Há uma fotografia que não existe, e ela mostraria um rapaz miúdo de Yamagata dormindo encostado na janela de um ônibus de locação, no fim de um dia de filmagem, em algum ponto do começo dos anos 1980. De travesseiro, uma toalha de banho dobrada em quatro, e no rosto dele um sorriso.
Ninguém tirou essa foto, mas quem trabalhou ao lado dele guarda a cena na memória, e ela é o retrato mais fiel de Hirofumi Ishigaki: quarenta anos dentro de trajes que apagavam o corpo por completo, e uma carreira inteira construída em cima desse apagamento.
O público brasileiro o viu dezenas de vezes sem saber. Quem assistiu a Zyuranger, ou a Power Rangers, que é a mesma coisa remontada, viu o Tiger Ranger dar um salto mortal para trás com as duas mãos ocupadas de armas, e era ele lá dentro. Quem acompanhou a saga do Godzilla no cinema viu o Mechagodzilla biomecânico se erguer contra o monstro, e também era ele. E quem admirou a coreografia de uma década de lutas de Super Sentai, do Dekaranger ao Gokaiger, viu o trabalho da mente dele atrás da câmera.
Ishigaki sustenta um gênero inteiro sem nunca ter subido ao pedestal, e a carreira dele é também a história de como o Japão aprendeu a chamar de "suit actor" uma profissão que, quando ele começou, nem nome tinha.
A terra da cereja e uma América que nunca veio
Ishigaki nasceu em 20 de fevereiro de 1963, em Sagae, no centro da província de Yamagata, no norte do Japão, terra de cereja e vizinha de Tendo. Cresceu, pelas próprias palavras, cercado de natureza e sem muito o que fazer além de brincar em rio e montanha, num interior de verdade onde não havia clube esportivo nem treino especializado. Menino, só sabia nadar em rio e afundava na piscina, de modo que, na sexta série, foi posto na turma dos que "não sabiam nadar", para aprender direito, e no mesmo ano acabou escalado como titular no campeonato distrital.
Do ginásio em diante foi titular em toda competição, chegou ao campeonato da província e entrou no colegial por recomendação esportiva, sem prestar vestibular. O perfil profissional dele ainda lista, entre as habilidades, a natação em nível de Inter-High, o campeonato nacional secundarista. Media 1,68 metro, pequeno para os padrões masculinos e na medida certa para a profissão que o esperava.
O plano de vida era outro, porque o tio era animador, a palavra "animador" existia em casa e Ishigaki desenhava bem. Chegou a considerar a carreira, até ver de perto que, na era do desenho feito à mão, uma folha valia poucas centenas de ienes e não dava para viver. Leu mangá sem parar: primeiro os shonen que comprava à noite, como mensageiro do irmão mais velho, na vendinha do interior, depois os shojo, Patalliro e Igano Kabamaru, e foi o mangá de ninja que, segundo ele, o fez achar pela primeira vez que ação era uma coisa divertida. Dessa colcha de retalhos saiu um sonho teimoso: ir para a América.
E a América precisava de dinheiro, de modo que, quando viu no jornal esportivo Sports Nippon um anúncio recrutando stuntmen, a conta que fez na cabeça de adolescente foi simples: stuntman arrisca a vida, logo deve ganhar uma fortuna por salto, e um ou dois anos daquilo pagariam a viagem. Prestou o exame da Japan Action Club, a JAC de Sonny Chiba, sem nenhuma das devoções que moviam os colegas. A JAC era a escada para os Estados Unidos, e ele ia largar em dois anos. Nunca largou.
A peneira de uma semana e o apelido que colou
Ishigaki entrou na JAC em 1981, na décima segunda turma, a mesma dos gêmeos Yuichi e Shoji Hachisuka, que virariam nomes célebres do meio. Era o rescaldo de um fenômeno: a popularidade de Etsuko Shihomi e Hiroyuki Sanada tinha feito as turmas anteriores atraírem milhares de candidatos, e a dele foi menor, umas cinquenta pessoas. O que decidia era o treino, com metade da turma caindo a cada semana: metade, metade, metade, até sobrarem cinco ou seis, e esses iam para os sets.
