divisão japonesa das Forças de Defesa da Terra. Embora participe das atividades militares e científicas do grupo, Etsuko assume também uma função afetiva, cuidando de Kenji e oferecendo ao menino a companhia e a atenção de que ele precisa, e acaba funcionando como uma presença maternal dentro da equipe.
Outro integrante é Gonbes, um pequeno robô auxiliar que chegou à Terra junto com os Kyodain. Gonbes foi concebido para tarefas longe do combate, como consertar equipamentos, ajudar nas atividades do dia a dia e até preparar refeições. Sua presença acrescenta humor e leveza à história e reforça a ideia de que aquele grupo forma uma espécie de família improvisada.

A equipe recebe ainda o apoio de militares como o coronel Marui e o sargento Hosoda, ligados às Forças de Defesa da Terra. Outro personagem relevante é o professor Kaido, antigo conhecido do professor Hayama, que tenta decifrar a misteriosa Canção de Colher Flores, relacionada aos segredos da luta contra os invasores. Esses personagens trazem para a narrativa as perspectivas científica, militar, familiar e emocional.
Em muitas produções da época, os personagens secundários existiam sobretudo para pedir a ajuda dos heróis. Kyodain procurava construir um universo em que diferentes pessoas contribuíam para a resistência contra a invasão extraterrestre.
Skyzel e Granzel
A relação entre os protagonistas era a base da série. Joji Hayama, representado por Skyzel, era o irmão mais velho. Antes dos acontecimentos envolvendo o planeta Dada, ajudava o pai nas pesquisas de robótica e lutava boxe, e na caracterização original tinha cerca de 20 anos. Como Skyzel, suas principais qualidades eram a velocidade e a agilidade, e o corpo robótico podia assumir diferentes configurações, entre elas Skyjet e Skymissile, que permitiam ataques aéreos e combinações com as máquinas do irmão.
Ryuji Hayama era o segundo filho da família. Mais impulsivo e fisicamente poderoso, destacava-se na luta livre e tinha o hábito curioso de bater no próprio rosto quando esquecia alguma coisa. Na apresentação original dos personagens, tinha cerca de 18 anos. Seu correspondente robótico, Granzel, privilegiava a força, e entre suas transformações estavam o Grancar, um veículo terrestre, e o Granmissile, usado em ataques combinados.
A divisão das habilidades permitia aos roteiristas explorar uma grande variedade de situações. Skyzel usava a velocidade para surpreender os adversários, e Granzel enfrentava os inimigos com resistência e força física. O aspecto mais interessante estava na possibilidade de combinar as transformações dos dois. Skyjet e Granmissile, assim como Skymissile e Grancar, podiam atuar em conjunto, em cenas que exigiam soluções técnicas muito diferentes das usadas nas séries de heróis da época.
Essa mistura de características humanas, personalidade e transformação mecânica tornou-se uma das marcas mais reconhecíveis de Uchu Tetsujin Kyodain. A complementaridade entre os irmãos estava presente na própria concepção de seus corpos robóticos.


Os Dadaroids
Se Skyzel e Granzel representavam o lado heroico da história, os Dadaroids eram o seu equivalente monstruoso. Criados para executar os planos de conquista da Terra, esses inimigos combinavam características de robôs, animais, armas e criaturas fantásticas. São mais de vinte personagens e grupos de inimigos, e a sequência deles permite acompanhar a evolução visual da série.
Nos primeiros episódios, os adversários eram concebidos a partir de equipamentos militares e máquinas. Com o desenvolvimento da história, surgiram criaturas mais próximas dos monstros tradicionais do tokusatsu, além de oficiais superiores e personagens de aparência cada vez mais extravagante.
Os irmãos chegam à Terra. Começa a fase das máquinas de guerra.
O tanque que repete o próprio nome. Episódio levado ao cinema.
Bogan fere Granzel, e o Grancar sai de bandagem.
Novo comando e guarda de elite de soldados robóticos.
Death Viking, Flash, Giran, Gatter e Cat.
Os generais caem. Surge o braço direito de Gabrin.
Os Cinco Generais da Morte ressuscitam.
O Cavaleiro Negro abre a etapa final.
Canhões, tanques e máquinas transformáveis
A base do exército inimigo era formada pelos soldados robóticos, os Robot Hei, que atacavam em grupo e podiam separar partes do corpo para depois reorganizá-las, comportamento mecanizado que combinava com a ideia de uma força militar feita de máquinas. Acima deles vinham os primeiros oficiais e monstros, todos pensados como armas ambulantes.
