Na segunda-feira da pior onda de frio de Tóquio em 48 anos, em fevereiro de 2018, um homem de 60 anos tinha chamada marcada para as duas da tarde em Takadanobaba, e pensou em ir de carro até que a mulher, que conhece o ofício por dentro, disse que aquilo viraria nevasca, e ele foi de trem. O trabalho acabou às sete da noite, com a Linha Yamanote mal andando e Shibuya intransitável, e a viagem de uma hora levou três e meia. Dias depois, num programa de rádio, ele contou o episódio sem heroísmo nenhum: quando a filmagem é cancelada por causa da neve, dá até alívio, e o problema é quando não é cancelada e é preciso ir mesmo assim.
O homem espremido naquele trem foi o Godzilla, titular de cinco dos seis filmes da era Millennium (1999–2004), a última vez em que o monstro mais famoso do cinema teve pulso, suor e um ser humano lá dentro. A cena diz o lugar que o Japão reservou a Tsutomu Kitagawa, hoje com 68 anos: o corpo mais importante da cultura pop japonesa da geração dele volta para casa em pé, segurando na alça do vagão, sem que ninguém o reconheça.
Reconhecê-lo, aliás, é o teste que interessa, porque não existe critério pronto para avaliar a obra de um ator cujo rosto quase nunca apareceu. A resposta veio do júri mais insuspeito possível: quando a Toei reuniu centenas de heróis num filme-celebração gravado no frio do monte Iwafune, o filho de Kitagawa viu uma imagem promocional na televisão, apontou para uma figura mascarada no meio da multidão e disse: é você. Era.
O menino sabia que o pai tinha sido o NinjaBlack vinte anos antes, mas não sabia daquela filmagem, e identificou o pai pela silhueta e pelo jeito de se mover, como se reconhece uma caligrafia. Autoria, no tokusatsu, é isso: aquilo que sobrevive à máscara. Pelo critério mais exigente que existe, o olhar de uma criança, Kitagawa é um autor, e este texto é a revisão da obra dele.
A caixa de areia
Tudo começa numa caixa de areia, em Kudamatsu, cidade industrial de Yamaguchi onde Kitagawa nasceu em 1957. O ginásio da escola não tinha clube de ginástica, e o menino que queria ser Ultraman se matriculou no atletismo para chegar ao salto em distância, ou melhor, à areia onde se aterrissa, e foi ali que ele treinava mortais sozinho e arrastava colegas e veteranos para um uso do equipamento que a educação física japonesa não tinha previsto. A fagulha veio da televisão, dos Four Leaves, o grupo idol cujos mortais de palco mostraram a uma geração de meninos japoneses que o corpo podia ser espetáculo.
No colégio, empurrado pelo pai para uma escola forte em ginástica, ele conheceu o outro lado do encanto: seis aparelhos, dezenas de calouros reduzidos a dois em uma semana, almoço de udon seguido de sono nas aulas, a vitamina de banana, ovo e carne que a mãe batia no liquidificador. Seis meses depois, ele se olhou no espelho e não reconheceu o próprio tronco, e essa é a primeira das muitas vezes, nesta carreira, em que o corpo muda antes de a pessoa entender.
O sonho olímpico morreu por causa de dinheiro, com uma frase de professor que hoje soa brutal: ginástica não dá dinheiro. Seis universidades o queriam, e foi então que ele fez outra conta, a de quem não queria pesar no orçamento dos pais, e decidiu transformar acrobacia em salário.
O destino, aqui, teve a forma de uma fotografia. O treinador, colega de Sonny Chiba na universidade de educação física, mostrou ao garoto uma folha com os clubes de ação do país. Kitagawa escolheu o Japan Action Club porque lembrava de uma foto de revista, provavelmente da Boken O, ligada ao herói Barom-1, com as palavras "Action Club". Ele mesmo admite a contingência: tivesse visto na infância uma foto dos atores altos da Toho que faziam Ultraman, talvez tentasse o outro caminho, e assim uma imagem impressa decidiu para que lado da história do tokusatsu aquele corpo iria.