Sonny Chiba queria transformar os pupilos em atores completos, atores que se movem, e a Toei precisava de gente para encher os programas infantis. A porta pela qual Ishigaki entrou tinha o nome de "stuntman", já que a palavra "suit actor" ainda não existia: eram os "stuntmen", os "action men", os "moços do kigurumi".
O apelido que o acompanharia a vida inteira nasceu num palco. Nos shows ao vivo do teatro ao ar livre do parque de diversões Korakuen, na época de Sun Vulcan, havia um espetáculo de Ano-Novo chamado "Grande Encontro dos Super Heróis". A lógica dramatúrgica era frouxa: se entrava o Ultraman Taro, precisava de um vilão da linhagem Ultra, e escalaram o Alien Icarus, que nem era inimigo do Taro. Foi vestido de Icarus que Ishigaki estreou nesse palco, e de "Ikarus" veio "Ika-taro", depois "Ika-chan", com o apelido colando porque, por um bom tempo, ele foi sinônimo do Korakuen. Quem batizou, conta ele, foi Tsutomu Kitagawa, o mesmo homem que, duas décadas depois, vestiria o traje do próprio Godzilla.
A carreira de Ishigaki nos anos 1980 é um manual de como se constrói um artesão invisível. Ele começou no chão, como soldado raso, fazendo o Madara em Goggle V e os combatentes de Gavan. Antes disso foi "gente-trampolim", o que fica embaixo segurando o colchão para os veteranos que saltam do alto e, no fim do dia, vai embora sem ter entrado num único corte. Foi metade da "dupla do obturador": dois figurantes cruzando o quadro na frente da câmera, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, dando volume e movimento sem lutar.
Nos primeiros anos, os novatos carregavam as cinco máscaras dos heróis, o figurino dos veteranos e até as meias. Calçavam as botas que sobravam de uma caixa dos correios, às vezes um pé 24,5 e o outro 27. A JAC era, nas palavras dele, uma sociedade de castas.
A lição de Yamaoka
A primeira promoção veio em Dynaman, por volta de 1983, quando passou de soldado a monstro da semana, e foi ali que recebeu, do diretor de ação Junji Yamaoka, o homem que ele coloca acima de todos, a lição que carregaria pela vida inteira. Yamaoka repetia:
"O protagonista é o monstro. O único que muda a cada semana é o monstro. Você está no papel principal, faça direito."
Junji Yamaoka, diretor de açãoA outra metade da lição de Yamaoka moldou a personalidade pública dele: quem é de bastidor se dedica ao bastidor, e o dublê se apaga atrás da câmera. Daí vem, dizem os que o conhecem, a discrição de Ishigaki: a fama de não falar, de não aparecer, de ser o eremita do mundo da ação.
Em Bioman, por volta de 1984, passou o ano dentro dos monstros Junoids, no Aquaiger, e quando o personagem morreu na trama herdou a Rainha Juuoh e cobriu o Green Two. Foi também o ano em que dois veteranos o adotaram: Tsutomu Kitagawa, o Blue Three, e Michihiro Takeda, o Pink Five, que anos depois seria o mestre que o ensinaria a dirigir ação. O Blue e a Pink, diz ele, o criaram.
Nos Metal Heroes da mesma época, entre feras gigantes de Juspion e vilões de Metalder, ele deixou um enigma para os colecionadores. O Top Gunder atira com a mão esquerda, mas há cenas em que a arma está na direita, e a explicação é que Ishigaki, destro, assumiu o personagem na metade final da série: do fim para a frente, é tudo ele.
Então, em 1988, o chão virou pedestal. Liveman, a obra comemorativa dos dez anos do Super Sentai, precisava de um herói, e Ishigaki, que já estava no set fazendo monstro, foi o escolhido, quase por eliminação. Sobre a convocação, ele diz:
"Não me preparei psicologicamente para grande coisa. Era fazer. Não tinha mais quem fizesse."