Bazucard, oficial encarregado das operações iniciais da invasão, tinha canhões instalados na cabeça e nas costas e podia assumir uma forma ampliada de combate, o Bazucardon, conceito que refletia a proposta inicial da série, em que o inimigo funcionava como monstro e como máquina de guerra. Tankuda seguia a mesma lógica. Transformava-se num tanque e avançava contra os adversários repetindo o próprio nome, comportamento que dava personalidade à aparência mecânica, e está ligado ao terceiro episódio, depois adaptado para exibição nos cinemas.
Daikirai tinha um visual mais monstruoso, estendia o pescoço e o braço direito, ressuscitava depois de uma derrota e assumia uma forma gigantesca. Gatlinger partia das armas automáticas, e a combinação das mãos com outras partes do corpo o transformava numa metralhadora do tipo Gatling.
Esse conjunto mostra como roteiristas e designers exploravam ao pé da letra a associação entre anatomia robótica e armamento.
Radar Batton e a versatilidade das máquinas
Um dos Dadaroids mais interessantes desse período era Radar Batton, com um míssil no braço esquerdo e uma broca no direito. Ao abrir as asas virava Great Batton, configuração de combate mais poderosa, e controlava seres humanos por meio de ondas eletromagnéticas, combinação que o levou a histórias bem diferentes das simples batalhas físicas e lhe rendeu interpretações próprias nos mangás da época.
Nokogirin tinha serras no corpo que se desprendiam e funcionavam como armas arremessáveis, além de projéteis cortantes semelhantes a estrelas ninja. Bogan tinha o corpo formado por esferas metálicas que podiam ser separadas e usadas nos ataques, e é o responsável pelo ferimento de Granzel no episódio 12. Kabutoon vestia uma armadura descrita como feita de um dos metais mais fortes do universo, com uma espada capaz de cortar praticamente qualquer material e um escudo de grande resistência, e sua fraqueza era um componente magnético em forma de U no peito.
Taihon levava adiante a tradição dos inimigos inspirados em armamentos, com o corpo inteiro funcionando como um enorme canhão de projéteis de grande potência, e a estrutura usada nos disparos era também seu ponto vulnerável. Cycleman tinha chifres que funcionavam como brocas, movimentos giratórios e equipamentos cortantes, o que o tornava perigoso em confronto direto.
Arqueiros robóticos e monstros inspirados em animais
À medida que a série avançava, o repertório de Dadaroids ficou mais variado, e temas reconhecíveis da cultura popular viraram inimigos robóticos. Um exemplo foi a dupla de arqueiros inspirada na imagem tradicional de Robin Hood, tendência que seria cada vez mais explorada, ao lado de monstros com traços de animais e de criaturas saídas do cinema de terror.
Robonhood 1, o irmão mais velho da dupla, era considerado um mestre do arco espacial e usava flechas enormes chamadas Hood Arrow. Robonhood 2 tinha mecanismos no corpo para disparar flechas em sequência e dispositivos especiais presos aos projéteis, que ampliavam as possibilidades de ataque.
Waninger, com aparência de crocodilo, aparece numa história ambientada nas férias de verão, quando Ryuji, Kenji e os companheiros visitam a província de Miyagi, e ficava mais agressivo ao som de tambores. Mummy Saturn ressuscitava de um sarcófago nas montanhas, tinha aparência de múmia e interesse por sangue humano e atacava com bandagens e com uma substância expelida pela boca, mistura de terror clássico e ficção científica comum no tokusatsu da época.

A chegada de Gabrin
O aparecimento de Gabrin, por volta do episódio 22, marcou uma nova etapa das operações militares dos invasores. Gabrin passou a comandar unidades especializadas, incluindo uma guarda de elite de soldados robóticos subordinados diretamente a ele, que auxiliava as estratégias dos Dadaroids e os ataques contra os Kyodain.
A presença do personagem mudou o equilíbrio da narrativa. Os inimigos ganharam uma hierarquia mais complexa, os conflitos passaram a depender menos do monstro enviado em cada episódio e o visual dos antagonistas ficou progressivamente mais elaborado.
Os Cinco Generais da Morte
A partir do episódio 26, a organização inimiga ganhou um novo grupo de oficiais, os Cinco Generais da Morte, conhecidos como Desu Goninshu e formados por Death Viking, Death Flash, Death Giran, Death Gatter e Death Cat. Os primeiros Dadaroids tinham características associadas a armas e máquinas, e os Cinco Generais exibiam uma aparência mais próxima de guerreiros monstruosos, com armaduras, máscaras e traços individuais que reforçavam a ideia de uma elite militar. O grupo foi derrotado no episódio 31 e voltou no episódio seguinte, ressurreição que permitiu aos personagens continuar nas operações inimigas.
