O suit actor Tsutomu Kitagawa, de 68 anos, vestiu o Godzilla em cinco dos seis filmes da era Millennium, de Godzilla 2000 (1999) a Godzilla: Final Wars (2004), depois de duas décadas dentro dos trajes do Super Sentai. Nascido em Kudamatsu, na província de Yamaguchi, em 21 de dezembro de 1957, ele mede 1,61 m e entrou no Japan Action Club em 1975 ouvindo que um homem daquele tamanho nunca seria herói. Dos três homens que vestiram o Godzilla por mais de um filme, é o único ainda em atividade.
Em fevereiro de 2018, dias depois da pior nevasca de Tóquio em 48 anos, Kitagawa levou três horas e meia para voltar de trem de uma filmagem em Takadanobaba e contou o episódio, sem heroísmo, ao programa de rádio de Shocker Ono. O homem espremido na Linha Yamanote, segurando a alça do vagão, era o corpo mais visto do cinema japonês da geração dele, e ninguém no vagão sabia disso.
Um filho dele resolveu o problema do reconhecimento quando a Toei reuniu centenas de heróis num filme gravado no frio do monte Iwafune. O menino viu uma imagem promocional na televisão, apontou para uma figura mascarada no meio da multidão e disse que era o pai. Sabia que ele tinha sido o NinjaBlack 20 anos antes, ignorava aquela filmagem e o identificou pela silhueta e pelo jeito de andar.
A caixa de areia
Kitagawa nasceu em 1957 em Kudamatsu, cidade industrial de Yamaguchi, estudou nas escolas primária e ginasial da cidade e queria ser Ultraman. A escola não tinha clube de ginástica, e ele se matriculou no atletismo para ter acesso à caixa de areia do salto em distância, onde treinava mortais sozinho e arrastava colegas para o mesmo uso do equipamento. A ideia tinha vindo da televisão, dos Four Leaves, grupo idol cujos mortais de palco mostraram a uma geração de meninos japoneses que o corpo podia ser espetáculo.
No colégio Sakuragaoka, escola forte em ginástica para onde o pai o empurrou, ele chegou ao Inter-High, o campeonato nacional colegial. O treino tinha seis aparelhos, reduziu dezenas de calouros a dois em uma semana e o obrigava a dormir nas aulas depois do almoço de udon. Seis meses depois ele se olhou no espelho e não reconheceu o próprio tronco.
O sonho olímpico acabou por dinheiro, com uma frase do professor de educação física: ginástica não dá dinheiro. Seis universidades o queriam, e ele decidiu não pesar no orçamento dos pais e transformar acrobacia em salário. O treinador, veterano de Sonny Chiba na universidade de educação física, mostrou ao aluno uma folha com os clubes de ação do país e o indicou ao Japan Action Club, o JAC de Chiba, sem audição. Em 2016, na convenção Power Morphicon, na Califórnia, ele contou que amigos o odiaram por isso.
Kitagawa escolheu o JAC porque lembrava de uma foto de revista com as palavras "Action Club", provavelmente ligada ao herói Barom-1. Ele mesmo diz que foi um acaso: tivesse visto na infância uma foto dos atores altos da Toho que faziam Ultraman, talvez tentasse o outro caminho. Em Pasadena, em 2016, ele repetiu o que diz em todo evento: entrou no ramo para ser o Ultraman, era baixo demais, e pede desculpas ao senhor Godzilla por ter querido mais o outro.
O JAC
A chegada ao JAC, em janeiro de 1975, foi de má vontade, porque só Chiba sabia da vinda dele e os demais o mediram como quem pergunta quem é você. O veredito veio logo, dito a um adolescente de 18 anos: o JAC não faz Ultraman, e um baixinho como ele nunca seria protagonista. Kitagawa entrou como aluno da sexta turma e passou o ano inteiro treinando toda noite sem receber um único trabalho.
No treino de quedas, os novatos pulavam de três metros, e o ginasta premiado dava a volta na fila e voltava para o fim, torcendo para o exercício acabar antes da vez dele. O menino tímido não conseguia soltar a voz nos exercícios e descobriu que era mais fácil gritar "morra!", porque o insulto sai junto com a energia do golpe. Hoje ele ensina calouros envergonhados e diz que entende cada um deles.