Hirofumi Ishigaki, sobre virar Black BisonO papel era o Black Bison, o primeiro herói dele, e começava ali a corrida mais notável da carreira: sete esquadrões seguidos como herói, de 1988 a 1994. Black Bison, em Liveman, foi papel de guerreiro adicional, e em Turboranger, no ano seguinte, veio o Black Turbo, com Ishigaki escalado como membro titular desde o primeiro episódio. Era um time de sonho: o Red do veterano Kazuo Niibori como líder, Ishigaki no Black, os gêmeos Hachisuka no Blue e na Pink, todos da mesma geração e entrosados. "O set está divertido demais", ele disse a um amigo na época.

Foi nesses anos que nasceu uma lenda de bastidor: Ishigaki, o desenhista, fez uma caricatura de Niibori, o veterano com cara de robô gigante perguntando "vamos comer fígado cru?". O desenho ficou colado na porta de um trailer de equipamento e virou estampa de camiseta do Red Action Club.
Veio o Five Blue, de Fiveman, em 1990, e veio o Yellow Owl, de Jetman, em 1991, trazendo com ele um detalhe de artesão: para reproduzir o corpo rechonchudo do personagem Raita, Ishigaki enfiou isopor sob o traje, no lugar do enchimento habitual, até a silhueta bater. Um colega de elenco, o suit actor Motokuni Nakagawa, o descreveria mais tarde como "o habilidoso Ishigaki-san, que dá conta de qualquer coisa", e diria também que, para o novato que era na época, aqueles veteranos eram "seres acima das nuvens".
Em 1992 veio o papel que o levaria ao outro lado do mundo: o Tiger Ranger, de Zyuranger. Com o passado de atleta, Ishigaki deu ao personagem uma acrobacia fora do comum. Os fãs ainda comentam a abertura em que ele dá um salto mortal para trás com as duas mãos tomadas de armas, e descrevem o guerreiro como um mestre de golpes acrobáticos e movimentos rápidos.
No ano seguinte, em Dairanger, veio o mais trabalhoso de todos: o Kirin Ranger, do estilo suiken, o punho bêbado. Os cinco intérpretes treinaram kung fu por cerca de três meses antes de as gravações começarem. Em 1994, Ishigaki fechou a sequência com o Ninja Yellow, de Kakuranger: sete anos, sete cores, um currículo que poucos suit actors da história podem exibir.
Quando o tigre atravessou o Pacífico
A história mais estranha dessa fase é a do Tiger Ranger. Quando Zyuranger foi vendido aos Estados Unidos e remontado como Mighty Morphin Power Rangers, os produtores americanos aproveitaram as cenas de ação japonesas já filmadas e rodaram novas cenas dramáticas com atores locais, e na versão americana o membro amarelo virou uma personagem feminina, a Trini. O resultado é um milagre de montagem: antes de transformar, uma atriz americana; depois de transformar, o corpo acrobático de um homem miúdo de Yamagata. Ishigaki resume:
"Antes da transformação, atores americanos. Depois, aparece de repente o interior de Saitama."
Hirofumi IshigakiNenhuma reportagem japonesa estampou a frase "o suit actor da Trini era Ishigaki", mas a conta se fecha sozinha: a Trini reaproveita as cenas do Tiger Ranger, e o Tiger Ranger era ele. Os americanos visitaram o set japonês e saíram de lá em choque, sem acreditar no ritmo: pouca luz, quase nenhum ensaio e, na era do filme, sem monitor de vídeo, cento e trinta a cento e cinquenta cortes rodados num único dia. "Como vocês conseguem gravar tão rápido?", perguntavam, e a resposta era a diferença entre o dinheiro sem fim de Hollywood e o talento espremido de três refletores, um ritmo que no set japonês era motivo de orgulho.
Encontrando a voz
Depois de Kakuranger, Ishigaki trocou de trincheira e foi para as "séries de armadura", os Metal Heroes da era B-Fighter, e ali aconteceu uma virada silenciosa na formação dele. No papel do vilão Schwarz, ele fazia o corpo enquanto a voz vinha do dublador Shigeru Chiba, um improvisador incansável. Casar o corpo aos improvisos de Chiba obrigou Ishigaki a estudar, até descobrir que atuar com palavras era divertido.