Outra figura relevante dessa fase foi Gabrin Queen, que apareceu a partir do episódio 31 como braço direito de Gabrin. Tinha habilidades especiais, entre elas poderes de transformação, e um figurino ornamentado bem diferente daquele dos primeiros monstros da série.
O Cavaleiro Negro
Entre os adversários da etapa final estava o Cavaleiro Negro, ou Black Knight, que surgiu a partir do episódio 39, quando a série já tinha se afastado bastante da fórmula mecânica do início. A criação do personagem estava ligada à combinação de elementos dos Cinco Generais da Morte, e o resultado era uma figura de aparência mais tradicionalmente ameaçadora, próxima dos grandes comandantes e guerreiros monstruosos de outras produções da Toei.
A evolução de Bazucard até o Black Knight ilustra o percurso visual de Kyodain, que começou privilegiando máquinas de guerra transformáveis e terminou explorando também monstros, guerreiros e figuras de fantasia. A diversidade enriqueceu o repertório de inimigos e mostra, ao mesmo tempo, que algumas ideias centrais do início foram ficando em segundo plano.
Monstros com voz própria
O encanto desses inimigos tem raiz na tradição visual dos personagens criados para produções como Kikaider e Gorenger. Nas séries de Ishinomori, a aparência dos antagonistas costumava combinar elementos reconhecíveis com formas artificiais e grotescas, e em Kyodain essa tendência foi levada a um extremo. Os inimigos tinham corpos desproporcionais, armas incorporadas à anatomia e características que os tornavam difíceis de classificar, numa ambiguidade entre robô convencional e monstro orgânico que dava grande liberdade de criação.
Os personagens também se diferenciavam pelo comportamento. Mesmo representando uma ameaça à humanidade, alguns Dadaroids tinham traços quase cômicos, sobretudo quando associados a vozes marcantes, e o trabalho dos dubladores foi fundamental. Entre os intérpretes estavam Shozo Iizuka, Eiji Maruyama e Mahito Tsujimura, e Iizuka se destacou com uma interpretação que transmitia uma personalidade exagerada e, em certos momentos, divertida, de modo que alguns personagens carregavam um componente de humor mesmo em situações ameaçadoras.
Muitos desses dubladores trabalharam em outras produções importantes da televisão japonesa, emprestando a voz a criaturas, robôs e personagens de séries de grande popularidade. Cada inimigo tinha uma voz, um comportamento e uma maneira própria de enfrentar os heróis, e a variedade visual somada às interpretações dos dubladores ajudou a manter o interesse do público ao longo da produção.
Os desenhos de Ishinomori
Os esboços preliminares de Shotaro Ishinomori estão entre os registros mais valiosos de Kyodain. Os desenhos de design de personagens produzidos durante o desenvolvimento da série permitem comparar as ideias originais com os figurinos usados nas filmagens. Alguns personagens já tinham, desde as primeiras ilustrações, uma aparência próxima da versão definitiva. Outros passaram por alterações significativas, e há desenhos que aparentemente nunca chegaram a ser usados. A coleção ajuda a entender uma característica do trabalho de Ishinomori, a capacidade de transformar conceitos simples em personagens fáceis de reconhecer.
Entre os primeiros desenhos está um projeto ligado ao desenvolvimento de Skyzel, bem diferente da aparência definitiva do personagem. Alguns elementos são reconhecíveis, e a composição geral ainda estava longe do figurino que os espectadores conheceriam, sinal de que a identidade visual dos Kyodain passou por várias etapas antes da forma final.
Essa evolução aparece também nos primeiros materiais promocionais. Uma edição da TV Land de março de 1976 publicou fotos de protótipos do Grancar e do Skyjet com uma combinação de cores diferente da usada na televisão, o corpo principal predominantemente branco e alguns componentes em vermelho. A revista identifica essas fotos como registros de versões preliminares, anteriores à definição do acabamento final, um exemplo de como o material promocional podia revelar etapas do desenvolvimento de uma produção.
Está entre os personagens cujos desenhos mudaram pouco. O esboço original já tem o corpo compacto, os olhos expressivos e o formato peculiar da cabeça mantidos no modelo das filmagens. A simplicidade comunicava de imediato a personalidade de um robô simpático, acessível às crianças e pronto para situações de humor, e Ishinomori reuniu tudo isso num desenho fácil de reconhecer.
