A Pink Racer de Gekisou Sentai Carranger
KYOUDAI EXPRESS / COLUNA · PERFIL
Motokuni Nakagawa · n. 1971 Mister Pink · Suit Actor
中川素州 · スーツアクター列伝

O Senhor
Pink

O homem que foi cinco heroínas. Da dieta que fez a Pink Racer ao tiranossauro que só ele sabia mover, a história de "Mister Pink" é a de um ofício que só funciona quando ninguém percebe que existe alguém ali dentro.

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HIGASHIMURAYAMA, 1971·JAC · 17ª TURMA·PINK RACER → BOUKEN PINK·CINCO HEROÍNAS COR-DE-ROSA

No outono de 1995, numa cafeteria, um dublê de 24 anos, acima do peso e especializado em monstros, ouviu do diretor de ação Junji Yamaoka: "Ano que vem, você vai fazer a Pink."

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Motokuni Nakagawa pesava mais de dez quilos além da conta e passava os dias suando dentro dos monstros-máquina de "Chouriki Sentai Ohranger". O primeiro pensamento dele, contaria anos depois no próprio blog, foi este: "Uma Pink interpretada por alguém como eu? Ninguém vai querer ver isso." Veio então a dieta, com corrida diária e álcool cortado, cinco quilos perdidos em duas semanas e doze ao todo, até o dia em que urinou vermelho-vivo e teve de aprender às pressas o que era hematúria de esforço. Na prova de figurino da Pink Racer, a figurinista olhou para ele e perguntou:

"Você... é a Pink mesmo? Isso é corpo de Black!"

A figurinista, na prova de figurino da Pink Racer
Nakagawa nos bastidores do episódio 23 de Ohranger, ao lado de Ayumi Asou
Bastidores do episódio 23 de "Ohranger" (1995), "O último maiô…": Nakagawa, então dublê de monstros, ao lado da atriz Ayumi Asou, a Juri Nijou / OhYellow, ex-garota-propaganda de maiôs da Asahi Kasei.

Em março de 1996, quando "Gekisou Sentai Carranger" estreou, ninguém diante da TV soube de nada disso: na tela havia a Pink Racer, valente, atrapalhada, "travessa e pretty", como escreveria um fã anos mais tarde, e dentro dela, invisível por contrato e por vocação, estava ele.

Nos dez anos seguintes, Nakagawa vestiu cinco guerreiras cor-de-rosa: Pink Racer, Ginga Pink, Go Pink, Time Pink e, num último chamado, Bouken Pink. Fora do Japão o nome dele ainda circula como "Motoo", um equívoco de leitura dos ideogramas de Motokuni, enquanto os fãs japoneses o consagraram com o título que o web-rádio do apresentador Shocker O-no oficializou em 2011: "Mister Pink", ou, entre os mais rigorosos, "o Mister Pink da era Heisei".

O ofício que o Japão chama de suit actor tem uma regra própria, a de que quanto melhor executado, menos se percebe que existe alguém ali, e Nakagawa levou isso ao extremo, fazendo carreira ao desaparecer duas vezes, dentro do traje e dentro de uma arte que já é invisível por definição.

Primeiro Ato
A Linhagem Cor-de-Rosa

Onnagata: uma tradição emprestada do kabuki

A tradição que ele herdou tem nome emprestado do kabuki: onnagata, o especialista em papéis femininos. Nos primeiros anos dos esquadrões coloridos, ainda nos anos 1970, houve mulheres dentro das heroínas, e foram os capacetes desproporcionais e a exigência acrobática que acabaram empurrando os papéis para homens miúdos e treinados. A imprensa japonesa registra o caso fundador de Michihiro Takeda, o Denji Pink de 1980, que frequentava bares noturnos para estudar os gestos das atendentes. Depois dele veio Yuichi Hachisuka, que emendou sete heroínas seguidas entre os anos 80 e o início dos 90 e virou sinônimo da especialidade.

Foi diante dele que tudo começou para Nakagawa: em 1989, no segundo ano de treinamento, escalado como figurante de soldado raso em "Turboranger", o garoto viu de perto a Pink Turbo de Hachisuka e saiu de lá convertido. Ele lembra:

"A fofura, a beleza, a elegância... existe alguém capaz de fazer isso? Um homem, interpretando a Pink Turbo... Hachisuka é um gênio."