O primeiro papel foi um soldado de Akumaizer 3 (1975), que apanhava, levava tiro e voava pelo cenário, e ele ainda faz a pose e o grito do personagem no palco. Em abril de 2024, num evento da fabricante de brinquedos Marusan em Tóquio, ele contou o que aquele dia representou:
"O JAC é muito rigoroso. Passei um ano treinando toda noite para me mostrar, e só então ganhei o trabalho. Mas era tão duro e tão assustador que pensei em largar tudo no primeiro dia e voltar para casa."
Kitagawa, no evento da Marusan, abril de 2024Na primeira grande locação, subindo a montanha com os tapetes nas costas, um veterano deixou a arma cenográfica cair no barranco, olhou para ele e ficou calado, e Kitagawa desceu para buscá-la. O ensino da casa cabia numa frase que ele repete até hoje, aprenda a cair de um jeito que não doa, e fratura, na época, não era motivo para faltar ao trabalho.
O que ele diz sobre risco, espalhado por 40 anos de entrevistas, parece o raciocínio de um engenheiro. Quem já saltou com segurança de 50 metros pode aceitar 30, quem só testou 20 não tem o direito de tentar 30, e nada se executa só porque nunca aconteceu um acidente antes. Em O Pássaro de Fogo, de Kon Ichikawa (1978), o combinado era atravessar uma árvore em chamas, e no set mandaram que ele ficasse lá dentro, envolto em algodão molhado, enquanto o adereço derretia.
Ele tem também uma teoria sobre altura: até uns 25 metros sempre existe o risco de alguém mandar o dublê saltar, e a 50 metros ninguém manda, de modo que o alto pode ser mais confortável que o médio. Foi por essa lógica que os cinco Maskmen posaram na borda de um arranha-céu de Shinjuku, sem grade, sob o vento de um helicóptero, e ele não achou o plano assustador, porque não havia salto previsto. Em 2019, em Raleigh, nos Estados Unidos, ele resumiu o que mais gosta no ofício: fazer o que a maioria das pessoas não consegue, como saltar de um prédio de dez andares, e ouvir que aquilo só o Kitagawa faria.
Miss America
O primeiro papel fixo de herói, em Battle Fever J (1979), foi a heroína Miss America, nas cenas de trampolim que a atriz Risa Komaki não fazia. Ele usava meia-calça mais grossa e já tinha dublado atrizes antes, mas o traje era cavado e ele acumulava a função de substituto do Battle Kenya de Kenji Ohba. Em 2024 ele resumiu a situação: "A roupa era cavada, e eu ficava com vergonha de usar. Mas a gente tem que viver".
Uma novata chamada Eiko Onodera assumiu a Miss America no meio da série, melhorou depressa e liberou Kitagawa para o Kenya. Os dois se casaram em 1985, quando ela tinha 23 anos, e ela deixou o JAC por causa das regras internas da empresa. Em entrevista à revista Toei Hero MAX, em 2004, Onodera disse que começou a pensar em casamento por volta de Denziman (1980), quando ele substituía o Denzi Blue de Ohba.
Ohba corrigia até a posição dos dedos nas poses, e Kitagawa dobrava também Junichi Haruta, o outro grande nome da casa, em Goggle Five (1982) e Dynaman (1983), quando a agenda dos dois não fechava. Ele diz que se formou entre os dois estilos, o de Ohba, preciso como uma máquina, e o de Haruta, um animal selvagem, e que a base dele é o triângulo Ohba, Haruta e kung fu. A postura agachada dos personagens dele vem do Battle Kenya, e Ohba o provocava com uma frase que ele repete até hoje:
"Ninguém consegue me imitar. Supere-me, e quando me superar, eu supero você de novo."
Kenji Ohba, o mestreOhba frequentava a casa dele, Kitagawa o chamava de veterano favorito numa conversa com fãs americanos em 2021, e Ohba morreu em maio de 2026, aos 72 anos. Em Goggle Five, o salto simultâneo dos cinco heróis tem Kitagawa dentro do Goggle Black, e nos shows do parque Korakuen ele foi Denzi Blue em 1980 e Dyna Black em 1983.

