O ator Tetsuo Kurata, intérprete de Kotaro Minami em Kamen Rider Black e Kamen Rider Black RX, deu esta entrevista à revista MAX em 2009, quando voltou ao papel 20 anos depois, em Kamen Rider Decade. O Kyoudai Express traduziu a conversa na íntegra.
Kamen Rider Black foi exibida de outubro de 1987 a outubro de 1988, em 51 episódios, e chegou ao Brasil em 1991 pela Rede Manchete com o título Black Kamen Rider. Kamen Rider Black RX estreou duas semanas depois do último episódio e ficou no ar até setembro de 1989, o que fez de Kotaro Minami o único protagonista da franquia a estrelar duas séries seguidas. Em 2009, Kurata voltou ao personagem nos episódios 26 e 27 de Kamen Rider Decade e no filme Kamen Rider Decade: All Riders vs. Dai-Shocker, lançado em agosto daquele ano.
Kurata nasceu em 11 de setembro de 1968 e estreou como ator aos 19 anos, depois de vencer o teste aberto que a Toei fez para escolher o protagonista de Black. Depois das duas séries, ele protagonizou a novela matinal Kimi no Na wa, da NHK, em 1991, e passou a integrar o elenco de Wataru Seken wa Oni Bakari, da TBS.
Na conversa, Kurata lembra o mês inteiro que o diretor Yoshiaki Kobayashi levou para filmar o primeiro episódio e as cenas em que corria entre explosões de napalm. Ele também conta que só aceitou fazer Black RX depois de pedir um Kotaro mais alegre ao produtor, e que a volta em Decade começou com uma frase dita num evento no museu dedicado a Shotaro Ishinomori.
01O teste
Como surgiu a oportunidade de fazer o teste para "Kamen Rider Black"?
Vi um cartaz que dizia "Grande seleção para o papel principal de Kamen Rider" e pensei: "Quero tentar". Pela idade, eu também sou da geração Kamen Rider, assistia muito quando era criança. Só que, naquela época, eu não imaginava que fosse passar, então fui sem muita pretensão. Mas quando fiquei entre os 50 da seleção final, realizada nos estúdios da Toei, senti uma espécie de pressentimento, algo como "acho que vai ser eu...".
O senhor se lembra de como foi a avaliação?
Eu estava muito nervoso, então não me lembro do que me perguntaram. Fiz tudo com muito empenho, meio sem saber direito o que estava acontecendo. Mas do momento em que chamaram meu nome como vencedor do teste eu me lembro com clareza até hoje. Foi quando disseram: "Vamos anunciar agora". Eu era o "número 27", então, se chamassem o 27, era eu. ...Quando chamaram meu nome, fiquei aliviado (risos).
Mesmo com esse pressentimento, o senhor estava inseguro até a decisão?
Acho que, entre os que chegaram à seleção final, eu era o único amador. Os outros eram todos de escolas de formação de atores ou já tinham experiência como ator. Eu, naquela época, até estava no centro de treinamento da Toei e já tinha recebido o nome artístico "Tetsuo Kurata", mas ainda não tinha feito nenhum estudo de interpretação.
Nessa ocasião, o senhor, como vencedor, e o segundo colocado, Takahito Horiuchi (que viveu Nobuhiko Akizuki, o Shadow Moon), tiraram uma foto comemorativa com o autor da obra original, Shotaro Ishinomori, não é?
Tanto eu quanto o Horiuchi estávamos nervosíssimos, e o professor Ishinomori disse: "Vocês dois, sorriam!". Só então nossas expressões relaxaram (risos).
02O primeiro episódio
Quanto tempo se passou entre a aprovação no teste e o início das filmagens?
Primeiro houve a sessão de fotos e, logo em seguida, entramos nas filmagens. A gravação do episódio 1, dirigida por Yoshiaki Kobayashi, levou cerca de um mês.
É um período de filmagem fora do comum para uma série de TV de 30 minutos.
Acho que a agência deve ter pedido algo como "treinem bem o Kurata". De fato, senti que me ensinaram tudo com calma, desde o começo. Mesmo em cenas que normalmente se resolveriam com alguns closes, fui orientado a atuar de verdade, com o corpo inteiro. Não tinha como não demorar. Sou grato ao diretor Kobayashi.
Na parte de atuação, houve algo a que o diretor pediu atenção especial?
O que ele mais me cobrava era o jeito de andar. "Ande como um herói." Mas eu não sabia que jeito de andar era esse... E também a postura, o jeito de ficar de pé. Uma postura e um andar que fossem bonitos, imponentes. Pesquisei bastante essas duas coisas por conta própria.

O senhor também cantou a música-tema, com letra de Yoko Aki e composição de Ryudo Uzaki.