Motokuni Nakagawa, sobre a revelação de 1989

Anos depois, quando criou a pose de apresentação da própria Pink Racer, ele a desenhou a partir da pose da Pink Turbo, numa reverência de discípulo escondida à vista de todos.

O garoto de Higashimurayama

Nakagawa nasceu em 21 de agosto de 1971 em Higashimurayama, na periferia oeste de Tóquio, e tem 1,67 metro, medida pequena para os padrões masculinos e exata para uma heroína. Entrou ainda adolescente para a 17ª turma do JAC, o Japan Action Club fundado por Sonny Chiba. A estreia veio no teatro ao ar livre do parque de diversões Korakuen, na temporada de outono de "Liveman", em 1988: nos dias úteis ia à escola, nos domingos e feriados apanhava de heróis. O batismo se completou no ano seguinte, com um cotovelo deslocado e uma clavícula quebrada, e ele foi levado ao hospital ainda vestido de soldado do mal, onde a enfermeira o tomou por "dançarino".

O acaso foi deixando pistas. Em "Fiveman" (1990), ele lembra de ter vestido várias vezes a guerreira rosa de um esquadrão falso chamado, veja só, "Gingaman", oito anos antes de vestir a Ginga Pink verdadeira. O primeiro kaiju que interpretou, o Professor Telefone de "Dairanger" (1993), era, nas palavras dele, "um monstro inteiramente cor-de-rosa".

"Quando visto o figurino, o sentimento entra"

Takeda estudava mulheres em bares noturnos, e o método de Nakagawa coube a vida inteira numa frase, dita a um livro oficial em 1999: "Quando visto o figurino, o sentimento entra." O resto era técnica de relojoeiro: conferir a própria silhueta refletida na lente da câmera, corrigir o ângulo da máscara e o pendor do pescoço, "até o último segundo". O efeito confundia quem trabalhava ao lado, e nas enciclopédias de fãs sobrevivem o espanto de Shinji Kasahara, ator de "Timeranger", ao ver um homem sair do traje da Time Pink, e o veredicto de Mika Katsumura, a atriz da personagem: ele era "mais feminino do que eu".

A Pink Racer de Gekisou Sentai Carranger em pose de vitória
A Pink Racer de "Gekisou Sentai Carranger" (1996), valente, atrapalhada, "travessa e pretty", e dentro dela, doze quilos mais leve, Motokuni Nakagawa.

Pinks completamente diferentes

Nakagawa recusava a ideia de uma Pink genérica e deixou escrito que "Carranger é Carranger, Timeranger é Timeranger: são Pinks completamente diferentes". Da Time Pink dele, escreveu que era "forte, antes de tudo; com algo de solitário... às vezes fofa?", e sobre interpretá-la concluiu: "Foi dificílimo". A Go Pink de "GoGoFive" é a socorrista Matsuri, do esquadrão de resgate cujo "55V" ficou gravado no endereço do blog dele e da conta no X, motokuni55v. Para ela, Nakagawa inventou a própria pose de apresentação: os braços erguidos diante do corpo carregam, explicou décadas depois, uma criança recém-resgatada dos escombros. Ele resume:

"Significa: proteger qualquer vida."

Nakagawa, sobre a pose que criou para a Go Pink

O diretor de ação Takeda aprovou na hora: "Ahh, perfeito. Fica essa!" Em 2025, no aniversário da série, Nakagawa olhou para trás e resumiu: "Um trabalho de um ano virou uma convivência de 26."

O último chamado

Em 2002, a linha de montagem mudou, com máscaras menores e heroínas entregues, em regra, a atrizes-dublês, e ele ainda vestiu de empréstimo a Hurricane Blue nos dois primeiros episódios daquele ano, segundo o próprio relato. Nakagawa atravessou o espelho de volta e foi o palhaço-vilão Yabaiba durante todo o "Gaoranger", deuses infernais em "Magiranger" e ayakashi em "Shinkenger", e quando em 2006, aos 35 anos, veio "Boukenger", ele já achava que "heroína, para mim, tinha ficado para trás". Escalado primeiro como Bouken Yellow, acabou "como que puxado" na Bouken Pink, e o figurino o esperava pronto, cortado sobre o molde do corpo dele de dez anos antes, o da Carranger.