Cabeça de proporções incomuns e estrutura corporal que enfatiza o aspecto monstruoso. A ideia original já mostrava interesse por formas salientes e detalhes que poderiam virar componentes do figurino.
Direção mais associada a equipamentos militares, com elementos cilíndricos e componentes que reforçam a relação com armas automáticas. A figura transmite peso e agressividade, coerentes com um inimigo identificado com uma metralhadora.
Combinação ousada de morcego, armamento mecânico e elementos tecnológicos. O design preliminar explora a ideia de transformar asas, braços e partes do corpo em mecanismos ofensivos.
Concebido a partir de formas que remetem a brocas, serras e movimentos giratórios. O esboço difere em alguns detalhes do figurino definitivo e traz anotações sobre a transformação e os equipamentos incorporados ao corpo.
No caso de Robonhood 1, muitas características do esboço foram mantidas, com o corpo humanoide, os elementos mecânicos e a armadura já definidos. Robonhood 2 seguiu processo semelhante. O motivo de Robin Hood mostra outra faceta de Ishinomori, a de transformar referências culturais conhecidas em personagens de ficção científica.
Cabeça alongada e desproporcional, pernas curtas e uma figura visualmente desequilibrada, e é essa falta de proporção que torna o personagem reconhecível. A silhueta remete de imediato a um crocodilo sem abandonar os traços artificiais dos Dadaroids, solução importante numa série que apresentava inimigos novos com frequência.
Visual mais ornamentado, máscaras complexas e referências que vão além do mecânico. Death Gatter tem uma cabeça elaborada que transmite liderança. Death Flash usa formas abstratas que não derivam de um objeto ou animal específico. Death Cat exagera traços felinos, como um gato monstruoso vindo do espaço. Death Giran tem a cabeça em formato de cogumelo. Death Viking lembra algumas máscaras de Himitsu Sentai Gorenger pela composição do rosto e das peças próximas ao pescoço.
Elementos ornamentais que lembram referências visuais do Sudeste Asiático e um figurino que transmite autoridade e sofisticação, distante dos soldados comuns. Mostra que a série já tinha deixado para trás a estética exclusivamente mecânica, com posição hierárquica e personalidade comunicadas pelo design.
Os esboços sugerem que, durante o desenvolvimento, existiu a possibilidade de o personagem ter uma configuração feminina, ideia que não chegou à versão final.
A coleção inclui desenhos de personagens que não apareceram na televisão. Um deles é uma figura robusta, de braços volumosos e aparência de guerreiro mecanizado. Outro combina elementos orgânicos e mecânicos numa estrutura ameaçadora.
A comparação entre esboços e figurinos mostra o esforço da equipe de produção para preservar o que havia de mais marcante nos desenhos dentro das limitações físicas das máscaras e armaduras. Esses materiais permitem imaginar outros caminhos que a série poderia ter seguido e confirmam que os desenhos de Ishinomori faziam parte de um processo de experimentação, além de servirem à divulgação. Algumas ideias foram aproveitadas quase por inteiro, outras modificadas pela equipe, e algumas acabaram abandonadas, numa identidade visual construída a partir de muitas experiências, revisões e soluções criativas.
Kyodain nas revistas japonesas
A popularidade de Kyodain foi além da televisão. Como outras produções infantis da Toei, a série teve ampla cobertura das revistas japonesas dedicadas a mangás, brinquedos e programas de TV. Quatro publicações se destacaram, TV Magazine e Tanoshii Yochien, da Kodansha, TV Land, da Tokuma Shoten, e Boken O, da Akita Shoten.
Essas revistas tinham papel importante na divulgação das séries de tokusatsu. Além de fotos dos personagens, publicavam histórias em quadrinhos, diagramas mecânicos, explicações sobre armas e transformações, informações sobre os inimigos e prévias dos episódios seguintes. No caso de Kyodain, a quantidade de máquinas e formas transformáveis rendia material especialmente rico, e os leitores podiam observar detalhes dos equipamentos e entender mecanismos que nem sempre eram explicados nos episódios.
Os Dadaroids também eram assunto recorrente, porque cada inimigo novo trazia ilustrações, informações sobre poderes e detalhes de transformação. Mesmo na segunda metade da série, quando Gabrin e os Cinco Generais da Morte ganharam espaço, as publicações continuaram recebendo personagens e material novos.
As primeiras imagens
Um detalhe histórico aparece na edição de março de 1976 da TV Land. Publicada antes da estreia, a revista trazia uma prévia da nova produção, combinando fotos de máquinas e personagens com ilustrações feitas para a divulgação. Numa das páginas, o Skymissile aparece desenhado, enquanto outros elementos aparecem fotografados, composição típica das revistas infantis japonesas da época.