A escola da queda
A recepção no JAC, em janeiro de 1975, foi de má vontade, porque só Chiba sabia da chegada dele e os demais o mediram como quem pergunta "quem é você?". E logo veio o veredito que organizaria as duas décadas seguintes, dito a um adolescente de 18 anos: o JAC não faz Ultraman, e um baixinho como você nunca será protagonista.
O relato que ele faz desses anos de formação funciona como um documentário da base da pirâmide do entretenimento japonês. No treino de quedas, os novatos pulavam de três metros, e Kitagawa, ginasta premiado, dava a volta na fila e voltava para o fim, torcendo para o exercício acabar antes da vez dele. O menino tímido não conseguia soltar a voz nos exercícios e descobriu que era mais fácil gritar "morra!", porque o insulto sai junto com a energia do golpe, e hoje ele ensina calouros envergonhados e entende cada um deles.
Passou o ano inteiro treinando toda noite sem receber um único trabalho, até aprender que era preciso ser o primeiro a se enfiar na janela do carro do coordenador. Na primeira grande locação, subindo a montanha com os tapetes nas costas, um veterano deixou a arma cenográfica cair no barranco, olhou para ele e ficou calado. Kitagawa desceu para buscá-la, e a pedagogia da casa cabia numa frase:
"Se dói, aprenda a cair de um jeito que não doa."
A pedagogia do JAC, 1975O que se aprende numa escola dessas, além de cair? A resposta de Kitagawa, espalhada por quarenta anos de entrevistas, parece uma ética. Ele fala de risco como um engenheiro: quem já saltou com segurança de cinquenta metros pode aceitar trinta, quem só testou vinte não tem o direito de tentar trinta, e nada se executa porque nunca aconteceu um acidente antes. Ele defende a recusa como ato de coragem profissional, e fala com conhecimento de causa.
Em O Pássaro de Fogo, de Kon Ichikawa (1978), o combinado era atravessar uma árvore em chamas, e no set mandaram que ele ficasse lá dentro, envolto em algodão molhado, enquanto o adereço derretia. Noutra produção, uma reconstituição de um suicídio no metrô, ele ateou fogo ao próprio corpo e o responsável pelo extintor congelou, achando que aquele "apague, apague" era atuação.
Há também o teorema da altura, que ele formula sozinho: até uns 25 metros, sempre existe o risco de alguém mandar o dublê saltar, e a 50 sabe-se que ninguém mandará, de modo que o alto pode ser psicologicamente mais confortável que o médio. Foi por essa lógica que os cinco Maskmen posaram na borda de um arranha-céu de Shinjuku, sem grade, sob o vento de um helicóptero, e ele não achou o plano assustador, porque não havia salto previsto. Se o vento empurrasse, bastava dar um passo para trás.

O melhor segundo homem do formato
Os anos 80 fizeram dele o melhor segundo homem do formato. Por dois anos substituiu o Denzi Blue de Kenji Oba e aprendeu com um mestre que corrigia até a posição dos dedos nas poses, e Oba o desafiava assim:
"Ninguém consegue me imitar. Supere-me, e quando me superar, eu supero você de novo."
Kenji Oba, o mestreKitagawa dublou heroínas nas cenas perigosas, entre elas a Miss America de Battle Fever J, personagem que dividiu com uma jovem suit actress chamada Eiko Onodera, com quem se casou em 1985, um casal que se conheceu dentro da mesma roupa.