A descoberta teve consequência prática. Nos shows do Korakuen, os vilões graduados eram dublados por um narrador de fora, e Ishigaki pediu para dizer as próprias falas ao vivo, com microfone de lapela, e decorou o texto inteiro. Na época ninguém fazia isso, e hoje quase todo mundo faz.
Essa fome de atuação levou a um episódio que diz muito do temperamento dele. Ishigaki admirava Junichi Haruta, veterano da JAC que brilhava nos palcos do dramaturgo Kohei Tsuka, e queria aquilo para si, mas quando entrou na lista de um elenco de Tsuka a agência barrou. A resposta foi largar o posto, fazer bico, esperar a hora e, entre 1999 e 2003, pisar de fato nos palcos de Tsuka, porque por baixo do eremita discreto havia um teimoso disposto a queimar pontes.
Godzilla, a despedida escolhida
Em 2002, Ishigaki vestiu o traje mais pesado da vida dele: o 3-shiki Kiryu, o Mechagodzilla biomecânico de Godzilla contra Mechagodzilla, a convite do modelador Shinichi Wakasa. Do outro lado, dentro do próprio Godzilla, estava Tsutomu Kitagawa, o veterano que vinte anos antes o batizara de Ika-taro e o acolhera em Bioman. Dois velhos amigos se enfrentando, um dentro do rei dos monstros, o outro dentro da máquina feita para matá-lo.

Foi uma filmagem brutal, e Ishigaki nunca escondeu isso: contou que o movimento não saía, que caiu do prato giratório, que peças do traje enroscavam nos cabos de aço e voavam. Sincronizar a abertura da boca do Godzilla com o movimento do traje deu tanto trabalho que uma única tomada consumiu cerca de vinte horas.
Aquele foi, de propósito, o último papel dele como intérprete, porque quando aceitou o convite já tinha decidido por dentro migrar para a direção de ação, e o Mechagodzilla foi a despedida escolhida do traje, depois de mais de vinte anos vividos dentro de personagens. Há uma simetria bonita nisso: o homem que aprendeu com Yamaoka que "o protagonista é o monstro" encerrou a carreira de intérprete como o monstro protagonista de um filme de Godzilla.
"Se quer estudar, é só vir estudar aqui"
A transição não foi automática, e Ishigaki faz questão de lembrar que quase ninguém consegue fazê-la. Mais de trinta anos antes, o chefe da agência já avisava os jovens: dali para a frente, ou viram atores, ou viram mestres de esgrima cênica, os diretores de ação, e "só uma pequena parte consegue". No Japão, foi Sonny Chiba quem primeiro se deu o título de diretor de ação, uma espécie de exclusividade da JAC. Mesmo dentro dela, os que chegam lá são poucos.
Ishigaki fez o aprendizado colado em Michihiro Takeda, o mestre dele: carona no ônibus de produção, dia sem folga, só observando, e assinou como assistente nos filmes VS de 2003 e 2004 e em trabalhos de fora como Onmyoji II e Azumi. Queria mais uns anos assim, com calma, mas o chamado veio antes, por indicação de Katsuya Watanabe, e foi um empurrão. Watanabe disse:
"Se quer estudar, é só vir estudar aqui."
Katsuya Watanabe, diretor principal de DekarangerDe Dekaranger, em 2004, saiu um diretor de ação titular, e começa aí uma das sequências mais longas da função em toda a história do Super Sentai: oito séries seguidas, de 2004 a 2012, com Dekaranger, Magiranger, Boukenger, Gekiranger, Go-Onger, Shinkenger, Goseiger e Gokaiger. Depois ele atravessou para o lado dos Kamen Riders e dirigiu a ação de Wizard, Gaim e Drive, de 2012 a 2015, e o último trabalho no posto foi o V-cinema Drive Saga: Kamen Rider Chaser, de 2016.
Como diretor de ação, Ishigaki deixou digitais por toda parte. Em Boukenger, foi por vontade dele que o veterano Yasuhiro Takeuchi voltou ao elenco regular, e, ao ver o colega Yuichi Hachisuka de novo em papéis femininos, comentou que era "um desperdício, sendo ele um onnagata de primeira linha". Em Shinkenger, ajudou a conceber o item que servia de shuriken e de escudo. Em Gokaiger, mandou trocar por computação gráfica o fogo de artifício dos disparos, por questão de orçamento, e fez um designer redesenhar a espada do vilão principal depois de reclamar que "não sabia como usar aquilo".
