Jiraiya VS Clã Youma
磁雷矢VS妖魔一族
ESTREIA
A guerra mundial dos ninjas pela Pako, o tesouro caído das estrelas. O incrível ninja que trocou a armadura cósmica do Metal Hero por uma lenda de família, folclore e ninjutsu de verdade.
Sekai Ninja Sen Jiraiya, exibido no Japão entre 24 de janeiro de 1988 e 22 de janeiro de 1989 pela TV Asahi, é a sétima produção da franquia Metal Hero da Toei e a última concebida inteiramente dentro da era Showa. Em meia década de cromo e armaduras cósmicas, de Gavan a Spielban, a linha havia firmado uma gramática quase imutável, a do policial galáctico encouraçado que duela contra um império do espaço. Jiraiya rompe essa gramática de modo tão radical que ainda hoje figura como a entrada mais atípica de toda a saga.

O primeiro choque é conceitual. Os Metal Heroes anteriores eram, em essência, homens transformados em metal vivo por tecnologia alienígena ou militar. Toha Yamashi, o protagonista vivido por Takumi Tsutsui, não tem nada disso. É um jovem de dezenove anos que faz bicos para sustentar a família e que herda do pai adotivo uma armadura de tecido ancestral, a Jiraiya Suit, guardada no forro do dojo. A força dele vem do treino, da linhagem e da disciplina do ninjutsu, não de uma fonte de energia. Pela primeira vez na franquia, o herói de armadura é, antes de tudo, um artista marcial.
Essa escolha reorganiza tudo o que vem depois. Sem a moldura da ficção científica espacial, a série abraça o folclore, o drama doméstico e o combate corpo a corpo. O resultado é um híbrido improvável de seriado de ação, conto de fadas japonês e novela familiar, costurado com a estética metálica que o público da faixa já conhecia.
O título traduz a premissa. Sekai Ninja Sen significa, ao pé da letra, Guerra Mundial dos Ninjas, e a ideia que sustenta a série é deliciosamente ousada: ninjas não são uma exclusividade japonesa. Cada povo, em cada canto do planeta, teria desenvolvido sua própria arte secreta. Por isso o inimigo da semana raramente é um monstro genérico. É um guerreiro estrangeiro, desenhado a partir da iconografia de seu país de origem, atrás do mesmo prêmio.
Esse prêmio é a Pako, uma cápsula vinda do espaço que teria caído na Terra por volta do século 4 antes de Cristo, descrita como o maior tesouro do mundo e portadora de uma energia comparável à do Sol. A família Yamashi, herdeira da escola Togakure, guarda a inscrição que aponta onde a Pako está. O renegado Dokusai, ex-discípulo de Togakure, roubou metade dessa inscrição e fundou o clã Yoma para tomar o restante. A caçada por esse tesouro é o que arrasta ao Japão ninjas de todas as nações, alguns como adversários, vários como aliados de Jiraiya.
Se a guerra mundial dá o espetáculo, é a família que dá o coração. O verdadeiro centro de Jiraiya é a casa dos Yamashi. Tetsuzan, o patriarca e trigésimo quarto mestre da escola Togakure, comanda um dojo e cria sob o mesmo teto o filho adotivo Toha, a filha Kei e o caçula Manabu. Kei combate como a princesa ninja Emiha, de armadura branca; Manabu, de apenas nove anos, fabrica a própria armadura caseira e luta com um estilingue. A cada episódio, o retorno à mesa de jantar funciona como contraponto afetivo à violência da rua.
Esse calor doméstico é o que diferencia a série de seus pares e o que explica, em parte, a devoção que ela despertaria longe do Japão. Jiraiya não é só sobre golpes e explosões. É sobre uma casa que resiste unida enquanto o mundo bate à porta.
O nome do herói não foi tirado do nada. Jiraiya é uma figura do folclore japonês, herói do romance ilustrado Jiraiya Goketsu Monogatari, publicado a partir de 1839, um ninja capaz de invocar a magia dos sapos. A produção, porém, escreve o nome com ideogramas próprios, que podem ser lidos como flecha do trovão magnético, codificando os poderes magnéticos do personagem.
A autenticidade vai além do nome. O papel do patriarca Tetsuzan coube a Masaaki Hatsumi, o verdadeiro trigésimo quarto soke da Togakure-ryu e fundador do Bujinkan, a escola de ninjutsu reconhecida no mundo todo. A série usa o nome real da escola e do dojo, e Hatsumi funcionou, na prática, como a autoridade de ninjutsu da produção. Poucas vezes um tokusatsu se apoiou de modo tão direto numa linhagem marcial real.
Jiraiya tem ainda o peso de ser uma dobradiça histórica. Concebida como a última série Metal Hero da era Showa, ela foi ao ar enquanto o imperador Hirohito agonizava. Sua morte, em 7 de janeiro de 1989, no meio da reta final da série, alterou a grade da emissora e empurrou as datas dos últimos episódios. A obra atravessa, assim, a fronteira entre a era Showa e a era Heisei, encerrando um ciclo não só da franquia, mas de uma época do Japão.
O que se segue, neste verbete, é o mapa completo dessa obra. Do enredo aos personagens, do bestiário de ninjas do mundo aos bastidores conturbados, do contexto de 1988 ao legado que mantém Jiraiya vivo em crossovers e relançamentos até hoje.
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A casa dos Yamashi, seus aliados e o clã Yoma. Entre parênteses, o ator ou atriz que deu vida a cada um.