Depois vieram as titularidades que o Brasil das tardes da Manchete conhece sem saber: o Blue Three de Bioman (nome que em japonês se pronuncia "Bruce Lee"), o Pégasus de Changeman, o Bun de Flashman, o Akira de Maskman, e adiante o ninja chinês de Jiraiya, o ShishiRanger verde de Dairanger, que ele considera o papel em que mais pôde se expressar, e o NinjaBlack de Kakuranger, cujas lutas atravessaram o Pacífico dentro da terceira temporada de Power Rangers. O vermelho pertencia a outra casta, e Kitagawa ficou com o posto de especialista, o que faz o que o protagonista não faz.
Um detalhe de Bioman mostra como ele tratava esse posto: com dois dedos quebrados apontando para o lado errado, prendeu os dois com fita, vestiu a luva por cima e terminou a luta. A explicação que deu décadas depois fala de medo de substituição:
"Blue Three era meu papel, e eu queria ser também aquele que executava sua ação."
Kitagawa, sobre lutar com dois dedos quebradosEsse é o terror do suit actor: o personagem é seu enquanto o corpo aguentar.

O homem do macarrão
A virada da carreira veio de um comercial de macarrão instantâneo. No anúncio do Wang Fu Mian, da House Foods, estrelado pela cantora Fei Fei Ouyang, Kitagawa fazia um "Kung Fu Man" à Bruce Lee que levava um tombo de física de desenho animado, o corpo tombando ereto, as pernas suspensas no ar por um instante. Era a síntese involuntária de tudo o que ele sabia: precisão de ginasta, timing de comediante, kung fu de verdade a serviço do ridículo. Buster Keaton teria entendido na hora.
Quem entendeu foi Shinichi Wakasa, o escultor dos monstros da Toho. Wakasa guardou aquela imagem na memória por anos e, quando o diretor de efeitos Kenji Suzuki precisou de um King Ghidorah "jovem", do período Cretáceo, capaz de correr, foi atrás do telefone do homem do macarrão. O Ghidorah tradicional pesava uns 200 quilos e dependia de cabos, e Kitagawa aceitou fazer Mothra 3 pelo motivo mais direto do repertório dele: era o rei dos monstros, seria uma lembrança para a vida toda.
No ano seguinte, o telefone tocou de novo: podemos pedir sua ajuda outra vez? Claro, qual é o personagem? Godzilla.
Ele conta que ficou em choque, que pensou "é mesmo algo que eu posso fazer?" e que pediu tempo para pensar, e é a única hesitação registrada em meio século de carreira, uma hesitação que honra o personagem. Godzilla, ele explica, é um símbolo do Japão, e não se veste um símbolo do Japão sem pedir um tempo.
70 quilos e cinco cortes por dia
O que ele fez com o símbolo, entre 1999 e 2004, é a parte da obra que o tempo vem tratando melhor. O aprendizado foi humilhante nos termos que ele mesmo escolheu contar: o traje de Godzilla 2000 pesava cerca de 70 quilos, andar dez metros o esgotava, vinte anos de técnica de dublê "não serviram para absolutamente nada", e o jeito certo de caminhar ele só encontrou três dias antes do fim das filmagens. Um dia de Super Sentai rendia cem cortes, e um dia de Godzilla rendia cinco. Ele perdia de três a cinco quilos de suor por jornada e chegou a uma tese de atuação: observar animais selvagens, nos quais a cabeça se move primeiro e o corpo vem depois.
O Godzilla de Kitagawa ataca porque é atacado, e a partir do segundo filme, contra a Megaguirus, ele decidiu "fazer do meu jeito" e destravou a velocidade. Quis descer aos quatro apoios como um animal de verdade e ouviu do diretor de efeitos que era demais. Pagou os preços do ofício, inclusive o pior deles: numa cena de tanque, o tubo de oxigênio se soltou enquanto o guindaste o baixava, ele gritou que não conseguia respirar e continuaram a empurrá-lo para dentro d'água. Sobre esse dia ele resumiu que nunca mais queria fazer aquilo.