Blue Three
O primeiro papel titular veio em Choudenshi Bioman (1984), como o Blue Three, nome que em japonês se pronuncia como Bruce Lee. Na última cena do episódio 1 ele rompeu um ligamento, e a produção passou a filmar o personagem pendurado em cabos com mais frequência. Noutra luta da mesma série ele quebrou dois dedos, prendeu os dois com fita, vestiu a luva por cima e terminou a cena, por medo de ser substituído:
"Blue Three era meu papel, e eu queria ser também aquele que executava sua ação."
Kitagawa, sobre lutar com dois dedos quebradosMichiko Makino, a Pink Five de Bioman, escreveu no blog dela em 2018 que Kitagawa, na época, era magro, tinha jeito de artesão e parecia difícil de abordar, mas ensinava com paciência quando ela travava numa cena de ação. Ele conta que chegou a Changeman (1985), como o Change Pegasus, ainda se recuperando da perna, e por isso fez questão de executar cada explosão e cada golpe da série.
Depois vieram os papéis que o Brasil das tardes da Manchete conhece sem saber: o Blue Flash de Flashman (1986) e o Blue Mask de Maskman (1987). Na década seguinte ele foi o ninja Ryokuryu (Dragão Verde) de Jiraiya (1988), o ShishiRanger de Dairanger (1993) e o NinjaBlack de Kakuranger (1994), cujas lutas entraram na terceira temporada de Power Rangers. O vermelho pertencia a outra casta, e Kitagawa ficou com o posto do especialista.
Kane Kosugi, o Jiraiya de Kakuranger, lembrou em 2017, ao site Vantage Point, que o homem dentro do NinjaBlack era o mesmo que depois vestiria o Godzilla. No livro Suit Actor no Kyoji, da jornalista Mishio Suzuki (2023), Kitagawa diz que procura conversar com os atores que fazem o personagem antes da transformação, mas que a diferença de altura para gente como Kosugi, Shiro Izumi e Tatsuya Nomi o incomoda.
O kung fu
Issei Hirota, o ator que interpretava o Akira de Maskman antes da transformação, ensinou a Kitagawa os primeiros movimentos de kung fu, e ele nunca mais parou de treinar. Em Jiraiya, o Dragão Verde de Kitagawa enfrentou o ninja de lança feito pelo próprio Hirota, um duelo de mestre e aluno. Em Dairanger, o diretor de ação Michihiro Takeda pediu que ele adaptasse as coreografias ao estilo chinês, e Kitagawa criou a pose de apresentação do ShishiRanger e orientou os colegas. É o papel em que, segundo ele, mais pôde se expressar, e também o que ele considera o mais difícil da carreira no Sentai.
Vinte anos depois de Maskman, a Toei o contratou como instrutor de artes marciais chinesas de Juken Sentai Gekiranger (2007), série inteira construída sobre kung fu, e ainda o escalou como Bat Li, um dos sete mestres da série. Ele também ensinou luta chinesa na novela Saiyuki (Fuji TV, 2006) e no drama Tempest (NHK, 2011), e hoje dá aula de kung fu no departamento de formação do Japan Action Enterprise, o JAE em que o JAC se transformou.
O produtor de jogos Masaharu Inoue contou ao site Gpara, em 2006, que o JAC indicou Kitagawa para a captura de movimentos de Tenchu (1998) e que a força e a explosão dele não combinavam com o tamanho. Kitagawa diz que conseguiu esses trabalhos porque dominava o Hakkyokuken, estilo chinês de golpes curtos que os estúdios não achavam em outros atores. Ele fez o mesmo trabalho em Tenchu 2, gravado em Okinawa, Bushido Blade, Dead or Alive 2 e Dynasty Warriors. Inoue lembrou também que ele bebe até de manhã e aparece inteiro no trabalho no dia seguinte.
O bastão
Nos shows do Korakuen, Kitagawa vestiu do Yellow Lion de Liveman (1988) ao Hurricane Yellow (2002), e em 1995 fazia o OhBlue de Ohranger com um bastão. Num dos shows, o bastão bateu no palco e voou para fora do cenário, e ele mudou na hora para uma luta de mãos vazias, usando os dois braços como se ainda segurasse a arma. O comediante Shiihashi Justaway, que frequentava o teatro por causa dele, contou o caso em 2020 ao site Futaman: "Foi um combate tão perfeito que pensei que o bastão cair fazia parte da encenação. Foi o momento em que vi o que é um profissional".