Foi ele também quem coordenou uma das cenas maiores do gênero: a "guerra das lendas" do filme de 2011, com mais de duzentos suit actors enfileirados na pedreira de Iwafunayama, a meca das explosões do tokusatsu. Era um exército de heróis de todas as épocas, que precisou ser vestido, orientado e movido um a um. O terremoto de 2011 atingiu o Japão durante a filmagem da última cena, a produção parou por semanas e a estreia foi adiada.
A linhagem
Uma carreira como a de Ishigaki só faz sentido dentro de uma linhagem, e ele ocupa um elo dela. No Super Sentai, a cadeira principal de diretor de ação passou de Michihiro Takeda, o mestre dele, para Ishigaki, em Dekaranger (2004), e de Ishigaki para Hiroshi Fukuzawa, em Go-Busters (2012). No lado dos Kamen Riders, ele ocupou por três anos o posto de Tsuyoshi Miyazaki e depois devolveu a cadeira ao antecessor, numa corrente de mestres e discípulos em que cada um se formou no ombro do anterior. Fukuzawa, o sucessor, disse em 2025:
"Quando o Ishigaki-san entrou, nos anos 2000, a luta com sensação de realidade passou a se destacar."
Hiroshi Fukuzawa, seu sucessor, em 2025Na mesma entrevista, já como diretor de ação veterano, Fukuzawa disse que ter podido trabalhar, a partir de Dekaranger, ao lado de "diretores de ação tão notáveis" como Ishigaki "é o que se tornou o meu tesouro hoje". Lembrou ainda que homens como Ishigaki e Takeda, antes de assumirem, tinham passado cerca de um ano aprendendo direção de ação sob a asa de outro. A influência de Ishigaki estava toda ali, sem aparecer nos créditos de abertura.
"Não precisamos de você"
Em maio de 2016, aos 53 anos, Ishigaki saiu da Japan Action Enterprise, a antiga JAC, encerrando um vínculo de trinta e cinco anos. No dia, escreveu aos fãs: "Obrigado pelo apoio por tanto tempo. De agora em diante quero torcer, junto com vocês, por Sentai e por Rider." Só em 2022, num tuíte, ele deixou escapar a ferida por trás da saída. Ele escreveu:
"Deixei o mundo da coreografia de ação depois de ouvir 'não precisamos de você'."
Hirofumi Ishigaki, 2022Ishigaki nunca disse quem falou aquilo, e a leitura de que teria partido da própria agência é uma inferência. A frase ficou pendurada no ar: o homem que sustentou oito anos seguidos de Super Sentai e três de Kamen Rider, dispensado.
Não houve aposentadoria, e Ishigaki virou representante, o diretor-presidente, de uma produtora e agência chamada L4, sediada na cidade de Hanno, em Saitama. A L4 é ligada a uma equipe de ação batizada de LYNX e ao cirurgião e coreógrafo Yasuhiro Kikawa, que dirige uma série ninja de produção própria, e foi por essa porta que ele voltou aos trajes. Em 2022, quase aos 59 anos, Ishigaki reapareceu como suit actor na série Musashi Ninpoden Ninja Reppu, no papel de Kazasaki Haito, atuando e cuidando da esgrima cênica ao mesmo tempo. Sobre a volta, ele disse:
"Foram quatro meses realmente divertidos. Enquanto o corpo se mexer, quero continuar participando das filmagens."
Hirofumi Ishigaki, 2022A série seguiu temporada após temporada, ainda estava no ar em 2026, e a vida recente dele é a de um veterano em atividade tranquila. Aparece em eventos beneficentes da produtora, como a doação de agosto de 2025 às vítimas do terremoto da península de Noto, e reencontra velhos colegas; em julho de 2026 foi citado numa apresentação-surpresa de um show ninja para convidados internacionais. O sonho americano nunca se realizou, e o menino que queria juntar dinheiro para atravessar o Pacífico virou, aos sessenta e poucos, dono da própria companhia numa cidade tranquila de Saitama.