Fiz umas quatro ou cinco aulas ao mesmo tempo que filmava e gravei nos intervalos das filmagens. Comecei pelos exercícios de voz, mas quando ouvi a fita com a música gravada pensei: "Que música difícil..." (risos). Mas, ouvindo hoje, continuo achando uma boa música. Era uma melodia com um clima completamente diferente das canções de Kamen Rider até então.
03A moto e o napalm
Kamen Rider é sinônimo de moto, e dizem que o senhor já pilotava antes de ser escolhido para o papel principal.
Nas filmagens, o que mais me elogiavam eram as cenas de moto. Eu pilotava desde os 16 anos. Na série, tirando as cenas perigosas, quase sempre sou eu que estou pilotando.

Dizem também que o senhor fazia a maior parte das cenas de ação e das cenas perigosas.
É verdade. Eu até pulava no trampolim. O mais difícil eram as explosões com "napalm". O deslocamento de ar é enorme, e é quente. Isso é algo indispensável nesse tipo de série de herói, e eu passava correndo no meio da explosão. Antes de filmar, jogavam água no meu cabelo para ele não pegar fogo, mas, mesmo assim, correndo entre as explosões, eu sentia o calor no cabelo que deveria estar molhado. Depois do "corta", quando eu ia conferir, as pontas estavam chamuscadas (risos amarelos).
04Kyomoto e o Battle Hopper
Qual foi sua impressão de Masaki Kyomoto, que fez "participação especial como amigo" duas vezes, no episódio 16, "Amigo! Além do mar", e no episódio 30, "Aloha para o assassino!"?
Conversamos muito naquela época. Ele gosta de séries de herói, ou melhor, de tokusatsu (risos). Ele me tratou com muito carinho. Me deu roupas, me convidou para a casa dele... Depois disso, ainda trabalhamos juntos várias vezes.
Na série "Black", há alguma cena que tenha marcado o senhor em especial?
No episódio 7 ("A biomáquina que se regenera"), tem aquela cena em que o Kotaro cuida do Battle Hopper, que tem capacidade de autorregeneração, lembra? Eu tinha que atuar olhando para o Battle Hopper, e não para uma pessoa, e no começo pensei: "Isso vai ser difícil". Mas, conforme fui fazendo, fui criando afeto pelo Battle Hopper e passei a conseguir me envolver emocionalmente com naturalidade. Esse Battle Hopper é muito popular entre os fãs (risos). Acho que o que agrada é essa sensação de que ele não é uma simples moto, e sim algo realmente vivo. Já a outra máquina, o Road Sector, me passava a impressão de ser uma moto difícil de pilotar (risos).

05Ishinomori
"Black" teve dois filmes, e no primeiro, "Rumo urgente à Ilha dos Demônios" (1988), o professor Ishinomori fez uma participação especial.
Me contaram desde o início que o professor ia participar. Nesse sentido, acho que "Black" é mesmo um Rider com uma ligação muito forte com ele. Nos intervalos das filmagens, ouvi muitas histórias dele. O que mais me emocionou foi quando ele me disse: "Kurata, você vai ser o maior herói entre todos os Riders". Mas, na época, talvez eu não tenha entendido bem o peso daquelas palavras. Só mais tarde passei a sentir uma alegria enorme por ter recebido palavras assim do professor Ishinomori, o criador de Kamen Rider. Acredito que ele também deve pensar: "Fiz bem em escolher o Kurata para o papel de Kotaro Minami".
No mesmo filme, "Rumo urgente à Ilha dos Demônios", a música "Ore no Seishun" (Minha juventude), que o senhor canta, foi usada como tema de encerramento. Ali o filme tem uma solução original, quase um videoclipe com a imagem do senhor.
Aquilo foi ideia do professor Ishinomori. Ele disse: "Então vamos fazer o final do filme como um vídeo de imagem do Tetsuo Kurata" (risos). Por isso filmaram a cena em que o Kotaro caminha pela praia cantando.
06Yubari
O segundo filme, "Terror! A mansão dos monstros do Desfiladeiro do Diabo", foi rodado em Yubari, em Hokkaido, e o prefeito da cidade na época, Tetsuji Nakata, também aparece. Que lembranças o senhor guarda desse filme?
Naquela vez a cidade de Yubari colaborou em tudo. O que ficou na memória foi o evento que fizemos no Centro Cívico de Sapporo. A ideia era fazer duas sessões, mas os ingressos esgotaram tão rápido que no fim fizemos três. Também fizemos uma espécie de "Passeio de trem com Kotaro Minami", com um trem fretado. Eram só 100 vagas. Os fãs levaram suas marmitas, pegaram o trem comigo e fomos de Sapporo até Yubari. Esse evento foi muito divertido. Mas eu passei o tempo todo, enquanto deu, assinando cartões de autógrafo, e isso foi puxado (risos).
07Black RX
O que o senhor pensou quando recebeu o convite para continuar em "RX"?
