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Jaspion de braço estendido, com o traje prateado e vermelho, diante de um fundo azul
KYOUDAI EXPRESS / REVIEW · SÉRIE
Jaspion · Metal Hero Toei · 1985
What If...

What If... Jaspion tivesse sido o Tarzan da galáxia

Antes de Jaspion virar o que conhecemos hoje, quase vimos um herói criado por feras que se recusava a lutar contra elas, um príncipe de Mercúrio e um Satan Goss inspirado no Livro de Daniel. Fomos atrás das propostas originais, dos roteiros de teste e do que contaram sobre eles o roteirista Shozo Uehara, o produtor Susumu Yoshikawa e o diretor Takeshi Ogasawara.

Kaiju Tokuso Juspion era o título provisório da série que a Toei preparava em 1984 para substituir Uchu Keiji Shaider na TV Asahi. Na cópia da proposta de programa guardada pelo roteirista Shozo Uehara, a página de rosto traz anotado à mão "Justice Champion", campeão da justiça. Dessa expressão saiu o nome do herói que estreou em 15 de março de 1985 e que a dublagem brasileira chamaria de Jaspion. O documento, encadernado com capa de papel prateado, descrevia um órfão criado por animais espaciais no planeta Medes e um vilão chamado de imperador dos monstros. Antes dele, Uehara escreveu um memorando sobre um príncipe de Mercúrio, e na mesma época a Toei rascunhou uma comédia de caçadores de monstros, duas séries que nunca saíram do papel.

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Big Bang

Uehara escreveu à mão, logo depois de Uchu Keiji Shaider, o memorando Ginsei Oji Big Bang, o Príncipe da Estrela de Prata, que nunca foi impresso como proposta oficial. O herói era Seitaro Renjo, príncipe de Mercúrio enviado à Terra aos 5 anos, pouco antes de uma tempestade cósmica destruir o planeta. Criado por um fazendeiro de Hokkaido, ele se dizia escritor freelancer e rodava de moto enquanto investigava o grupo Quasar, da imperatriz Himeera. A parceira seria Jun Mizusawa, aprendiz de detetive com disfarces que sempre falhavam, filha do dono do snack bar Lou.

Uehara imaginou o grupo Quasar destruindo amizades e famílias com boatos, como no enredo do aluno novo que espalha intrigas para separar dois amigos. Em outro, um estranho convence uma criança de que a mãe dela não é a verdadeira. O memorando traz até o lema da imperatriz: "Conte mentiras enormes, engane em grande escala".

O produtor Susumu Yoshikawa contou, em entrevista de 2008, que a audiência da franquia caíra de 15% em Gavan para 12,5% em Shaider. A Toei queria um quarto ano no mesmo molde, e o memorando nasceu dessa encomenda: "Junto com Shozo Uehara, montamos uma proposta como extensão dos Uchu Keiji". Big Bang foi abandonado quando a Bandai pediu monstros. O príncipe exilado e a rainha que quer dominar o universo reapareceram em 1986, em Spielvan.

Huntman

Yukimasa Sugiura, então diretor-executivo da Bandai e mais tarde presidente da empresa, procurou Yoshikawa com um pedido direto: "Yoshikawa, vamos fazer coisa de monstro". O argumento dele era Ultraman, em que o monstro de cada episódio pesa tanto quanto o herói. Na primeira ideia de Sugiura, os monstros seriam bons, e o herói os capturaria vivos para reeducá-los numa fazenda em outro planeta. Yoshikawa desistiu da fazenda espacial depois de calcular quanto custaria filmá-la: "Mesmo pensando no orçamento de filmagem das cenas da fazenda espacial criando os monstros soltos, dava arrepios".

Na mesma época, Yoshikawa e Uehara rascunhavam Kaiju Tokuso Huntman, comédia de ação inspirada em Os Caça-Fantasmas, sucesso do Ano Novo de 1985 no Japão. O protagonista era o milionário Yutaka Jinbo, 25 anos, caçador que já perseguira o Yeti e o monstro do Lago Ness. A empresa dele capturava criaturas escapadas de uma Monster Zone desregulada pelo alinhamento dos planetas, como o Gama-Terebi, um sapo fundido a um televisor. A ideia de capturar monstros vivos vinha de Uchu Keiji Bemtrigger, projeto anterior a Gavan, cujo herói era policial do setor de proteção animal da polícia galáctica.

O Tarzan da galáxia

A proposta definitiva abria no planeta Medes, na 18ª galáxia, onde o único sobrevivente de um acidente espacial crescia entre animais cósmicos. Uehara contou que pensou o herói a partir de um personagem clássico: "Eu posicionei Juspion como o Tarzan da galáxia. Tarzan é um homem que protege a selva, e é gentil com todos os animais que vivem na floresta. Originalmente, as grandes feras também seriam companheiras de Juspion". No roteiro de teste O Filho Selvagem da Galáxia que Ruge, a família adotiva tinha o pai Sue, a mãe Anmar, o filho Pinky e o caçula Melo. Anmar quer dizer mãe na língua de Okinawa, terra natal do roteirista.

