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Capa do registro em vídeo do ROBONATION SUPER LIVE, com o ideograma tamashii em pincel
KYOUDAI EXPRESS / REPORTAGEM · ANIME SONGS
Akasaka Blitz · 17.08.1997 O show que virou Super Robot Spirits
Super Robot Spirits Vol.1

ROBONATION

Em 17 de agosto de 1997, Ichiro Mizuki, Mitsuko Horie, Hironobu Kageyama e MIO dividiram o mesmo palco pela primeira vez, no Akasaka Blitz. Do show de divulgação de um videogame saíram o Super Robot Spirits, o Super Hero Spirits e o JAM Project.

TÓQUIO, AKASAKA BLITZ·ROBONATION SUPER LIVE '97 SUMMER·17 DE AGOSTO DE 1997·POR SILVIO & FLAVIO DÓRIA·16 MIN DE LEITURA

Ichiro Mizuki tinha 49 anos e nenhum contrato de gravadora quando pisou no palco do Akasaka Blitz, em Tóquio, na noite de 17 de agosto de 1997. A banda de 22 músicos atacou a introdução de "Mazinger Z" diante de cerca de 2.000 pessoas de pé, e no fim da música um grito tomou a casa: Aniki, irmão mais velho. O apelido ficou. Mitsuko Horie, Hironobu Kageyama e MIO dividiram com ele as 22 músicas daquela noite, a primeira em que os quatro cantaram no mesmo show.

O show se chamava ROBONATION SUPER LIVE e existia para vender um videogame. A Banpresto lançava Super Robot Taisen F para o Sega Saturn e montou em volta dele uma campanha com disco, comercial e uma noite de música ao vivo. A noite sobreviveu ao jogo. Em 1998 ganhou o nome de Super Robot Spirits e virou evento anual. Em 1999 gerou uma versão para o tokusatsu, o Super Hero Spirits, e em 2000 dois dos cantores daquele palco fundaram o JAM Project. O circuito de shows que hoje sustenta a música de anime no Japão começou a ser desenhado ali.

Os metais

Shocker Ohno assistiu à entrada de Mizuki da lateral do palco, de onde apresentava o show ao lado da dubladora Yuko Miyamura, a voz de Asuka em Evangelion. Ele hoje comanda o Super Sentai Spirits, o show anual de músicas de Super Sentai, e descreveu aquele começo em entrevista ao Kyoudai Express publicada em 19 de setembro.

"Ao ouvir os metais, comecei a chorar espontaneamente na lateral do palco. Ichiro Mizuki entrou sob uma enorme ovação. Quando a música terminou, vieram aplausos intermináveis e gritos de entusiasmo."

Shocker Ohno, apresentador do show, ao Kyoudai Express

Ohno repetiu a confissão ao microfone minutos depois, para a plateia. "Quando vi o pessoal do trompete e do trombone ali do lado, me vieram as lágrimas. Os olhos esquentaram", disse. A banda tinha nome, ROBONATION Super Robot Band, e tinha sido montada meses antes para gravar o disco da campanha. Segundo Ohno, os músicos chegaram ao estúdio dizendo que também tinham crescido ouvindo as melodias de Chumei Watanabe, o compositor de "Mazinger Z". Ele preferiu guardar os nomes: "Se eu falar quem está tocando aqui, vocês vão se espantar".

Mizuki emendou "Sora Tobu Mazinger Z", a música de inserção da série de 1972, e o tema de Combattler V, de 1976, sem sair do lugar. Vestia uma calça comprada para o show que não fechava na cintura, como ele mesmo contaria mais tarde, e que o obrigou a uma dieta até a noite da estreia. Ohno lembrou à casa que Mazinger Z tinha estreado na Fuji TV em dezembro de 1972 e completava 25 anos, e chamou o cantor seguinte como "o príncipe da anison".