O macarrão
A virada da carreira veio de um comercial de macarrão instantâneo, o anúncio do Wang Fu Mian, da House Foods, estrelado pela cantora Fei Fei Ouyang, em que Kitagawa fazia um Kung Fu Man à Bruce Lee que levava um tombo de desenho animado, o corpo tombando ereto, com as pernas suspensas no ar por um instante. A camiseta amarela que ele usa por baixo dos trajes até hoje vem dessa época de imitações de Bruce Lee.
Shinichi Wakasa, o escultor dos monstros da Toho, guardou a imagem daquele comercial. Para Mothra 3 (1998), o diretor de efeitos Kenji Suzuki procurava um ator baixo capaz de correr e saltar dentro de um King Ghidorah "jovem", do período Cretáceo. Wakasa deu o nome do homem do macarrão, e Kitagawa aceitou porque, nas palavras dele, seria uma lembrança para a vida toda, já que desde criança considerava o Ghidorah o rei dos monstros.
O traje de Ghidorah pesava cerca de 200 quilos e precisava de 20 pessoas para se mover. Dez puxavam a estrutura pendurada no teto de um estúdio de 60 metros, um operava o guincho, dois moviam as asas e três cuidavam dos pescoços. Kitagawa só controlava as pernas, enxergava por dois furos e coordenava o tempo das cabeças com o do corpo para que o monstro parecesse vivo, e em 2024 descreveu assim o primeiro dia:
"A impressão foi de inferno. Pesado, sufocante, sem enxergar nada. Achei que ia morrer e pensei em desistir. Um técnico teve pena de mim e me ensinou a usar um aparelho de respiração, e assim aguentei."
Kitagawa, sobre o King Ghidorah de Mothra 3, evento da Marusan, 2024No ano seguinte o telefone tocou de novo, com Suzuki e Wakasa na linha, pedindo ajuda outra vez, agora para o Godzilla. Kitagawa conta que ficou em choque, pensou se aquilo era mesmo algo que ele podia fazer e pediu tempo para responder. Godzilla, ele explica, é um símbolo do Japão, e não se veste um símbolo do Japão sem pedir um tempo. Nas notas de produção que a TriStar distribuiu no lançamento americano de Godzilla 2000, em 2000, ele disse que o telefonema do diretor Takao Okawara lhe deu arrepios, porque os Godzillas anteriores tinham sido grandes dublês e ele era pequeno. A pressão tinha outro motivo, que ele contou em Los Angeles em 2023: o Godzilla americano de 1998 tinha sido mal recebido, e a Toho queria um Godzilla novo para responder.
Os dez metros
O molde do corpo, feito com gesso que endurece aos poucos sobre a pele, deu a Kitagawa uma sensação de claustrofobia que ele jurou nunca mais repetir, segundo o livro Godzilla Zokei Shashinshu (2017). Na primeira prova do traje de Godzilla 2000 ele não conseguiu respirar, e andar dez metros o esgotava. O traje pesava cerca de 70 quilos, levou dez dias para ser tolerado, e vinte anos de técnica de dublê, nas palavras dele, não serviram para nada. Nas notas da TriStar ele descreveu as barbatanas dorsais como duas pessoas carregadas nas costas e contou que a equipe passou um tubo de ar pelos pés do traje, retirado a cada tomada.
Nos primeiros dias ele imitou o andar de Kenpachiro Satsuma, o Godzilla da série anterior, até Suzuki pedir um Godzilla novo, e foi rompendo com a imagem antiga aos poucos. Ele conta que tinha lido uma entrevista em que Satsuma dizia que o Godzilla nunca deveria mostrar a sola dos pés ao andar, e quis testar na câmera o contrário. O jeito certo de caminhar ele só encontrou três dias antes do fim das filmagens. O pescoço era a parte mais difícil: enquanto não se acostumou, virar a cabeça fazia a força escapar para as mãos e entortava os dedos. O dedo mínimo, sem apoio dentro da luva, obrigava a repetir cenas.