Em 7 de janeiro de 2006, gravando cenas da abertura, quebrou o ombro direito e saiu do estúdio de ambulância. Perdeu os primeiros meses da personagem e voltou com uma placa de metal aparafusada no braço, retirada um ano depois e guardada até hoje. Sobre a placa, ele escreveu:

"Durante um ano limitou meus movimentos, mas sustentou meu braço direito e lutou comigo. É parte do meu corpo."

Nakagawa, em janeiro de 2026, ao postar uma foto da placa

Havia simetria no elenco, porque a Bouken Yellow era Hachisuka: duas heroínas, dois homens, a velha guarda se despedindo em dueto no último posto regular de Nakagawa como herói, e a tradição só voltaria a ter uma heroína fixa interpretada por um homem em 2023, quando o próprio Hachisuka, sexagenário, vestiu a Papillon Ohger de "King-Ohger".

Segundo Ato
O Homem Dentro dos Monstros

Kiryu, Monster X e o Parlamento demolido

Há uma segunda carreira inteira espremida nas margens dessa história, e ela pisa mais forte. Entre um esquadrão e outro, Nakagawa circulou por nove séries de Kamen Rider, de "Black RX" (1988) a "Wizard" (2013), e na Toho foi o Kiryu, o Mechagodzilla biomecânico de "Godzilla × Mothra × Mechagodzilla: Tokyo S.O.S." (2003). Em "Godzilla: Final Wars" (2004), acumulou três monstros, King Caesar, Monster X e Kaiser Ghidorah, e este último era um traje para dois, com Toshihiro Ogura atrás e Nakagawa na frente, operando as três cabeças nos planos fechados.

Do Monster X, conta o livro oficial, ele passou as filmagens inteiras acreditando que o nome fosse provisório. Quando perguntou ao produtor Shogo Tomiyama qual seria o definitivo, ouviu: "Vai assim mesmo." Guarda como troféu a lembrança de ter demolido o Parlamento japonês ao lado do Godzilla de Tsutomu Kitagawa, "um veterano acima das nuvens", e no mesmo 2003 o nome dele aparece até em "O Último Samurai". Em 2017, uma "eleição geral" de monstros na TV Asahi pôs o Kiryu em 12º lugar, e Nakagawa, revendo o próprio trabalho, comentou:

"Revendo agora... aquilo ali não é outra coisa senão eu mesmo. Os cacoetes humanos, a gente não consegue apagar."

Nakagawa, sobre rever o Kiryu em 2017

"O Gabutyra não se move sem mim"

Em 2013, "Kyoryuger" precisou de alguém para habitar o Gabutyra, um tiranossauro vermelho de quase quatro metros de comprimento, visibilidade zero à frente, instruções que mal se ouviam lá dentro. O traje foi refeito várias vezes sobre o corpo dele, com ele presente desde a construção. O diretor de tokusatsu Hiroshi Buta resumiu no livro oficial da série: "Só o Nakagawa consegue operá-lo." A essa altura Nakagawa nem pertencia mais à JAE: tinha saído no fim de 2010, depois de 22 anos de casa. Ao saber da escalação, o presidente da empresa, Osamu Kaneda, destacou um assistente para acompanhá-lo, cortesia de chefe antigo a soldado ilustre, e no blog Nakagawa escreveu:

"O Gabutyra não se move sem mim. Quando ele se mexe, eu estou lá. Se quiserem movê-lo, me chamem."

Motokuni Nakagawa, no blog
Terceiro Ato
Invisível de um Jeito Novo

Chefe de seção tímido, pai bondoso, samurai

A vida depois dos trajes tem sido a de um ator de ofício japonês, invisível de um jeito novo: pela agência Takarai Project, ele vira soldado-monge no drama histórico "Kamakura-dono no 13-nin" e soldado que volta da guerra num drama de TV. "Chefe de seção tímido, pai bondoso, samurai", anuncia sem cerimônia o catálogo da própria agência, que em 2025 ainda estampava "Faz teatro e ação aos 53!". Em 2020, estrelou um vídeo do Escritório de Patentes do Japão, "Shohyoken", "O Punho da Marca Registrada", no papel do presidente de uma fabricante de produtos legítimos. Em fevereiro e março deste ano, foi o carcereiro Kanji Kuramoto em dois episódios de "Punch Drunk Woman", da NTV.