Nesse roteiro, Jaspion se recusava a lutar quando as feras Iron Gillar e Winger enlouqueciam, porque todo ser vivo era seu companheiro. Ele só vestia o traje de combate depois que Iron Gillar matava Sue, Anmar e Melo. O robô ainda se chamava Juspion Robo, a armadura era o Combat Suit e a nave, Juspion-go. Uehara releu o texto mais de 20 anos depois e ficou com essa versão: "Reli o roteiro preparatório de estudo e, de fato, gosto mais daquele desenvolvimento do que da obra final". Para que o herói pudesse destruir uma fera por semana, Uehara entregou a Satan Goss o poder de deixar as feras violentas: "É um adversário contra o qual Juspion teria dificuldade de lutar, mas, se ficou feroz, não há outro jeito".

Satan Goss

O Satan Goss do roteiro de teste vinha do capítulo sete do Livro de Daniel, que descreve quatro feras. Uma lembra um leão alado, outra um urso, outra um leopardo de quatro asas, e a última tem grandes dentes de ferro. Uma nota de Uehara pedia que o vilão reunisse as quatro num só monstro apocalíptico. A Bandai preferiu um demônio de armadura no molde de Darth Vader, e a criatura bíblica só apareceu no Grande Satan Goss do fim da série, desenhado por Ryu Noguchi.

Na Terra, Jaspion adotaria o nome de Yutaka Kenjo e trabalharia como dublê de filmes de ação, pulando de trem-bala e escapando de carros em chamas. No snack bar que frequentava, ganhou o apelido de Gori, o Imortal, por comer 20 pratos de curry de uma vez. A freguesa Yumeko Hino, fotógrafa desastrada de óculos, escondia a guerreira espacial Jeanne, que queria vingar os pais e o irmão mortos por Fog, o homem que manipulava Satan Goss. Kenjo, Jeanne e Fog ficaram no papel, e o posto de rival foi para MacGaren, de Junichi Haruta.

Jaspion, de traje prateado e vermelho, cruza a espada com a de MacGaren, de armadura preta, num terreno de mato seco
Jaspion e MacGaren em duelo de espadas. Na série, o rival ocupou o lugar que a proposta reservava a Fog (Foto: divulgação/Toei)

O Pássaro Dourado

A Fênix Dourada da proposta, que nasce de um ovo a cada cinco mil anos e é a única força capaz de vencer Satan Goss, virou o Pássaro Dourado da série. Uehara contou que perseguia essa imagem desde a Tsuburaya Productions: "Já desde a época de Ultraman eu queria dar forma a isso em imagem, mas não consegui". Em Ultraseven, ele escreveu uma ave dourada vinda de Vênus para socorrer o herói, cena que nunca foi filmada.

No roteiro de teste A Fênix Dourada, o robô de exploração Monsoon revelava que os pais de Jaspion, Roy e Anna, morreram procurando a ave. A série só esclareceu essa ligação nos episódios 15 e 18, com os pais rebatizados de Gary e Anna.

A Terra

Jaspion chegou à Terra no episódio 4, dirigido por Takeshi Ogasawara, que assinou 20 dos 46 episódios. Ogasawara lembrou que a série foi pensada como uma viagem de planeta em planeta e esbarrou nas filmagens externas: "Pensando em locação, isso é difícil". As locações de Oshima, Nasu e Onioshidashi ficaram nos três primeiros episódios. Para Yoshikawa, o cotidiano terrestre também aproximava a série das crianças: "Para as crianças que assistem à TV, se não houvesse um ponto de contato com o cotidiano, não seria compreendido".

Jaspion de braço estendido, com o traje prateado e vermelho, diante de um fundo azul
Jaspion com o traje que os roteiros de teste ainda chamavam de Combat Suit (Foto: divulgação/Toei)

No episódio 3, Jaspion contraria Anri para buscar o fruto da vida e salvar Namagerasu, a fera que criou o menino Koko. O episódio 9 termina com ele plantando uma muda de cedro no lugar da árvore gigante Kidamar, cena que cabia no Tarzan imaginado por Uehara.

Na segunda metade da série, as feras ficaram mais mecânicas, e Uehara explicou o motivo: "Se há muita parte de carne, fica forte demais, e derrotar dá pena". Ogasawara contou que a equipe chegou a discutir episódios em que a fera fugia sem ser destruída. Para ele, Jaspion foi "uma obra em que senti as dores do parto de criar uma linha nova".

O Jaspion criado por Sue e Anmar, que se recusava a matar as feras, existiu apenas nos dois roteiros de teste do episódio 1 e nunca saiu do papel. Big Bang também ficou no memorando manuscrito de Uehara, e Huntman não passou da proposta entregue à Toei. Da série imaginada pelo roteirista, chegaram à tela o Pássaro Dourado, a criatura Miya, herdeira do bicho Pinky e do robô Monsoon, e o Grande Satan Goss do fim da série. Foi essa versão, com MacGaren e uma fera derrotada por semana, que a TV Manchete exibiu no Brasil a partir de 1988.

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Fontes: proposta de programa e roteiros de teste de Kyojuu Tokusou Juspion guardados por Shozo Uehara e depoimentos de Shozo Uehara, Susumu Yoshikawa e Takeshi Ogasawara. Fotos: divulgação/Toei.