Acho que a conversa veio mais ou menos na época do episódio 40 de "Black". Na verdade, nessa altura eu já tinha recebido o convite para outra série, voltada para o público adulto, e como foi um ano de filmagens realmente pesado, eu queria parar em "Black". Mas me convenceram dizendo: "Não existe ninguém além de você, Kurata" (risos). Eu tinha uma dívida de gratidão com eles por terem me escolhido como protagonista, e como chegaram a dizer aquilo, respondi: "Então vou fazer mais um ano". Só que o personagem Kotaro Minami era muito sombrio, ou melhor, muito pesado. Por isso pedi: "Já que vou continuar, vocês não poderiam fazer dele um personagem mais alegre?". Lembro de ter dito ao produtor: "Quero interpretar um Kotaro Minami alegre, que deixou para trás o passado sombrio e olha para o futuro". É curioso, mas quando o personagem ficou mais leve, até o clima no set ficou mais leve. Como também aumentou o número de atores fixos no elenco, "RX" foi muito divertido de fazer.
08Decade
Pois bem, 20 anos depois do fim de "RX", o senhor faz uma participação especial no filme e na série de TV de "Decade". Pode nos contar como isso aconteceu?
Nos últimos anos participei de alguns eventos ligados a Kamen Rider, e o que senti nesses lugares foi que, mesmo 20 anos depois, a popularidade de "Kamen Rider Black" e do Kotaro Minami não diminuiu, e até hoje um público muito amplo, de crianças a jovens, continua torcendo por nós. Muitos fãs que não assistiram na época, e até fãs de uma geração que nem tinha nascido quando a série passou, vão aos eventos. Os filhos de pessoas que eram fãs antigamente aparecem com cards de "Black" e de "RX", e isso me deixou muito surpreso. Aí, no ano passado, num evento no museu dedicado ao professor Shotaro Ishinomori, acabei soltando: "Quero interpretar o Kotaro Minami 20 anos depois". Os fãs ficaram muito empolgados (risos) e me apoiaram: "Kurata, faça isso de qualquer jeito!". Naquele momento eu não fazia a menor ideia se aquilo poderia se concretizar, mas pensei: "Se a vontade de todo mundo for forte, talvez dê certo". Depois disso, eu mesmo passei a dizer: "Se tiver oportunidade, quero interpretar o Kotaro Minami". E foi nessa hora que veio o convite da Toei.

Pelo que soubemos, primeiro o senhor fez a dublagem do filme, depois gravou suas cenas e, em seguida, as filmagens da série de TV. Como foi voltar a dublar depois de tanto tempo?
O momento de maior nervosismo foi logo no começo, quando o RX chega caminhando e se apresenta. É a fala "Eu sou o filho do sol, Kamen Rider Black RX!". Gravei com o mesmo sentimento de antigamente, mas como vai ficar na obra pronta... eu mesmo estou curioso para ver. Outra coisa que me surpreendeu foi que eu me lembrava bem dos nomes das armas e coisas assim (risos). Por exemplo, a arma do Robo Rider é o "Voltic Shooter", saiu na hora. Isso não estava no roteiro, mas eu lembrei vendo as imagens na sala de dublagem, então disse ao diretor Osamu Kaneda: "Que tal eu colocar um 'Voltic Shooter!' aqui?", e ele aceitou (risos). Também gritei "Revolcane!" depois de muito tempo.
09Kaneda e Okamoto
O diretor Osamu Kaneda, que o senhor acabou de mencionar, era o diretor de ação na época de "Black" e "RX". E Jiro Okamoto, que foi o suit actor dos dois heróis, continua na ativa a todo vapor. Como foi o reencontro com os dois?
Fiquei muito feliz de poder trabalhar com eles de novo em Kamen Rider. O diretor Kaneda já era uma espécie de irmão mais velho naquela época, e me ajudou muito. Com o Jiro também saí para comer várias vezes, e ele sempre diz: "'Black' e 'RX' foram mesmo especiais, né?". O Jiro fazia minhas cenas de ação mais pesadas como dublê do Kotaro Minami, mas acho que só olhando com muita atenção dá para perceber. Na época, quase ninguém notou. Isso porque o Jiro imitava não só o meu penteado, como também o meu jeito de me mexer.
10Aos fãs
Para terminar, deixe uma mensagem para os fãs.
Naquela época, eu me dediquei de corpo e alma a quase 100 episódios no total. Mais do que atuar, seja no olhar de raiva ao enfrentar o mal, seja numa única fala como "Não vou perdoar!", eu me sentia completamente transformado no Kotaro Minami. Desta vez, voltando a participar depois de tanto tempo, foi como se eu voltasse a ser aquele garoto de 19, 20 anos. Acho que esse lado intenso foi o que tocou o coração dos fãs, e talvez seja por isso que o Kotaro Minami continua tendo apoio até hoje. Esta participação também só aconteceu porque os fãs me deram esse empurrão, e pude atuar com o coração pegando fogo. Espero que todos aguardem com expectativa a volta do Kotaro Minami.