Em 2003, quinze anos depois do fim de Kamen Rider Black, a atriz que viveu Katsumi Kida (Satie) voltou ao começo da carreira numa conversa com o Toei Hero Net, o fã-clube oficial da Toei. O Kyoudai Express traduziu a entrevista na íntegra.
Moyu Taguchi nasceu em 31 de julho de 1965, em Shizuoka, e trabalhava como modelo em Tóquio quando mandou, por conta própria, a inscrição para o teste de Kamen Rider Black. Com o nome artístico de Ayumi Taguchi, passou de outubro de 1987 a outubro de 1988 no papel de Katsumi Kida (Satie, na dublagem brasileira), namorada de Nobuhiko Akizuki e uma das duas heroínas da série, ao lado de Akemi Inoue, a Kyoko. No Brasil, a série foi exibida pela Rede Manchete com o título Black Kamen Rider.
Depois de Black, Taguchi seguiu carreira como atriz de televisão, dubladora de animês e filmes estrangeiros, narradora e repórter, e trocou o nome artístico para Moyu Taguchi quando começou a trabalhar como repórter.
A entrevista abaixo foi realizada em 2003 por Takeshi Yoshikawa, do Studio Zimp!, para a seção Regular Hero Hihoukan do Toei Hero Net, dedicada a atores das séries antigas da Toei. O Kyoudai Express resgatou esse raríssimo bate-papo e o traduziu na íntegra. Taguchi conta como se inscreveu no teste escondida da agência, como a equipe dos estúdios de Oizumi a tratava no começo, a lição que recebeu de Susumu Kurobe durante uma cena e por que chama aquele ano de origem do próprio orgulho.
01O teste escondido
Quinze anos atrás, Katsumi Kida trabalhava no café Capitola e vivia com medo da ameaça da Gorgom. Para a conversa, o encontro foi marcado num café elegante no subsolo de uma butique em Ginza, onde pedimos um chá gelado de pêssego.
“Não me façam rir muito, senão aparecem rugas”, disse Taguchi ao chegar, sorridente. Hoje mãe de um menino, ela continua atuando e divide o tempo entre a família e o trabalho. A presença que ilumina a sala é a mesma de quinze anos atrás, e a mulher que fala com entusiasmo sobre o filho deve ser uma novidade para os fãs de Kamen Rider Black.
Você mudou o nome artístico de Ayumi Taguchi para Moyu Taguchi, certo?
Há alguns anos comecei a trabalhar como repórter de televisão e quis começar essa fase com outro ânimo. Também pesou o fato de existir outra pessoa no meio artístico com o mesmo nome, e muita gente nos confundia.
Pode contar como foi o teste de Kamen Rider Black, na época em que você ainda era Ayumi?
Até o Rider eu trabalhava como modelo e era contratada por uma agência de modelos. Mas eu tinha vindo para Tóquio querendo ser atriz, então comprava todo mês a revista Gekkan De-View para procurar testes de atuação. Um dia vi ali o anúncio de Kamen Rider Black. Eu não achava que ia passar, mas resolvi mandar a inscrição para experimentar. Preenchi a ficha e enviei por conta própria.
Sem nenhuma expectativa?
Eu queria saber como era um teste grande. Eu assistia a Kamen Rider, gosto de motos e me interessava por cenas de ação, mas não passava pela minha cabeça que fosse trabalhar ali de verdade. Aí veio o contato, e quem me ligou foi a agência: “Taguchi, você mandou inscrição?”. Eu tinha colocado o nome da agência no perfil, e a produção ligou para eles.
02Heroína sem saber
Isso criou algum problema com a agência?
Nenhum, porque eu já fazia pontas em que o nome nem aparecia nos créditos. Mas como me inscrevi escondida, eles levaram um susto. Quando fui selecionada ainda havia quatro meninas, e eu pensava que, se já tinham me escolhido, ficaria feliz de aparecer em algum episódio, mesmo sem ser do elenco fixo. Aí a agência avisou: “Passou. O nome da personagem é Katsumi Kida”. E eu perguntei: “É vilã?” (risos).
Você não imaginou que fosse a heroína?