Hironobu Kageyama tinha 36 anos e era, desde 1989, a voz de "Cha-La Head-Cha-La", a abertura de Dragon Ball Z. Naquela noite cantou primeiro "Getter Robo!", a abertura de 1974 gravada por Isao Sasaki, e depois o que era dele, "Flying in the Sky", a abertura de G Gundam que gravara três anos antes. Mizuki voltou para o dueto de "Neppuu! Shippuu! Cybuster", a música que os dois tinham dividido no disco da campanha, e o primeiro bloco do show terminou ali.

Mizuki pegou o microfone depois do dueto e tratou de dizer para quem aquilo estava sendo feito. "Hoje tem quatro cantores como principais, e com eles está todo mundo que subiu no palco, a equipe inteira e vocês que vieram", disse. "A gente começou isso para construir junto, então quem veio hoje já é companheiro." Avisou em seguida que o show estava sendo transmitido pela internet para fora do Japão, uma frase pouco comum num palco de 1997. Se o sinal chegava à Itália, brincou, era melhor não arriscar o italiano. Sobre o dueto, contou que os dois tinham dividido os versos no estúdio com o diretor de gravação, e que Kageyama cantou a parte que era dele.

Aniki

Até aquela noite a plateia chamava Mizuki de professor e de mestre, e muitos alunos da escola de canto dele estavam na pista do Akasaka Blitz. Ohno resolveu testar outro tratamento assim que "Mazinger Z" acabou, segundo contou ao Kyoudai Express. "Ichiro Mizuki não é o irmão mais velho de todos nós?", perguntou ao microfone. A casa respondeu, ele puxou o coro, e Mizuki devolveu do palco: "Sou o Aniki, zeeeeetto!".

Os apresentadores voltaram ao assunto no primeiro intervalo, numa conversa sobre até onde as músicas japonesas tinham chegado. Ohno listou as versões de "Mazinger Z" em inglês, em coreano e em dialeto de Tohoku, e Mizuki contou que comprara em Seul uma edição pirata do próprio disco. "As crianças do mundo inteiro ouvem isso, e isso é cultura japonesa", disse Ohno, antes de pedir licença para também chamá-lo de Aniki. Mizuki concedeu e brincou que, vindo de Yuko Miyamura, preferia ouvir onii-chan, o tratamento carinhoso de irmã mais nova.

Mizuki explicou o fenômeno 19 anos depois, em entrevista ao portal The Page. "Eu entrei no palco com Mazinger Z e virou um coro geral. E os fãs estavam gritando Aniki", disse, em 2016. "Por que Aniki? Minha análise é que, quando aparece o cara que cantava as músicas dos desenhos que você ouvia na infância, o público imagina que ele já vai estar velhinho. Só que nem a figura nem a voz tinham mudado."

MIO e Horie

MIO, que hoje assina como MIQ, subiu ao palco com Mizuki pela primeira vez em 15 anos e cantou "Dunbine Tobu" e "Elgaim -Time for L-Gaim-", as aberturas que gravou em 1983 e 1984 para duas séries de Yoshiyuki Tomino. Ohno contou que o primeiro trabalho dele com anime, 13 anos antes, tinha MIO como convidada, e que ela continuava igual. Mitsuko Horie veio em seguida com "Voltes V no Uta", de 1977, e chamou Mizuki para "Cross Fight", o tema de Dangaioh, o único dueto dos dois no setlist.

Os quatro ficaram lado a lado pela primeira vez depois desse dueto, e Ohno repetiu que as imagens estavam saindo para o mundo inteiro. "Vamos espalhar isso pelo mundo e levar a japanimation até o século 21", respondeu Mizuki. Na mesma conversa ele pediu a Kageyama que segurasse as pontas se ele caísse no meio do caminho e ouviu de volta que o show em memória dele estava garantido. Deixou então instruções na frente de todos. "Quando eu morrer, vai ser uma festa de despedida", disse. "Nada de acender incenso. Eu vou ser espalhado no mar."

