Dias depois da pior nevasca de Tóquio em 48 anos, o suit actor dos heróis azuis — e do Godzilla Millennium — senta-se ao microfone: a caixa de areia de Yamaguchi, o "morra!" que soltou a voz, o Kung Fu Man do macarrão e o telefonema que ele precisou pensar antes de aceitar.

Sexta turma do Japan Action Club, o corpo dos heróis azuis do Super Sentai — Blue Three, Change Pegasus, Blue Flash, Blue Mask — e, de 1999 a 2004, o Godzilla da era Millennium. Na abertura, ele resume o ofício com a resignação de quem passou a vida em sets: "Quando a filmagem é cancelada pela neve, até dá alívio; o problema é quando não é cancelada".
A pior onda de frio em 48 anos parou Tóquio. Hoje recebemos justamente um veterano que passou a vida enfrentando o risco de ferimentos.
Muito prazer. Para quem trabalha em filmagens, a neve costuma ser um enorme transtorno. Quando uma filmagem é cancelada, até dá certo alívio; o problema é quando o trabalho não é cancelado e temos de ir mesmo assim.
Anteontem eu tinha uma chamada às duas da tarde em Takadanobaba. Pensei em ir de carro, como sempre, mas minha mulher insistiu que aquilo se transformaria em nevasca. Fui de trem. O trabalho terminou por volta das sete da noite e a Linha Yamanote mal se movia. Houve controle de acesso em estações, e Shibuya estava em situação especialmente ruim. Levei cerca de três horas e meia para voltar para casa; normalmente a viagem dura uma hora.
Pensando na carreira, quais foram os seus heróis?
Percebo que interpretei muitos heróis azuis: Blue Three, Change Pegasus, Blue Flash e Blue Mask.
Além do lado travesso e atlético, você também desenhava?
Sim. Meu pai também desenhava mangá, e eu gostava muito de desenhar. Sempre gostei de super-heróis — tanto os gigantes quanto os de tamanho humano: Ultraman, os irmãos Ultra, Thunder Mask. Cheguei a criar heróis próprios, e ainda tenho ideias e originais guardados. Às vezes brinco que poderia levá-los à Toei e perguntar se há interesse.
Como era sua vida escolar? Quando o esporte ficou sério?
Eu gostava de ginástica, mas minha escola ginasial não tinha clube de ginástica. Acabei no atletismo, especialmente no salto em distância — e a caixa de areia servia também para treinar cambalhotas e mortais. Eu corria em direção à areia e tentava os saltos desde os primeiros anos da escola primária. Outros alunos e até veteranos acabaram envolvidos: em vez de usar a caixa apenas para o salto em distância, nós a transformávamos em local de acrobacias.
No último festival esportivo do ginásio, montaram uma apresentação de ginástica em grupo. Enquanto os demais faziam os movimentos de preparação, eu ficava no centro e executava as acrobacias de destaque. No revezamento entre clubes, eu incluía cambalhotas e sequências acrobáticas. As meninas gritavam e reagiam como se aquilo fosse muito bonito.
Naquele período, o grupo idol Four Leaves ajudou a popularizar o mortal para trás na TV japonesa. Kōji Kita era conhecido pela ginástica e pelos backflips; Toshio Egi havia interpretado Mamoru em Ambassador Magma. Para muitos garotos, aquelas acrobacias foram o primeiro contato consciente com o movimento.
A imagem daqueles artistas fazendo acrobacias realmente era muito atraente.
Você finalmente entrou num ambiente especializado de ginástica. Como foi?
No segundo ano do ginásio chegou um professor de inglês que parecia uma pessoa comum, mas era um ginasta excelente — ao perceber que a escola não tinha clube, decidiu criar um. Meu pai se envolveu na escolha do caminho, e fui encaminhado para um ensino médio forte em ginástica. No primeiro dia já pensei em desistir. Existe uma diferença enorme entre brincar porque se gosta e treinar ginástica competitiva: era preciso praticar os seis aparelhos. Entraram dezenas no primeiro dia; depois de uma semana, restávamos eu e um amigo.
Eu não podia voltar para casa e dizer ao meu pai que queria desistir. Havia treino de manhã; na hora do almoço eu ia comer udon e depois dormia. Minha mãe preparava no liquidificador uma bebida forte de recuperação, com banana, ovo e carne. Eu bebia tudo de uma vez, tomava banho, jantava e dormia. Depois de uns seis meses veio a competição de novatos — foi quando olhei meu corpo no espelho e percebi quanto havia mudado. Os exercícios haviam construído meu corpo sem que eu percebesse.