A pedido dele, Wakasa ligou a cabeça do monstro à cabeça do ator, para que o Godzilla olhasse para onde Kitagawa olhava. Nas cenas de ação, por segurança, a cabeça passou a se apoiar direto no capacete. Wakasa disse que o Godzilla ficou pronto no dia em que Kitagawa vestiu o traje. Um dia de Super Sentai começava às 6h e rendia de 100 a 120 tomadas, e um dia de Godzilla ia das 9h às 21h e rendia cinco, às vezes sete. Ele diz que a primeira vez em que virou o pescoço e viu o Godzilla olhar por cima do ombro, em vez de girar o tronco inteiro, o comoveu, e que levou cerca de cinco anos para a cabeça se mover como ele queria.
Kitagawa perdia de três a cinco quilos por dia dentro do traje, bebia cerveja ao chegar em casa até dormir e chegou a uma tese de atuação: observar animais selvagens, nos quais a cabeça se move primeiro e o corpo vem depois. Ele visitava zoológicos na preparação e evitou copiar Haruo Nakajima e Satsuma, porque aquele não seria o Godzilla dele. O raio atômico ganhou um gesto do kung fu, a cabeça virada de lado para acumular força antes de voltar de frente e cuspir. Dentro do traje só há um homem, mas a boca e a cabeça são controladas por rádio e a cauda por um terceiro operador, e o gesto só funciona se os três respiram juntos. O Godzilla dele, resume, ataca porque é atacado, e a tristeza do personagem é o que mais o interessa.
A piscina
As cenas de mar são feitas numa piscina de cerca de 90 centímetros de profundidade, com o ator preso a uma plataforma de tela de arame que um guindaste levanta. Em Godzilla 2000, o bocal do tanque de oxigênio saiu da boca dele durante a subida, os pés estavam fixos e o traje tinha absorvido água. Ele conta que foi o maior medo daquela filmagem e que, se o traje tomba dentro d'água, a única saída é esperar parado a equipe chegar. Em 2024, quando o apresentador puxou o assunto, ele pediu para não insistir:
"Uma vez o regulador soltou e eu pensei: acho que vou morrer. Mas quando conto isso as crianças ficam com medo, e eu quero que as crianças que estão aqui hoje continuem meu trabalho e vistam o Godzilla um dia. Por isso prefiro não falar."
Kitagawa, evento da Marusan, abril de 2024Em Raleigh, em 2019, ele contou que o traje levava de 30 a 40 cápsulas de vidro com explosivo por cena, que os estilhaços entravam nas luvas e que ele saía de algumas cenas com as mãos ensanguentadas, protegido apenas por óculos por baixo da máscara. Em Godzilla vs. Megaguirus (2000), uma carga nas costas explodiu com chama de verdade no espaço entre o corpo dele e o traje, e a equipe correu enquanto ele girava sem entender, e ele pediu à plateia que não risse.
A via expressa
A primeira cena de destruição de Kitagawa foi a queda sobre a via expressa Shuto, em Godzilla 2000. A miniatura tinha um trecho de cerca de dois metros preparado para quebrar. Ele caiu um pouco fora do trecho, a estrutura só fez barulho, e a filmagem em alta velocidade não perdoa esse tipo de erro. Levou 15 minutos para sair do traje e, quando saiu, as luzes do set já estavam apagadas e não havia ninguém, até um técnico de efeitos dizer que aquilo acontecia o tempo todo, uma frase que, segundo ele, quase o fez chorar.
Segundo o livro Godzilla Kyo Jidai, do desenhista Shinji Nishikawa (1999), ele chegou a ter dor de barriga de nervoso antes das cenas de destruição. O motivo está na rotina do estúdio: a equipe de arte leva cerca de uma hora para reparar cada prédio depois que os pirotécnicos o cortam e enchem de pólvora, e uma cena de 13 segundos consome cerca de quatro horas. Um episódio de Sentai mobiliza uns 30 técnicos, e uma única tomada de Godzilla, uns 100. Um cenógrafo disse a ele que esperava ansioso vê-lo destruir tudo com capricho, e Kitagawa voltou para o camarim sem saber o que responder, e para se distrair nas esperas começou a esculpir Godzillas com esponja.