Horie pediu desculpas à plateia pelo parceiro de 28 anos. Mizuki explicou que falava sem medo ao lado dela porque era ela quem cortava a conversa quando ele passava do ponto. "A Micchi para na hora. Corrigir o rumo é o papel da Micchi", disse. Ele apontou na pista Eizo Sakamoto, vocalista do Animetal, a banda que tocava temas de anime em heavy metal, e pediu ao público que o deixasse assistir em paz. Três anos depois, Sakamoto estaria entre os cinco fundadores do JAM Project.

Chumei Watanabe

Chumei Watanabe entrou no palco a dois dias de completar 72 anos, e a casa o recebeu gritando Chumei-sensei, professor Chumei. Ele tinha escrito "Mazinger Z", "Voltes V no Uta", "Cross Fight" e boa parte do que já tinha sido cantado ali, e a primeira coisa que disse ao microfone foi que o calor da casa passava do que esperava.

O compositor Chumei Watanabe ao microfone, num evento de tokusatsu
Chumei Watanabe, autor de "Mazinger Z" e de "Voltes V no Uta", foi o convidado da noite de 1997 (Reprodução)

Ohno perguntou das gravações de 1972, e Watanabe contou que a abertura de Mazinger Z nasceu de uma recusa. "Primeiro eu compus como tema de abertura aquilo que hoje é a música de inserção, o Z no Theme, e apresentei para todo mundo ouvir", disse. "Todo mundo ficou satisfeito. Só que o diretor de produção da companhia de cinema, um diretor de produção famoso, achou que faltava soco e mandou pôr mais soco. Refizemos tudo do zero, a partir da letra, e foi assim que apareceu o tema de Mazinger Z que existe hoje. Acabou sendo melhor assim."

Na sala de ensaio da Nippon Columbia, segundo o compositor, o trabalho era feito ao piano e em roda. "Eu ia para o piano, tocando e cantando, e o pessoal se juntava em volta para escutar", contou. "Virava uma espécie de sessão de crítica, todo mundo opinando. Naquela época a turma estava em brasa." Mizuki acrescentou que a versão da televisão e a do disco eram gravadas em sessões separadas, e Watanabe explicou que o arranjo já saía do papel preparado para o corte da abertura.

Watanabe tinha levado ao Akasaka Blitz duas músicas terminadas dias antes. Ohno apresentou "Atsuki Chi ga Yuuki ni" como o hino da geração das músicas de anime de robô, "exatamente quem está nesta casa". "Mazinkaiser" era a volta de um tema de Mazinger a um jogo 25 anos depois, agora com letra de Go Nagai, o criador do robô. Mizuki cantou as duas em seguida.

O Pilder

Um Hover Pilder em tamanho real pendia do cenário, a cabine que se acopla à cabeça do Mazinger Z, com assento de piloto e alavancas. Mizuki e Ohno brincaram que era preciso pedir licença a Koji Kabuto, o piloto da série, antes de subir, e a conversa virou plano. "Nesta primeira ROBONATION apareceu o Pilder", disse Mizuki. "Se a gente for repetindo o show, dá para ir descendo o que vem embaixo dele, e isso depende da ajuda de vocês."

A produção tinha sido decidida em cima da hora, contou ele na sequência, e por um tempo ninguém sabia se viria público. O Pilder ficou pronto nesse prazo. Kageyama abriu a segunda metade com "Burning Love", o encerramento de Dancouga, e a cabine desceu sobre a plateia com a hélice girando e o jato aceso. "Aquilo que a gente viu tanto no anime, girando a hélice e soltando o jato, voando de verdade. Valeu a pena estar vivo", disse Ohno.

Ohno pediu em seguida que a casa repetisse o grito do começo da noite, "umas três mil vezes mais alto". "Hoje é para todo mundo ficar sem voz", disse, e contou até três. MIO voltou na reta final com "Mizu no Hoshi e Ai wo Komete", de Zeta Gundam, e "Zankoku na Tenshi no These", de Evangelion, o único sucesso recente do repertório. Mizuki fechou o setlist principal com "Go Shogun Hasshin seyo!", "Bokura no Mazinger Z" e "Ore wa Great Mazinger", esta com Kageyama.