“Katsumi Kida” soa como nome de alguém de gênio forte, não soa? Éramos quatro selecionadas, eu era a mais velha e as outras eram todas bonitinhas. Eu achava que não fazia o tipo de papel que grita “kyaaa”. E eu não sabia nada sobre a personagem.
Então ficou satisfeita só por ter sido escolhida?
Isso mesmo (risos).
E quando soube que Katsumi Kida era uma das heroínas e que ficaria no elenco fixo por um ano inteiro, não se assustou?
Fiquei surpresa e muito feliz. Naquela época ainda se filmava em película, e eu, que tinha vindo para Tóquio querendo atuar, sonhava com isso. O clima no set dava medo (risos), mas era divertido, e o ano passou sem pesar.

03A escola do estúdio
Sentiu muita diferença em relação aos trabalhos de modelo?
Quem é modelo trabalha ouvindo “que linda!”, a pessoa se sente bem e rende mais. É o método da equipe. No estúdio de cinema me diziam coisas como “você não faz falta nenhuma aqui”, e eu ficava pasma. De tanto levar pancada, a gente vai se acostumando e, de certa forma, fica mais cara de pau. A equipe de estúdio é bruta, fala grosso e explora todo mundo (risos). Mas, se você for correta, cumprimentar direito e trabalhar com garra, eles acabam te reconhecendo. Sempre.
Eu também não sou de me intimidar. Nunca fui do tipo que leva uma bronca do diretor ou do iluminador, desaba no choro e quer largar tudo. Quanto mais me davam bronca, mais eu pensava “ah, é? então vamos ver”. Com o tempo a equipe foi ficando gentil e começou a perguntar se não estava doendo, porque eu vivia rolando pelo chão. Quando a Akemi Inoue, que fazia a Kyoko Akizuki, era capturada pela Gorgom, ficava presa numa bolha de sabão bonitinha. No meu caso, um monstro disfarçado de motorista de ônibus me atacava de repente, direto no corpo (risos). Mas quando a equipe gritava “você está bem?!”, eu sentia que o esforço tinha valido a pena. Assim fui ficando amiga de todos. O set era duro e divertido ao mesmo tempo (risos). Foi um ano que me fortaleceu por dentro.
Nunca pensou em voltar a ser modelo?
No mundo da moda, mesmo quando você conhece alguém pela primeira vez, cumprimenta com um “oiê!” como se já se conhecessem, e tudo fica resolvido. No set de atuação, mesmo depois de vários encontros, os atores não se cumprimentam com tanta intimidade. Existe a ideia de que as pessoas só falam com familiaridade depois de se conhecerem bem, e isso combinava mais comigo. Só descobri isso depois de ter sido modelo e atriz, mas na época de modelo eu me sentia desconfortável quando alguém que não era meu amigo falava comigo como se fosse. Eu prefiro quem me trata com secura enquanto não temos intimidade e com quem, depois, consigo conversar de verdade. Eu adorava o set, onde eu podia me mostrar e falar de forma direta.
04Os episódios da memória
Quais episódios ficaram na sua memória?
Se for listar os detalhes, são muitos, mas os que mais marcaram foram aqueles em que eu aparecia mais, como “Declaração de Guerra do Amor e da Morte” (episódio 36) e “Lembranças do Céu de Yubari” (episódio 37). No primeiro há uma cena em que o ataque da Bishium quase derruba uma placa sobre uma criança e eu a pego no colo para salvá-la. Justo nesse dia eu estava de saia, e ainda percebi que não havia colchão. Acho que era um plano que não justificava chamar dublê, mas para mim foi uma cena de ação e tanto.
Em “A Armadilha Infernal Sufocante” (episódio 19) havia uma cena em que, se me lembro bem, eu amparava Susumu Kurobe, que fazia o professor Kuromatsu, e precisava fazer cara de espanto. Ele me disse bem baixinho: “Taguchi, esse susto ficou exagerado. Dá para mostrar surpresa só movendo os olhos”. Aquilo me emocionou muito, e guardo como um tesouro.