Durante Tokyo SOS (2003), com orientação de Wakasa e material da oficina, ele fez uma cabeça de Godzilla em tamanho grande, e no ano seguinte uma Mothra, peças que estão na casa dele há cerca de 20 anos. Em 2024, o presidente da Marusan, Eiji Kaminaga, perguntou no palco se ele aceitaria esculpir o protótipo de um boneco de vinil, e ele respondeu que faria com prazer.
Do meu jeito
Em Godzilla vs. Megaguirus (2000), com um traje abaixo de 50 quilos, Kitagawa decidiu "fazer do meu jeito" e acelerou o monstro, com exceção do ataque a Tóquio que abre o filme, uma recriação gesto a gesto do andar de 1954. Quis descer quase aos quatro apoios, como um animal, e ouviu de Suzuki que era demais. Na corrida em Odaiba, os pés do traje enroscavam no chão, e ele pulou só com os tornozelos; a câmera em alta velocidade fez o resto.
A filmagem em alta velocidade roda de três a seis vezes o normal, e o ator precisa se mover de forma exagerada e rápida para que o monstro pareça lento e pesado na tela. Kitagawa lembra de erguer o pé devagar para pisar um tanque, no começo, e ouvir do set: "Pisa logo, seu desgraçado!", numa tomada que ficou lenta demais e foi descartada. Para o salto sobre a Megaguirus, a equipe pôs dentro do traje um boneco moldado no corpo dele, apelidado de Kitagawa-kun, o mesmo "substituto" que entra em qualquer cena de queda do teto.
Ao fim de Megaguirus, Kitagawa quis largar o Godzilla, de tão duro que era o trabalho. Num talk show pelos 60 anos do personagem, em Nakano, em outubro de 2014, ao lado de Nakajima e Satsuma, ele contou que os fãs brigaram com ele e que ficou. Quando decidiu parar de novo, depois dos dois filmes do Kiryu, o diretor de efeitos Eiichi Asada ligou perguntando se ele não queria dirigir a ação do filme seguinte "e, de quebra, fazer o Godzilla também", segundo o relato de um fã no blog J.J. Yama no Daikaiju Soshingeki Nisshi.
Kiryu
Em Godzilla x Mechagodzilla (2002), o traje novo saiu na faixa dos 40 quilos, construído sobre o corpo dele, tão justo que os assistentes de direção precisavam puxar os braços para ele conseguir vestir. Ele diz que a mobilidade melhorou muito, mas que os pés continuaram sem obedecer. O diretor de efeitos Yuichi Kikuchi queria o peso da série anterior, e Kitagawa conta que nas lutas ficou desesperado demais para pensar nisso.
Kitagawa entendeu que o Godzilla via no Kiryu, o robô construído sobre os ossos do Godzilla de 1954, um irmão, e no primeiro encontro quis esperar o adversário com os braços baixados, sem ameaça, e Kikuchi vetou. No filme pronto, ele acha que a cena ficou curta e que o Godzilla parece fugir. Kikuchi escreveu depois que deveria ter deixado as mãos atuarem mais, e os braços curtos do traje não alcançavam a cabeça do robô, e o Kiryu, de braços longos, batia onde queria. No mesmo filme, Kitagawa aparece de rosto como tripulante de um dos veículos militares do filme, o Maser, ao lado de Hirofumi Ishigaki, o homem dentro do Kiryu.
Em Tokyo SOS, o assistente de direção Toshifumi Shimizu instalou um rádio dentro do traje, e pela primeira vez as instruções chegavam em meio ao barulho da pólvora. Na cena em que o Kiryu o arremessa, o plano era usar um boneco. Asada achou que um boneco daria um Godzilla morto, testou a segurança dos cabos e mandou içar o traje com Kitagawa dentro, e foi o mesmo Asada que pediu o andar pesado de Satsuma e ouviu de Kitagawa que não.
