O ator e dublê Junichi Haruta, o Goggle Black de Dai Sentai Goggle V e o Dyna Black de Kagaku Sentai Dynaman, deu esta entrevista à jornalista Mishio Suzuki para o livro Suit Actor no Kyouji (O orgulho de ser suit actor), lançado no Japão em 2023. O Kyoudai Express traduziu a conversa na íntegra.
Haruta nasceu em 1955, na província de Fukuoka, e foi para Tóquio aos 15 anos para entrar na Japan Action Club, a JAC, grupo de ação fundado por Shinichi Chiba. Em 1975, como dublê de Tetsuya Watari em Jingi no Hakaba, de Kinji Fukasaku, ele saltou de cerca de 15 metros sem colchão de ar. Em Goggle V, de 1982, foi o primeiro herói de preto da história do Super Sentai e passou a fazer o personagem com e sem máscara, o que repetiu no ano seguinte como Dyna Black, em Dynaman.
Na conversa com Suzuki, Haruta descreve a queda da montanha-russa do Fuji-Q Highland que o deixou um ano parado e os dias de trampolim do primeiro Kamen Rider, em 1971. Ele atribui ao diretor de ação Junji Yamaoka o nível das cenas daquela época e fala de Karasu no Hane wo Nuu Onna, o longa sobre um suit actor que dirigiu, escreveu e protagonizou.
O livro de Suzuki reúne 18 entrevistas com intérpretes, diretores e coreógrafos de ação e ainda não tem edição em português nem em inglês.
01A JAC
Como o senhor entrou na JAC?
Eu via o Shinichi Chiba em "Key Hunter" e na série "Judo Ichokusen" e achava lindo aquele pessoal voando e saltando no ar. Fui para Tóquio aos 15 anos para entrar na JAC. Meu sonho era ser dublê e trabalhar longe das câmeras, sem aparecer.
Sem aparecer?
Muita gente se surpreende, mas eu não era o único. Quando o papel de bandido tinha fala, ninguém queria fazer, e quem perdia no jokenpô era obrigado a falar.
Naquela época, o senhor saltou de 15 metros de altura.
Ainda não existia colchão de ar, então a gente empilhava colchões grossos e papelão. Foi como dublê do Tetsuya Watari em "Jingi no Hakaba" (1975), do diretor Kinji Fukasaku. Dá medo, e se você cai do jeito errado, dói. Mas, quando gritam "ação!", você cria coragem.

02A montanha-russa
E o salto da montanha-russa?
Foi para um especial de TV sobre dublês, e eu tinha que saltar da montanha-russa do Fuji-Q Highland. Tinha feito os cálculos, mas o carrinho vinha em velocidade e a altura era de uns 7 metros. Quando saltei, meu corpo foi arrastado e passou do colchão. Um poste de ferro veio na minha direção e, por instinto, desviei dele ainda no ar. Escapei por um triz, mas caí com os dois pés no chão de terra e quiquei. Dizem que meus pés afundaram uns 10 centímetros. Tive luxação na segunda vértebra lombar e fratura múltipla na perna esquerda. O hospital da região não tinha como me atender, e fui levado para Tóquio numa viagem de duas horas, sem anestesia. Levei cerca de um ano para voltar.
Não teve medo de voltar?
Até um salto de uns 3 metros me dava medo. O médico tinha dito: "Você não vai mais conseguir fazer isso". Mas eu tinha certeza de que logo ia conseguir de novo, porque era jovem.
03Kamen Rider
Qual foi o seu primeiro trabalho no tokusatsu?
As cenas de trampolim de "Kamen Rider" (1971). O queixo da máscara e a parte de cima do capacete eram peças separadas, e quando eu saltava a máscara se soltava, o que complicava tudo. Os olhos eram de tela, quase não dava para enxergar, e a roupa era de couro, difícil de mexer. A cada dois episódios havia um "dia do trampolim". Iam dois da JAC, um de Rider e outro de monstro, e a gente filmava tomadas de trampolim sem parar. No Rider Kick, o monstro ficava em pé no colchão e o Rider saltava do trampolim para acertá-lo.
04Goggle V
Em "Dai Sentai Goggle V" (1982), o senhor passou a interpretar o herói antes e depois da transformação.
Eu não tinha resistência nenhuma a atuar nem a usar a máscara, mas a agenda era pesada. Várias vezes por dia eu vestia o traje e depois voltava a gravar de rosto descoberto. Nem maquiagem eu usava, e nunca me preocupei com penteado ou com a minha aparência na câmera. Fazia tudo de cara limpa.
O que o senhor buscava ao atuar de máscara?
Eu não queria fazer aquela "atuação de herói" exagerada. Achava que, se eu atuasse com sentimento lá dentro, alguma coisa ia atravessar a máscara. A máscara do teatro Nô parece mudar de expressão conforme quem a usa, e com o traje acontece a mesma coisa. Se a pessoa lá dentro está alegre ou triste, isso tem que aparecer. O suit actor também precisa ser capaz de uma atuação interior de verdade. Não basta dizer as falas de qualquer jeito e se mexer.