Como lembrança do conjunto, fica a dublagem. Também trabalho como dubladora e empresto a voz a personagens de animês e filmes estrangeiros, mas dublar a minha própria atuação eu só fiz no Rider. Pela minha idade, eu nem deveria ter conhecido a época da pós-sincronização... Acho que foi por ter passado por isso que depois consegui trabalhar com dublagem.

05Um estúdio da era Showa
Isso era bem característico da Toei daquela época.
É verdade. E, falando do jeito da Toei, acho que sou provavelmente da última geração que conheceu o clima antigo dos estúdios de Oizumi. Em outro trabalho conheci uma pessoa que fazia efeitos sonoros em Oizumi na mesma época, e ficamos amigos só por termos conhecido aquele ambiente. Acho curioso e acho precioso. Ter conhecido o pessoal do cinema, o “eigaya-san”.
E como era esse clima, concretamente?
Hum... Um clima de era Showa, sabe? Nada solar e arejado, até meio úmido, mas cheio de gente calorosa e generosa, rígida e carinhosa ao mesmo tempo. Havia muita gente de jeito bruto que era, no fundo, muito afetuosa. Um técnico com cara de mau, por exemplo, dava comida todo dia aos gatos de rua que viviam no estúdio.
É verdade, antigamente havia muito gato e cachorro circulando por lá. Hoje quase não se vê nenhum nos estúdios.
Era outra época, por inteiro. Foi uma alegria poder entrar um pouquinho nela. Quem viu o estúdio daquele tempo tem uma experiência que quem não viu nunca vai ter.
06O ator é um artesão
Você trabalha como atriz, repórter e dubladora. Fale do seu trabalho atual.
Fui repórter, fiz narração e passei um tempo procurando o que queria fazer. Hoje estou na Kiraboshi, uma produtora só de atores, sem celebridades de variedades.
É uma agência com muitos atores veteranos.
Sim. Ali vi muitos colegas mais velhos que, na minha frente, se transformam no personagem num instante, como quem exibe uma técnica, e pensei que o ator é um artesão. No set, o iluminador é artesão, o câmera é artesão, o técnico de som é artesão. Cada um traz a sua técnica, e juntos eles fazem uma obra. Então passei a pensar que a nós, atores, cabe virar por completo a pessoa que nos pedem, e que esse é o nosso trabalho. Antes eu vivia pensando no que era, afinal, atuar, e entender isso me aliviou.
Houve uma época em que eu desprezava um pouco as dramatizações de programas de TV, mas mudei de ideia. Se chego ao set e me dizem “você é mãe de uma criança da segunda série e outra da quinta”, naquele dia, naquele momento, eu vivo ali como mãe. No dia seguinte, se me pedem para ser a advogada que acompanha um garoto, no mesmo instante eu viro advogada. Isso é divertido demais. Acho que até então eu nunca tinha visto de perto a atuação de gente realmente boa. Talvez eu nem percebesse que estava procurando por mim mesma. Eu queria ser eu o tempo todo e só pensava em como me expressar.
O artesão mostra a técnica, e não a si mesmo.
Exatamente. Mostrar a técnica é o que me dá prazer. E, com a idade, vão deixando de existir papéis que eu não consiga fazer. Ainda tenho muito caminho pela frente, mas hoje enxergo o entorno e consigo fazer muito mais do que antes. Nestes últimos anos, ser atriz ficou realmente interessante.

07A raposa e o Rider
A experiência em Kamen Rider Black já foi útil em algum trabalho?
Há pouco tempo fiz uma dramatização em que eu interpretava uma mulher possuída por um espírito de raposa. Na reunião, o diretor disse algo como “faça mais ou menos assim. Vai dar certo, Taguchi?”. Na hora de gravar, fiz do jeito que fazia no Rider, e ele adorou (risos). As meninas que atuavam comigo ficaram com medo de verdade e, no camarim, me disseram: “Taguchi, você é boa nisso...” (risos). Respondi que era trabalho (risos).
Devo isso ao Rider. Se não tivesse feito a série, acho que eu não conseguiria. Ser estrangulada por monstros e ter o corpo possuído, tudo isso serviu. Eu nunca fui a namoradinha que cuida das feridas perguntando “Kotaro, você está bem?” (risos). Foi um trabalho muito divertido.
08A mãe e os trens
Quantos anos tem seu filho?