O grande achado da série. A cada semana, um guerreiro de outro país surgia atrás da Pako, desenhado a partir da cultura de sua terra. Uma pequena seleção do elenco internacional.
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A ação de Jiraiya saiu da equipe da Toei sob direção de Osamu Kaneda, e o dado que organiza tudo é uma troca precoce: o protagonista mudou de dublê no episódio 5. Kazuyoshi Yamada vestiu o traje nos quatro primeiros; Koji Matoba assumiu do quinto ao quinquagésimo.
O protagonista de Jiraiya trocou de dublê logo no começo. Kazuyoshi Yamada vestiu o traje nos quatro primeiros episódios; a partir do quinto, Koji Matoba assumiu e ficou até o episódio 50. É uma substituição precoce e discreta, feita antes de a série encontrar seu ritmo, e que passa despercebida para quem assiste sem saber.
A troca acontece exatamente na virada em que a produção ajustava o tom do herói. Os dois primeiros episódios tinham sido gravados com uma abordagem que a própria produção decidiu recuar depois, e o quinto episódio marca o ponto em que a série assume a forma que manteria pelo resto do ano.
O Jiraiya que estreia na TV em 24 de janeiro de 1988 é Kazuyoshi Yamada. Ele veste o traje pelos quatro primeiros episódios e sai. São dele, portanto, as primeiras cenas de ação que o público brasileiro veria anos depois na Manchete: a apresentação do personagem, o primeiro henshin, os primeiros combates.
Quatro episódios é uma passagem curta demais para ser acidente de escala e curta demais para ser planejada. É o tipo de detalhe que só aparece nos créditos japoneses e que a memória afetiva brasileira nunca registrou.
A melhor história de bastidor da série é dele. Takeshi Miyazaki conta que, nas filmagens dos episódios 1 e 2, fez uma atuação deliberadamente cômica a pedido do diretor de ação Osamu Kaneda. O produtor interveio: mandou conter, porque o vilão estava ofuscando o protagonista.
É um vislumbre raro da negociação invisível que acontece dentro de um traje. O dublê não tem rosto nem voz para disputar cena, só corpo — e mesmo assim precisou ser contido para não roubar a série de quem a estrelava.
Miyazaki ainda acumulou Karasu Tengu, Parchis e o Silver Shark, no padrão de revezamento que a equipe de ação da Toei praticava.
Aqui a ficha cruza com outro verbete do site. Tsutomu Kitagawa, que quatro anos antes tinha vestido o Blue Three em Bioman, aparece em Jiraiya como o Ryokuryu.
É o mesmo corpo que, uma década depois, a Toho escolheria para carregar o traje de Godzilla nos filmes da era Millennium, de 1999 até Final Wars, em 2004. Quem acompanhou os dois programas no Brasil viu o mesmo dublê duas vezes sem nunca ver o rosto dele.
A ação de Jiraiya foi desenhada por Osamu Kaneda, nome central da escola de dublês da Toei e responsável por coreografar boa parte do que o Metal Hero produziu no período.
Foi dele o pedido de atuação cômica que o produtor vetou nos primeiros episódios: um exemplo de como o diretor de ação disputa, na prática, o tom de uma série inteira.
Outro reencontro com o elenco de Bioman: Makoto Kenmochi, que fora o Green Two em 1984, aparece em Jiraiya como o Gyuma no episódio 13. No episódio 42 o mesmo personagem foi vestido por Haruyuki Higuchi.
Esse rodízio de dublês dentro de um único personagem, ao longo da mesma temporada, é a marca do sistema de produção da Toei: o traje é fixo, o corpo dentro dele não.
O elenco de vilões era revezado no mesmo esquema de acúmulo que a Toei praticava: Takeshi Miyazaki acumulou Karasu Tengu, Parchis e Silver Shark, e um mesmo personagem podia trocar de corpo entre episódios. Dois nomes vêm direto de Bioman. Clique nas abas para abrir cada ficha.
A trilha de Jiraiya tem uma assinatura só: Akira Kushida canta a abertura e o encerramento, e Megumi Wakakusa assina as 45 faixas de música incidental que tocam por baixo dos 50 episódios. Kushida é uma das vozes mais reconhecíveis do tokusatsu japonês dos anos 80, e "Jiraiya" está entre os temas que o fixaram nessa posição.
A trilha incidental completa levou dezesseis anos para virar CD: só em 2004, dentro da coleção ANIMEX 1200 da Columbia, o LP original foi reeditado com as 45 faixas mais as duas canções.
Akira Kushida é uma das vozes mais reconhecíveis do tokusatsu japonês, e Jiraiya está entre seus temas mais lembrados. A letra é de Keisuke Yamakawa, letrista com trânsito no pop japonês da época, e a melodia de Kisaburo Suzuki.
Letra completa no Uta-Net ↗O mesmo intérprete da abertura fecha os episódios. O "'88" no título marca o ano de estreia, um recurso datado que a série assumiu sem cerimônia.
Megumi Wakakusa assinou toda a trilha incidental, e é dela a identidade sonora que mistura percussão de matriz japonesa com orquestração oitentista. A trilha completa só ganhou edição em CD em 2004, dentro da série ANIMEX 1200 da Columbia.
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FINALIbope japonês (Video Research, região de Kanto) dos 50 episódios na faixa das manhãs de domingo da TV Asahi.
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Quadros da série original de 1988, do dojo dos Yamashi aos duelos ninja. Imagens via The Movie Database.