Final Wars
Em Final Wars (2004), o diretor Ryuhei Kitamura pediu um Godzilla de luta livre, com a Terra como ringue, e Kitagawa, Asada e Wakasa concordaram. Kitamura contou ao site Kaiju United, em 2024, que Kitagawa disse na primeira reunião que sempre quis fazer aquilo, mas que o traje mal deixava andar. Wakasa pôs Kitagawa no traje de Tokyo SOS para um teste de câmera e viu que os golpes eram impossíveis. Construiu então o primeiro traje da franquia moldado ao redor do ator, com um manequim do corpo dele como núcleo, ombros na mesma altura dos ombros de Kitagawa e dedos que chegam até a ponta das luvas, e Kitagawa recebeu crédito de consultor de ação.
Aquele Godzilla fecha o punho e soca, em vez de bater com a palma como todos os anteriores, e Kitagawa diz que a mão doía, porque o traje protegia tão pouco quanto a pele. Numa cena contra o Monster X, com a câmera girando, ele imitou de propósito uma pose de Kamen Rider. As cenas mais difíceis foram o arremesso do Kaiser Ghidorah, que Kitamura mudou de um golpe de judô para um lançamento lateral, e a sequência em que o Godzilla gira a aranha Kumonga pelo fio. A última cena, o Godzilla caminhando para o mar, é a de que ele mais gosta, pelo movimento de cabeça, ombros e tronco. Ele conta que a essa altura já dizia a Asada tudo o que pensava, sem cerimônia.
O Japão se dividiu, e o próprio Kitamura estima que 60% a 70% do público odiou aquele Godzilla lutador. Vinte anos, um relançamento em 4K e uma reavaliação depois, um espectador deixou no site Eiga.com a crítica que resume a fase: parece um filme do Bruce Lee em versão Godzilla.

O CG
Godzilla: King of the Monsters (2019) foi o filme que, segundo ele, o derrotou. O Godzilla americano em computação gráfica respira longamente antes de cuspir o raio, com música e tempo de tela. Ele diz que nunca teve aquela imagem dentro de si, porque o Godzilla que conhecia desde criança disparava o raio de imediato. Já em 2014, no talk show de Nakano, ele tinha dito que o Godzilla americano daquele ano tinha cara de tartaruga, lembrava o Gamera, e que, por mais que os suit actors se esforçassem, não venceriam a expressão facial do computador. A conclusão dele foi que, por isso mesmo, não queria perder para os americanos nos detalhes, e no evento de 2024 ele emendou um desafio:
"Quando vejo o Godzilla em CG, ele atua do jeito que eu queria ter atuado, e isso me deixa muito feliz. Mas já que agora ele pode se mover, que atuem além da imagem que existia até hoje."
Kitagawa, evento da Marusan, Tóquio, abril de 2024Ele aceitaria fazer captura de movimento, a técnica em que sensores gravam os gestos do ator para mover um personagem digital, e já a fez para os robôs gigantes do Sentai, entre eles o Kyoryuzin Kung Fu de Kyoryuger (2013). Sobre Shin Godzilla (2016), ele disse aos fãs americanos em 2021 que aquilo podia ter sido feito com traje, porque ele mesmo teria conseguido, e que gostou mais dos filmes da Legendary. A ressalva dele é sobre quem faz: se os cenógrafos que constroem prédios de miniatura desaparecerem, não haverá quem ensine ao computador como um prédio cai, e ele pediu aos fãs que digam isso em voz alta.
O nome
Durante décadas os créditos de televisão escreveram o ideograma de "Tsutomu" errado, e ele descreve o choque de ver o próprio nome trocado na tela. Pensou em adotar um pseudônimo ainda na fase Godzilla, e vetaram com o argumento de que o intérprete de um símbolo do Japão devia ter nome japonês. O trocadilho que hoje ele assina, 喜多川2tom, "dois Toms", foi sugestão do colega Kazutoshi Yokoyama e serve também aos fãs americanos, para quem "Tom" é pronunciável. Metade da internet ocidental segue grafando 北川勤, um nome que não é dele.
Desde então ele acumulou pontas de rosto na Toei: o guarda de Kamen Rider Wizard (2012), um dos monstros Roimude de Drive (2014), o Su-san de Kikai Sentai Zenkaiger (2021), presente em dez episódios, e o prefeito da aldeia de Kamen Rider Gotchard (2024). Em Cutie Honey THE LIVE (2007) fez o peixeiro Sakunosuke Tanaka, que bebia cerveja o episódio inteiro até a cena de luta calar a equipe, e o Su-san de Zenkaiger, um bêbado bom de kung fu, nasceu desse personagem, escrito por um conhecido para ele. Quando falta gente, ainda veste soldado em Ninninger e Zyuohger, e diz que trabalhar com os jovens é bom, mas que lamenta fazê-los se preocupar com ele.