Qual a vantagem de a mesma pessoa fazer também o herói transformado?
Na hora da dublagem, você sabe exatamente o tempo de cada fala. E, como os movimentos são seus, você fica satisfeito com o resultado. Quando outra pessoa faz, você sempre acaba pensando que teria sido melhor se mexer de outro jeito.
O senhor interpretou o Black em duas séries seguidas.
Acho que quem me indicou foi o Yama-chan, o Junji Yamaoka. Talvez ele tenha pensado em me colocar para me mexer bastante. Nos episódios centrados no Black, eu era perseguido, apanhava, caía e fugia antes mesmo de me transformar. Foi puxado.
05O penhasco
Dizem que, em Goggle V, foi difícil filmar uma descida de penhasco com corda.
Era uma cena de rapel. Quando dei o primeiro impulso no paredão, a corda escapou da roldana e eu fui direto para o chão, de uns 16 metros de altura. Caí em pé, com tudo, mas o chão era de terra e eu tombei para trás no mesmo instante em que os pés tocaram o solo, então ficou só numa torção. Enfaixei e continuei filmando. Por causa de uma torção, ninguém pensa em ir ao hospital.
O senhor fez muitas outras cenas difíceis.
Em Goggle V também fiz, numa tomada só, uma sequência em que eu pisava num minitrampolim, dava um mortal para a frente, caía em pé em cima de um tambor de metal, dava outro mortal para a frente, descia no chão de concreto e seguia lutando. Parece coisa de circo, não é?
Daria para mostrar isso com cortes, sem fazer de verdade.
O Yama-chan queria mostrar a JAC fazendo de verdade, uma ação sem truque. Acho que foi justamente por isso que quem assistia achava incrível. As séries de herói daquela época tinham mais ação do que qualquer outro drama da televisão.
06O orgulho de dublê
Não havia adicional de periculosidade, certo?
Não havia. Estava tudo incluído no cachê. Se pagassem adicional por tudo, seria uma fortuna (risos).
O que motivava vocês?
O orgulho de dublê. Eu nunca dizia "não consigo". A sensação de dever cumprido depois de acertar uma cena não tem preço, e ainda existe aquela ponta de superioridade de saber que você é capaz de fazer aquilo. Acima de tudo, a gente trabalhava com um único objetivo, que era fazer o mundo reconhecer a JAC, a primeira equipe de dublês do Japão.
07Yamaoka
A ação daquela época era realmente impressionante.
Sem o Yama-chan, a gente não teria feito ação daquele nível, e as séries de herói não teriam chegado aonde chegaram. O mérito é dele, que construiu a ação com tanta paixão, brigando com produtores e diretores.
Vocês iam até o fim, sem concessões.
A época também ajudava. Hoje, um pedido absurdo é tratado como assédio moral. Naquele tempo, na era Showa, a gente fazia loucuras se fosse para sair uma boa obra. Acho que é por causa dessa paixão que as séries continuam vivas até hoje. Os programas infantis eram chamados de "jari-ban", programa de pirralho, e havia um clima em que nem o elenco era reconhecido como ator. Talvez por isso mesmo, com aquele sentimento de "vocês vão ver", a gente fizesse coisas que ninguém mais fazia.
08Kyoryuger
Em 2013, o senhor participou como convidado de "Zyuden Sentai Kyoryuger".
Antigamente a gente filmava ação o dia inteiro, e agora é tudo tão rápido que dá vontade de perguntar "já acabou?" (risos). Sinto que falta empenho nas coreografias de luta, que ninguém insiste em refazer uma cena. Também não se fazem mais tomadas abertas, com profundidade. Percebi de novo que as séries de antigamente só existiram por causa da paixão fora do comum do Yama-chan como diretor de ação. Hoje está tudo mais morno, não acha? Será que ninguém mais quer ver mais movimento na ação, mais ação antes da transformação?
09O filme
Dizem que o senhor filmou um longa recentemente.
Filmei. Dirigi e escrevi o argumento de "Karasu no Hane wo Nuu Onna" (A mulher que costura penas de corvo), que conta a história de um suit actor. Faço dublês incríveis numa tomada só, sem ninguém me substituir. Quero lançar o filme também no Japão.
O senhor tem alguma resistência à expressão "suit actor"?
Nenhuma. Acho que "suit actor" é a expressão que mais combina com o nosso trabalho, porque, além das cenas de dublê, a gente faz coisas que um dublê não faz, como as poses e as apresentações dos heróis. O Darth Vader de "Star Wars", por exemplo, acho que não conseguiria fazer uma pose de apresentação. Quem consegue fazer esses movimentos cheios de estilo são os suit actors japoneses.