A era terminou em Final Wars, o filme-testamento de 2004, com o primeiro traje da história da franquia construído ao redor do ator, alimentado com dados que ele preparou "como um piloto de Fórmula 1", e com Kitagawa creditado também como consultor de ação. O Japão se dividiu. O próprio diretor Ryuhei Kitamura estima que 60% a 70% do público odiou aquele Godzilla lutador. Vinte anos, um relançamento em 4K e uma reavaliação depois, um espectador japonês anônimo deixou no Eiga.com a crítica que fecha a biografia do homem lá dentro: parece um filme do Bruce Lee em versão Godzilla.

O veredito da era digital
Aqui está o veredito que a era digital cobra: o Godzilla de Kitagawa trocou o peso litúrgico pela prontidão de um organismo, e essa troca tem custo real. Quem sente falta do passo de chumbo está sentindo falta de algo que existe, e a celebração do Godzilla grave de Mansai Nomura em Shin Godzilla mostrou quantos sentem. Reduzir a era Millennium a "leveza demais" erra o autor, porque foi Kitagawa quem abriu Megaguirus recriando, gesto a gesto, o andar de 1954. Foi ele quem vestiu o Godzilla original no prólogo de 2002. Ninguém alterou a tradição sabendo tão exatamente o que estava alterando.
A história lhe deu a razão mais irônica disponível: os Godzillas digitais de hoje fazem, sem limite de articulação, o cinema físico que ele propunha com 70 quilos nas costas. Num evento em Tóquio, em 2024, ele comentou o assunto e emendou um desafio de velho mestre:
"Quando vejo o Godzilla em CG, ele atua do jeito que eu queria ter atuado, e isso me deixa muito feliz. Mas já que agora ele pode se mover, que atuem além da imagem que existia até hoje."
Kitagawa, em evento em Tóquio, 2024O nome errado
Resta o caso do nome, quase uma fábula sobre essa profissão. Durante décadas, os créditos de televisão escreveram o kanji de "Tsutomu" errado, e ele conta o que aquilo era: um choque profissional, ver o próprio nome trocado na tela. Pensou em adotar um pseudônimo ainda na fase Godzilla, e vetaram com o argumento de que o intérprete de um símbolo do Japão devia ter nome japonês. O trocadilho que hoje ele assina, 喜多川2tom, "dois Toms", foi sugestão do colega Kazutoshi Yokoyama e serve também aos fãs americanos, para quem "Tom" é pronunciável. Enquanto isso, metade da internet ocidental segue grafando 北川勤, um nome que não é dele.
O homem cujo corpo um filho reconhece à distância, no meio de uma multidão de heróis, é o mesmo cujo nome o mundo nunca acertou.
O essencial, o corpo já contou
Ele continua em atividade, o último dos três grandes Godzillas de traje ainda de pé, fazendo pontas de rosto em série de domingo e aparecendo em eventos com a guitarra elétrica que comprou por dez mil ienes e aprendeu a tocar depois dos 55, no camarim. No palco ele não lê partitura, decora as músicas, mais de cinquenta, e localiza as posições pelos marcadores do braço do instrumento. É o mesmo método de sempre: quando não dá para ler, o corpo memoriza. Na despedida da entrevista de 2018, ele avisou:
"Ainda tenho muitas histórias que não consegui contar."
Kitagawa, na despedida da entrevista de 2018Que conte todas, porque sobre o essencial ele não precisa se preocupar. O essencial, o corpo já contou.
As falas citadas aqui saem da conversa que Tsutomu Kitagawa teve com Shocker Ono no programa de rádio Bem-vindo à Base Secreta de Shocker Ono!!, em fevereiro de 2018. Ele chegou ao estúdio dias depois da pior nevasca de Tóquio em 48 anos e contou a carreira inteira: a caixa de areia de Kudamatsu, o treino de quedas do JAC, o Kung Fu Man do macarrão e o telefonema da Toho que ele precisou pensar antes de aceitar.
Arquivo 2018 · programa de cerca de 1h21 · tradução e adaptação do Kyoudai Express
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