O mestre sem crédito
Há uma injustiça discreta na história de Ishigaki, e ela diz muito do ofício que ele escolheu, porque quando a imprensa japonesa resolve celebrar os grandes suit actors ele quase sempre fica de fora. O livro-reportagem sobre a categoria, "O orgulho dos suit actors", da jornalista Mishio Suzuki, publicado em 2023, entrevistou dezoito veteranos da profissão, e Ishigaki não está entre eles. Estão ali o parceiro de Godzilla, Tsutomu Kitagawa, o colega de turma da JAC, Yuichi Hachisuka, e o sucessor no posto de diretor de ação, Hiroshi Fukuzawa, num retrato em que ele é o elo ausente da genealogia que ajudou a formar.
Parte disso é temperamento, porque Ishigaki é avesso aos holofotes: toda entrevista de peso que deu na vida está em revista ou livro especializado, nenhuma na internet aberta, e ele não mantém blog nem canal, quase não usa as redes. Quando apareceu, em abril de 2018, num programa de web-rádio, o anfitrião brincou que havia quem duvidasse da existência de um "Ishigaki falante", e se dizia que a voz do rádio era de outra pessoa. Poucos dias depois ele faria o primeiro talk show da vida, um "Festival Ishigaki" organizado por Mishio Suzuki num pequeno clube de Shinjuku.
Parte da invisibilidade vem da natureza do trabalho, já que o suit actor que dá certo é o que você não percebe, e o nome do diretor de ação sobe rápido demais para ser lido. Ishigaki passou a juventude carregando cinco máscaras de herói de uma vez para poupar os veteranos e dormindo com uma toalha de travesseiro entre uma tomada e outra, e passou a maturidade ensinando a duzentos heróis enfileirados como se veste um traje, como se enxerga de dentro e como se cai. "Traje não anda sozinho", ele diz.
Reveja a acrobacia do Tiger Ranger, o equilíbrio bêbado do Kirin Ranger, o peso do Mechagodzilla se erguendo, e olhe o realismo de uma década de lutas de Super Sentai: está tudo lá, assinado sem assinatura, pela mesma mão que um dia desenhou, de brincadeira, um herói chamado Black Bison, sem imaginar que passaria a vida inteira onde ninguém podia vê-lo.
As falas citadas aqui saem da conversa que Hirofumi Ishigaki teve com Shocker Ono na web-rádio Bem-vindos à Base Secreta do Shocker Ono, episódio 126, distribuído em 1º de abril de 2018. É a primeira vez que ele senta ao microfone para contar a carreira inteira: Sagae e a natação, o sonho americano que virou JAC, a peneira semanal das turmas, o apelido Ika-taro, os sete anos de herói, o Tiger Ranger que virou Power Rangers, o punho bêbado do Kirin Ranger e o dia em que caiu no tanque dos hipopótamos.
Arquivo 2018 · web-rádio, cerca de 109 minutos · produção da Neko no Shippo · tradução e adaptação do Kyoudai Express
Ler a entrevista →Leia também
Tsutomu Kitagawa: o Godzilla que enfrentou o Mechagodzilla de IshigakiKazuo Niibori, Mr. Red: o líder vermelho de Turboranger ao lado de IshigakiMotokuni Nakagawa, o Mister Pink que chamou Ishigaki de "o habilidoso que dá conta de qualquer coisa"Kyoryu Sentai Zyuranger: o verbete da série que virou Power RangersGosei Sentai Dairanger: o verbete do esquadrão do punho bêbadoDekaranger: o verbete da série em que Ishigaki assumiu a direção de açãoTodos os perfis e entrevistas da Seção Suit ActorsHirofumi Ishigaki 石垣広文 (n. 1963). Perfil apurado em agosto de 2026 em fontes japonesas, com as falas traduzidas do japonês. Parte das declarações vem de entrevistas impressas citadas em segunda mão. A identificação dele como o corpo por trás da Yellow Ranger de Power Rangers é uma dedução.