Os quatro voltaram para quatro músicas, e a noite terminou com "Mazinger Z" cantada por todo o elenco, o encerramento que o show repete em todas as edições desde então.

O elenco do ROBONATION SUPER LIVE alinhado no palco do Akasaka Blitz
O elenco reunido com Chumei Watanabe (Reprodução)

Kageyama tratou aquela noite como o ponto de virada dos shows de anison em "Goal wo Bukkowase", a autobiografia que publicou em 2018. Antes, escreveu, os shows eram eventos esporádicos organizados por gravadoras ou programas de TV, com o público sentado e batendo palmas educadamente, mesmo nas músicas agitadas. "Nós mesmos cantávamos nossos repertórios ao vivo como uma banda de rock. Foi praticamente o primeiro live house dedicado apenas a anisong. O formato era standing. Mais de duas mil pessoas cantando juntas. E foi ali que tudo mudou." O público, segundo ele, passou a levantar os braços e a gritar junto com as músicas, e o anisong "finalmente ganhou uma energia semelhante ao rock".

Super Robot Taisen

A Banpresto lançou Super Robot Taisen F para o Sega Saturn em 1997, décimo título da série de estratégia que junta robôs de animes diferentes no mesmo tabuleiro. Em volta do jogo a empresa montou uma campanha batizada de ROBONATION, e o show do Akasaka Blitz era uma das peças dela.

O primeiro produto da campanha foi um disco lançado em maio, com os cantores originais regravando os temas das séries que aparecem no game. O álbum chegou ao 23º lugar da parada da Oricon, a primeira aparição daquele repertório numa lista de vendas em muitos anos. O livro "Aniki Tamashii", sobre a carreira de Mizuki, publicado em 2000, registra que o disco e os shows puxaram um movimento em torno da música de anime de robô.

Mizuki tinha desfeito o contrato de exclusividade com a Nippon Columbia no fim de março daquele ano e estava sem gravadora fixa. O álbum do ROBONATION foi o primeiro que ele lançou como independente.

A campanha deixou ainda duas músicas que não pertencem a série nenhuma. "Atsuki Chi ga Yuuki ni", subtitulada hino da geração dos robôs, é a canção-imagem do jogo, com música de Watanabe e letra dele com o ROBONATION Seinendan, o coletivo da produção. A outra é "Hagane no Tamashii", também de Watanabe, cantada por Mizuki e Kageyama para o comercial de Super Robot Spirits, o jogo de luta que a Banpresto lançou para o Nintendo 64 em 1998. As duas entraram no bis do evento e ficaram no repertório, e o nome do jogo de luta virou o nome do próprio show no ano seguinte.

Tie-up

A canção que dizia o nome do robô, da arma e do golpe tinha saído da televisão japonesa havia mais de dez anos quando os quatro subiram no Akasaka Blitz. Todos os quatro atravessaram esse período com pouco trabalho novo em anime.

Mitsuko Horie explicou a mudança em entrevista ao site CINRA, em 2015. "A partir do fim dos anos 1980, como a anison se firmou como um dos caminhos para emplacar um hit, muita gente diferente entrou na indústria de anime e as chamadas músicas de tie-up foram aumentando", disse. Até meados dos anos 1980, segundo ela, era comum a letra trazer o nome do personagem e dos golpes, o costume que o ROBONATION levou de volta ao palco. O que passou a ocupar as aberturas foi o lançamento da vez de bandas de pop e de rock, quase sempre sem relação com a história animada.

Mizuki gravou o tema de Mazinger Z em 1972 e passou os 25 anos seguintes emendando aberturas de anime e de tokusatsu. "Diziam que era música de gibi, e a gente não conseguia pisar no mesmo ringue que o kayoukyoku", contou em entrevista reproduzida pela Oricon. "Houve um período em que, mesmo vendendo centenas de milhares de cópias, a gente não era chamado para os programas musicais."

"Naquela época eu não imaginava que fosse virar isto. Eu achava que ia fazer uma ou duas músicas e parar de cantar anime. Só que eu cantava para vocês, do outro lado do tubo da televisão, e cantava de coração."