No teatro, ele fez o Kintaro Oyama de Atami Satsujin Jiken (2022), dirigido por Haruta, e o Tsutomu de Kamata Koshinkyoku Kanketsuhen (2023 a 2025), dirigido por Kazukiyo Nishikiori e estrelado por Haruta, com temporada em Kaohsiung, em Taiwan, em outubro de 2025. Em 2006, a Canon o pôs de novo dentro de um Godzilla para um comercial, e em 2009 ele treinou o suit actor de Gehara, o monstro de cabelo comprido. Fora do trabalho, toca a guitarra elétrica que comprou por dez mil ienes e aprendeu depois dos 55, decorando mais de 50 músicas pelos marcadores do braço do instrumento, e desenha: nos autógrafos, o Godzilla sai de caneta em segundos.
Kudamatsu
Em 15 de fevereiro de 2018, o Naked Loft, em Shinjuku, recebeu o Kitagawa Matsuri, noite da série 340 Presents da jornalista Mishio Suzuki dedicada a ele. Segundo o relato de Shocker Ono, que estava na plateia, Kitagawa fechou a noite com a sequência de poses de apresentação de Miss America, Blue Three, Change Pegasus, Blue Flash, Blue Mask, ShishiRanger e NinjaBlack, ao som das músicas de fundo das cenas originais, e terminou com o andar do Godzilla. Tocou guitarra elétrica em dueto com Yoshinori Okamoto, o vilão Buba de Changeman, e Makino escreveu que a dupla tinha nível alto.
Em 26 de maio de 2019, Kitagawa voltou a Kudamatsu para um talk show gratuito no centro comercial Youme Town, segundo o jornal Shunan Keizai Shimbun. O evento veio com uma exposição de 31 cartazes de Godzilla, de 1954 a Shin Godzilla, e o organizador, Hironobu Ohashi, disse que era a primeira volta dele à cidade em 15 anos. Kitagawa viaja todo ano aos Estados Unidos para convenções, onde dividiu a mesa com Nakajima e Satsuma, os dois Godzillas anteriores, mortos em 2017 e 2023. Num G-Fest, evento de Godzilla em Chicago, os fãs preferiram aprender a pose do ShishiRanger, e ele deu a aula na área de fumantes do hotel, entre latas de cerveja.
Em Raleigh, em 2019, um fã perguntou o que ele espera do personagem, e a resposta foi que o Godzilla é eterno e que a pergunta a fazer é o uso que os humanos vão dar a ele. Em 2021 ele disse aos fãs que gostaria de ver o Japão produzir uma série nova, como a americana, porque sem filmes os ofícios do estúdio desaparecem, e que os colegas do Super Sentai fazem o que podem para que o trabalho de traje não vire só computador. Ele treina esses colegas no JAE, onde entrou como aluno da sexta turma há 51 anos.
O mar
A cena de Final Wars de que ele mais gosta é a última, em que o Godzilla dá as costas à cidade e caminha para o mar. Ele explica o motivo pelo movimento de cabeça, ombros e tronco, o que pediu a Wakasa em 1999 e levou cinco anos e cinco trajes para conseguir. Aos 46 anos, dentro de um traje construído pela primeira vez ao redor do corpo dele, Kitagawa virou o pescoço, e o Godzilla olhou por cima do ombro antes de entrar na água.
As falas citadas aqui saem da conversa que Tsutomu Kitagawa teve com Shocker Ono no programa de rádio Bem-vindo à Base Secreta de Shocker Ono!!, em fevereiro de 2018. Ele chegou ao estúdio dias depois da pior nevasca de Tóquio em 48 anos e contou a carreira inteira: a caixa de areia de Kudamatsu, o treino de quedas do JAC, o Kung Fu Man do macarrão e o telefonema da Toho que ele precisou pensar antes de aceitar.
Arquivo 2018 · programa de cerca de 1h21 · tradução e adaptação do Kyoudai Express
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