Sete. Mostrei as fitas desde pequeno, e com quatro, cinco anos ele começou a entender. Parece que tem orgulho, mas não tem muita noção de que era eu na tela.
Pensa em fazer dele ator?
De jeito nenhum. Mas ele tem interesse por atuação. Diz coisas como “que legal, queria pular de um lugar alto. Mas na verdade isso aqui é pulado de um lugar baixo, né?”. Aí ele fala que queria fazer, e eu respondo que não precisa, não (risos).
O interesse dele é pelo set de filmagem, mais do que pelas histórias?
Isso. Talvez porque às vezes ele me acompanha nos trabalhos.
Então no futuro...
Não, não vai. Ele quer ser maquinista de trem. É otaku, mas de trem. Quando viajo sozinha a trabalho e aparece algum trem que não se vê no dia a dia, aproveito o tempo livre para fotografar para ele.
Pelo filho?
Isso (risos). Nas folgas eu digo “hoje vamos à estação de Ueno”, e a gente fica na frente do trem-leito, junto com os adultos, tirando foto. Quando tem visita a fábrica, eu inscrevo. Anteontem perguntei se ele preferia o Museu dos Transportes ou uma viagem pela linha Keikyu. Ele escolheu a Keikyu, e fomos na primeira fila do Wing.
Quem for a eventos de trem talvez encontre você.
Pode ser. A linha Yamanote renovou os trens e o desenho do vagão da frente mudou, lembra? Quando ainda circulavam poucos, fiquei esperando na estação de Shinagawa. Passaram vários trens e nada. Falei “não veio, né?”, e ele respondeu: “tudo bem, mãe, hoje a gente viu o Odoriko”. Perguntei se ele achava que eu era otaku, e ele disse que sim. Falei que a mamãe não era otaku, e ele: “ué, você não é otaku de trem?”. Talvez eu seja um pouco. Ultimamente chego antes dele para tirar as fotos (risos). Da linha Inokashira fotografei os vagões de todas as cores. Quando fui a Kagawa, fotografei também o trem do Anpanman.
09A origem do orgulho
Você e seu filho assistem aos Kamen Rider recentes?
Desde Black sou amiga do diretor Ryuta Tasaki, que na época era assistente de direção, então dou uma olhada de vez em quando. Os filmes do ano passado e do anterior eu vi com convites que ele me deu e mandei a ele o que achei. Sobre o do ano passado, o de Ryuki, escrevi que achei interessante a ideia de que tudo foi criado por uma menina quando era pequena. Mas evito assistir muito, porque vira hábito. Os Kamen Rider de hoje não parecem feitos para crianças, não é?
São programas para adultos e crianças, que os pais assistem primeiro. Como você com os trens.
(risos)
Para terminar, o que Kamen Rider Black representa para você?
No fim das contas, continuo atuando. Pensando bem... a atuação é o trabalho que consigo seguir sem nunca pensar em largar, como uma vocação. Dizer que Black foi o ponto de partida soa banal, mas se eu não tivesse feito o Rider, talvez tivesse desistido de atuar em algum momento. Cheguei até aqui porque tive aquele ano. Nunca tinha pensado muito nisso... Numa palavra, é a origem do meu orgulho.
Muito obrigado pela entrevista.
E agora começa a conversa de verdade, sem filtro... (risos).
Durante a entrevista, Taguchi chegou a virar a câmera para o repórter e fazer uma entrevista invertida. Contou que andava interessada em shichusuimei, a astrologia chinesa dos quatro pilares, e que aquele era um dia de direção favorável. Além da televisão, ela aparecia com frequência em vídeos institucionais de órgãos públicos.
Numa das fotos da matéria original, Taguchi mostrava uma lembrança que ganhou de Shotaro Ishinomori quando a série terminou, e contou uma descoberta tardia: “No mangá dele, a personagem não se chamava Katsumi. Ele usou o meu nome. Ela se transforma em lobo, alguém grita ‘Ayumiii!’ e ela morre logo em seguida. Na época eu nem sabia disso. Sabia que o mangá estava sendo publicado, mas vivia correndo com as gravações e não tinha tempo para ler.”