Ichiro Mizuki, no palco do Akasaka Blitz, em 17 de agosto de 1997

Kageyama trabalhou em obras de construção civil até perto dos 30 anos, numa fase em que a renda anual dele com música chegou a 70 mil ienes, e decorou a letra de "Cha-La Head-Cha-La" no trem, a caminho do estúdio, depois de um dia de canteiro. Na autobiografia ele conta que as músicas de anime eram vistas como "músicas para crianças, num nível ainda mais inferior que musicais ou canções infantis". Chamado para cantar num evento no Osaka Dome, achou que pisaria num palco gigante e foi posto na entrada do estádio, ao lado do paddock, cantando para as filas do público. Foi Horie quem resumiu para ele a posição do cantor de anison naquele tempo: "Vocês existem só para aparecer o nome no final do programa". Até o fim do século 20, segundo ele, nem anime song, a forma não abreviada de anison, era termo corrente no Japão.

As músicas continuavam à venda em coletâneas de reedição e apareciam nos jogos de Super Robot Wars em arranjo instrumental, quase sempre sem a voz do intérprete. O ROBONATION pegou esse mesmo repertório, pôs uma banda de 22 pessoas atrás e devolveu a cada música o cantor que a gravou.

1998

O show trocou de nome em 1998 e virou Super Robot Spirits, com turnê por Osaka, Nagoya e Tóquio em junho e uma segunda rodada em setembro. Mizuki e Kageyama ganharam no mesmo ano um programa de rádio na Bunka Hoso. Masaaki Endoh entrou no elenco naquele ano com "Yuusha Ou Tanjou!", a abertura de GaoGaiGar.

A turnê de 1999 passou pela Telepia Hall, em Nagoya, no dia 4 de abril, e pelo Big Cat, em Osaka, no dia 25. Voltou ao Akasaka Blitz no dia 29, com Isao Sasaki como convidado especial. Ele cantou "Uchuu Senkan Yamato", "Makka na Scarf" e "Iza Yuke! Robot Gundan", e no bis Kageyama começou "Getter Robo!" e passou a música ao intérprete original, que a cantou inteira. Aquela noite saiu em CD duplo em julho e em DVD em agosto.

Capa do disco ao vivo gravado no Akasaka Blitz em abril de 1999
O disco da turnê de 1999, gravado no Akasaka Blitz em 29 de abril, com Isao Sasaki como convidado (Reprodução/Bee! Smile)

Sasaki gravou os temas de Yamato em 1974, quando a canção de anime chegava ao público pela televisão. "O que mais sinto é que a própria forma da música de anime mudou em relação à época em que nós cantávamos. Nós cantávamos anison como parte da obra, algo que saía da televisão como abertura ou música de inserção do programa", disse ele ao CINRA, em 2016. "Cantar num lugar grande balançando penlight junto com o público, como é hoje, era algo em que eu nunca tinha nem pensado."

O palco do Shibuya On Air East recebeu em 14 de agosto de 1999, na véspera da edição de verão, o Super Hero Spirits, show só de músicas de tokusatsu. A ideia foi de Ohno, a pedido de Tatsuji Yamagishi, presidente da Birthday Song, a empresa que organiza o Anime Japan Fes. "O Super Hero Spirits fez tanto sucesso que a turnê de outono, com apresentações em Tóquio, Osaka e Nagoya, que normalmente seria do Super Robot Spirits, foi substituída naquele ano pelo Super Hero Spirits", disse Ohno. Foi nessa turnê de novembro que o cantor MoJo entrou para o circuito.

Mizuki completava 30 anos de carreira em 1999 e fechou o ano sozinho, no Kawaguchiko Stella Theater, em Yamanashi. Entre os dias 30 e 31 de agosto cantou mil músicas em 24 horas seguidas, com Ohno na apresentação geral e transmissão nacional pela Fuji TV. O Tokyo Shimbun mandou uma repórter, Mikiko Miyazaki, e a matéria saiu na edição de 2 de setembro. "Aniki. É assim que os fãs de Mizuki o chamam, com reverência", escreveu ela. "Às 20h do dia 30, em meio ao grito grave de Aniki que ressoava na casa para 3.000 pessoas, ele entrou de roupa toda branca ao som de Mazinger Z."