A mesma edição mostrava os protótipos do Grancar e do Skyjet, registro visual de modelos anteriores às versões definitivas. Essas imagens têm hoje valor especial para pesquisadores e colecionadores, porque permitem acompanhar as mudanças feitas entre a preparação do material promocional e o início das filmagens.
Os mangás
Kyodain recebeu diferentes adaptações em quadrinhos, e uma particularidade dessas versões era a liberdade dada aos artistas para reinterpretar acontecimentos e características dos personagens. A versão da Boken O, desenhada por Shinichi Tokisato, dedicava muitas páginas ao desenvolvimento da narrativa e, era uma das adaptações mais próximas da história da televisão.
A versão da TV Land, atribuída a Yoshiki Tsuchiyama, seguia outro caminho. Em determinado momento apresentava uma interpretação da situação de Ryuji que se afastava da continuidade televisiva, com a ideia de que o personagem original já tinha morrido, o que dava à história uma dimensão dramática própria. Na TV Magazine, a adaptação de Norio Narui também tinha elementos particulares, entre eles o destaque dado à dupla formada por Radar Batton e Death Cat.
As diferenças mostram como os mangás funcionavam como versões alternativas da mesma história, com personagens, máquinas e conceitos em comum e liberdade para fugir do roteiro da televisão.

Enciclopédias e livros
Além das revistas regulares, Kyodain ganhou publicações especiais, como os títulos da linha TV Land One Pack, da Tokuma Shoten, e pequenas enciclopédias ilustradas da Elm. Esses livros reuniam informações que apareciam de forma fragmentada nas revistas semanais ou mensais, com diagramas mecânicos, fotos dos personagens e explicações sobre os Dadaroids. A maior parte do material concentrava-se nos inimigos apresentados até a chegada de Gabrin, prova de que as mudanças feitas durante a série se refletiam na própria organização dos livros, e o público encontrava versões diferentes do mesmo universo conforme a época da publicação.
Para os colecionadores atuais, essas diferenças têm interesse especial. As revistas de lançamento preservam ideias promocionais e protótipos, os mangás oferecem interpretações alternativas da história e as enciclopédias trazem dados técnicos e fotografias que nem sempre aparecem em outras fontes. Em conjunto, esses materiais permitem reconstruir aspectos da produção que vão além dos episódios exibidos.

Kyodain no cinema
Em 18 de julho de 1976, poucos meses depois da estreia na televisão, Uchu Tetsujin Kyodain chegou ao cinema como parte do Toei Manga Matsuri, o Festival de Mangás da Toei. O evento era uma das principais vitrines das produções infantis do estúdio e reunia várias atrações numa programação voltada ao público familiar. Séries populares da televisão costumavam ganhar versões para o festival, algumas produzidas especialmente para o evento e outras adaptadas de episódios já exibidos.
No caso de Kyodain, foi escolhido o terceiro episódio da série, "Batalha decisiva! A fúria desenfreada de Tankuda!", apresentado numa versão preparada para os cinemas. A programação daquele festival incluía Grendizer, Getter Robo G e Great Mazinger: Batalha Decisiva! O Grande Monstro Marinho, aventura especial que reunia personagens de diferentes séries de robôs, a reprise de Ali Babá e os 40 Ladrões, Himitsu Sentai Gorenger: Bomb Hurricane, The Kagestar e versões para o cinema de Ikkyu-san e Haha wo Tazunete Sanzenri. A presença de Kyodain nesse conjunto mostra a importância que a Toei dava à série naquele momento.
- Uchu Tetsujin KyodainEp. 3, "Batalha decisiva! A fúria desenfreada de Tankuda!"
- Grendizer, Getter Robo G e Great MazingerBatalha Decisiva! O Grande Monstro Marinho
- Himitsu Sentai GorengerBomb Hurricane
- The Kagestar
- Ikkyu-sanversão para o cinema
- Haha wo Tazunete Sanzenriversão para o cinema
- Ali Babá e os 40 Ladrõesreprise
Com a escolha de adaptar um episódio já produzido para a televisão, ficou no papel a ideia de uma grande aventura criada para os irmãos robóticos, com um exército de Dadaroids ressuscitados enfrentando os protagonistas numa batalha mecânica de grandes proporções, algo que parecia feito para a tela de cinema. A participação no festival permanece como registro da circulação de Kyodain por diferentes mídias.