Nakagawa nos bastidores de um drama de TV, ao lado de uma colega de elenco
O rosto que passou três décadas escondido, agora diante da câmera: Nakagawa em set de drama de TV, ao lado de uma colega de elenco, na vida de ator de ofício japonês.

Nem tudo coube na coreografia: depois do terremoto de 2011, ele organizou ações beneficentes e levou shows de heróis a crianças das áreas devastadas. Anos mais tarde, escreveu que antigos colegas haviam espalhado a mentira de que ele embolsara as doações, acusação que negou em público como "sem nenhum fundamento". O homem que o descobriu naquela cafeteria, Junji Yamaoka, morreu em 2021 sem despedida, e em 2025 Nakagawa, chamando-o de "meu grande benfeitor", escreveu que ainda lhe doía não ter conseguido dizer adeus.

O arquivista do próprio desaparecimento

Aqui chega a parte que nenhuma máscara disfarça, a conta que não fecha: quando a imprensa japonesa celebra o onnagata do tokusatsu, celebra Hachisuka, com justiça. O livro-reportagem sobre a categoria, "O orgulho dos suit actors" (2023), ouviu dezoito veteranos. Nakagawa não está entre eles. A principal reportagem recente sobre a tradição das heroínas interpretadas por homens, publicada em 2024, salta dos anos 80 direto para as atrizes-dublês do século 21, pulando os anos em que um único homem vestiu quase todas elas.

O monumento de Mister Pink está nas enciclopédias de fãs, no título de um programa de rádio da internet e, acima de tudo, no arquivo que ele mesmo construiu. São mais de oitocentos posts do motoblog ao longo de uma década, as memórias despejadas no note durante a pandemia e a conta no X onde ainda hoje ele corrige, tuíte a tuíte, quem vestiu o quê em 1996, a ponto de a Wikipédia japonesa citá-lo como fonte primária dos verbetes sobre ele. O homem cujo trabalho era não deixar rastro virou o arquivista do próprio desaparecimento.

Motokuni Nakagawa em foto de divulgação da agência Takarai Project
"Chefe de seção tímido, pai bondoso, samurai", e ainda ação aos 50 e tantos: Nakagawa no material de divulgação da agência Takarai Project.

A tese dele é curta. O que faz um suit actor, escreveu, é "o orgulho e a responsabilidade de quem foi escolhido" e uma presença "capaz de derrubar o 'ora, de máscara, qualquer um serve'", e vale a pena rever o timing cômico da Pink Racer, a melancolia da Time Pink e a fúria maternal da Go Pink, porque está tudo lá, assinado sem assinatura.

Me chamem quando quiserem

Motokuni Nakagawa completou 55 anos na sexta-feira passada. No sábado que vem, dia 29, um restaurante de monjayaki chamado Warabe, no bairro de Oizumigakuen, a poucos passos dos estúdios da Toei onde ele apanhou, explodiu e dançou por três décadas, fecha o salão ao meio-dia para um evento com nome de reunião de família: a "Roda de conversa em torno de Motokuni Nakagawa". No convite, publicado na conta dele no X no dia do aniversário, ele lembrou o garoto de 13 anos que ouvia o encerramento de "Uchuu Keiji Shaider", aquele que promete "pode me chamar quando quiser!", e reclamava com a televisão: "Chamar como, se ninguém sabe onde encontrar o Shaider?" Ele fecha o convite assim:

"No dia 29, vocês vão encontrar o Motokuni Nakagawa com certeza. Então me chamem quando quiserem."

O homem que passou a vida inteira exatamente onde ninguém podia vê-lo
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A entrevista por trás deste perfil
"O Pink vou dar para este aqui"

Em 2011, Motokuni Nakagawa sentou ao microfone de Shocker Ono, no programa de rádio Bem-vindo à Base Secreta de Shocker Ono, gravado pouco depois do Grande Terremoto do Leste do Japão. Ali ele conta os pães de Yokosuka, o bento que despencou na cabeça de Kazuo Niibori, a audição de 15 mil ienes diante de Sonny Chiba e o café em que Junji Yamaoka distribuiu as cores de Carranger.

Arquivo 2011 · tradução e adaptação do Kyoudai Express · 12 blocos de conversa

Ler a entrevista completa →
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Motokuni Nakagawa 中川素州 (n. 1971). Perfil escrito a partir dos relatos do próprio ator no motoblog, no note e na conta motokuni55v no X, e de livros oficiais das séries citadas.