O legado do ROBONATION

O formato que o Akasaka Blitz viu em 1997 virou o padrão das lives de anison: casa de pé, banda ao vivo, cada cantor com as músicas que gravou e "Mazinger Z" no fim, cantada por todos. O Super Robot Spirits repete esse desenho desde 1998, e o Super Hero Spirits levou o mesmo modelo ao tokusatsu em 1999. Kageyama puxa a linha inteira a partir daquele palco: "Foi desse movimento que nasceram conceitos como Anison no Chikara e Anison Damashii e, posteriormente, eventos gigantescos como o Anime Japan Fes e o Animelo Summer Live, que hoje reúne mais de 80 mil pessoas".

Mizuki anunciou a formação do JAM Project em 17 de julho de 2000, no Egg-man, em Shibuya, com Kageyama, Masaaki Endoh, Rica Matsumoto e Eizo Sakamoto. Dois deles tinham cantado no ROBONATION, o terceiro entrara no Super Robot Spirits em 1998 e Sakamoto tinha assistido à noite de 1997 da pista. Kageyama explicou o motivo em entrevista à Animate Times: "Naquela época, foram aumentando os tie-ups em que a gravadora tomava a vaga da anison e enfiava ali o lançamento mais recente de alguma banda, sem nexo nenhum com a obra. Seria ruim se tudo virasse isso, e a gente decidiu fazer um grupo que dissesse isso".

Shunji Inoue, tecladista do LAZY, a banda de hard rock que Kageyama formou na adolescência em Osaka, abriu em 1999 a Lantis, gravadora dedicada a música de anime. Começou com quatro funcionários e 10 milhões de ienes de capital social, parte levantada com o resgate da apólice do seguro de vida dele, como contou ao Nikkei em 2020. Kageyama escreveu que a gravadora nasceu do mesmo medo que o levaria ao JAM Project: "Sentia uma enorme preocupação de que, diante do poder financeiro e de divulgação esmagadores do J-POP, o verdadeiro anisong pudesse acabar desaparecendo. Se quiséssemos que ele sobrevivesse no futuro, nós, que estávamos no centro disso tudo, precisávamos agir". A Lantis virou a maior casa do setor e organizou em 2016, em Los Angeles, o Anisong World Matsuri. Em 2018, a consultoria Pia Research calculou os shows ligados a anime no Japão em cerca de 20 bilhões de ienes, com 1.784 apresentações e 2,65 milhões de espectadores no ano.

O apelido gritado no fim da primeira música acompanhou Mizuki até o fim. Ele virou título de livro, o "Aniki Tamashii" de 2000, e primeira palavra da matéria do Tokyo Shimbun sobre as mil músicas de 1999, e o próprio show passou a citar a origem. "Como desta vez são 15 anos, o efeito de abertura é o áudio do primeiro show", disse Mizuki do palco do Zepp Tokyo em 2012, na 15ª edição do Super Robot Spirits.

O evento que começou como brinde de videogame continua no calendário japonês, com edições anuais na primavera. A última vez que Mizuki cantou com o JAM Project foi em julho de 2021, num evento da franquia Super Robot Wars. O grupo contou isso no comunicado que divulgou quando ele morreu, em dezembro de 2022, aos 74 anos.

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Fontes: Wikipédia japonesa, wiki de setlists de anison, site oficial de Ichiro Mizuki, CDJournal, Tower Records, Kyoudai Express, o livro "Goal wo Bukkowase" (Chuokoron-Shinsha, 2018), Animate Times, The Page, Oricon, CINRA, Pia, Tokyo Shimbun e Nikkei. As falas do palco foram transcritas do registro em vídeo da noite de 17 de agosto de 1997.