E o sonho olímpico?
Quando criança eu queria ser Ultraman, mas também sonhei com as Olimpíadas. Um professor, porém, disse que ginástica não dava dinheiro — naquela época não existia carreira profissional clara. Treinei os três anos, virei capitão, fui ao Inter-High e ao Kokutai. Cerca de seis universidades me procuraram. Mas pensei: em vez de passar quatro anos numa universidade, poderia trabalhar, aprender a profissão nesses mesmos quatro anos e aliviar as despesas dos meus pais.
Como você chegou ao Japan Action Club?
O treinador do meu clube havia estudado com Shinichi Chiba na Nippon Sport Science University. Quando comecei a pensar em trabalhar como dublê, ele trouxe uma folha com vários clubes e perguntou qual eu preferia. Eu conhecia o Japan Action Club porque tinha visto numa revista, provavelmente a Bōken Ō, uma fotografia ligada a Barom-1 e as palavras "Action Club". Foi praticamente por causa daquela imagem que escolhi o JAC.
Uma fotografia diferente poderia ter mudado toda a sua carreira — uma matéria sobre os atores da Toho ou Bin Furuya, e talvez você tivesse ido para o lado de Ultraman.
É possível. Ultraman era meu maior sonho. No fim, interpretei heróis de Super Sentai, trabalhei em Kamen Rider e me tornei Godzilla, mas nunca interpretei Ultraman de verdade — meu tamanho não correspondia ao tipo físico procurado. Depois que virei Godzilla, pessoas ligadas a Ultraman chegaram a dizer que poderiam encontrar algum papel para mim. Já não seria o Ultraman que eu sonhava interpretar quando jovem. Brinco que agora seria mais fácil aparecer como pai ou avô.
"Ultraman era meu maior sonho. Virei Sentai, Kamen Rider e Godzilla — mas nunca Ultraman."
Kitagawa, sobre a fotografia que decidiu seu caminhoO treinamento do JAC tinha fama de ser muito duro. Como era?
Fui de Yamaguchi até o escritório. Como só Chiba-san sabia da minha história, os demais me olharam como se perguntassem: "Quem é você?". Sou da sexta turma; Junichi Haruta estava duas turmas acima. Havia treino de segunda a sábado. Quarta e sábado eram de ginástica — quando chegava essa parte, eu me sentia vivo. O que me assustava eram as quedas: mandavam subir, segurar um corrimão e saltar de uns três metros. Esperávamos numa fila. Quando minha vez chegava, eu discretamente dava a volta e voltava para o fim, torcendo para o exercício acabar antes de me chamarem.
Diziam: "Se dói, aprenda a cair de um jeito que não doa". Eu pensava: "Então ensinem essa técnica". Eu também era extremamente tímido — no começo não conseguia soltar a voz nos exercícios de luta. Era mais fácil gritar "morra!" ou "seu desgraçado!", porque essas expressões saem junto com a energia do golpe. Hoje, quando ensino jovens e vejo alguém que mal consegue dizer "ya!", entendo perfeitamente e procuro ajudar.
E conseguir trabalho?
Passei cerca de um ano treinando todas as noites sem receber trabalho. Percebi que, se não me apresentasse aos veteranos, ninguém me escolheria — era preciso ser o primeiro a se aproximar do carro do coordenador e pedir para participar. Logo ao entrar, me disseram que o JAC não fazia Ultraman e que um garoto pequeno como eu nunca seria protagonista. Aos 18 anos, ouvir que você não serve para nada derruba bastante. Na primeira grande locação, éramos dois ou três novatos carregando tapetes montanha acima. No alto de um penhasco, o veterano ao meu lado deixou cair a arma cenográfica. Olhou para mim e ficou calado. Não precisou dizer nada: desci o barranco para buscá-la.
"Diziam: se dói, aprenda a cair de um jeito que não doa. Eu pensava: então ensinem essa técnica."
A pedagogia do JAC, 1975Comecei como soldado e combatente em Akumaizer 3, depois Chōjin Bibyūn, e passei por Daitetsujin 17, Spider-Man, Megaloman, trabalhos de kabuki ligados a Ennosuke Ichikawa e Message from Space. Meu primeiro papel regular importante veio com Battle Fever J. Como era baixo, me chamavam para substituir mulheres nas ações mais perigosas: fiz acrobacias de Miss America — minha mulher, Eiko Onodera, foi uma das principais suit actresses da personagem — e também substituí Battle Kenya.
E em Denziman, substituindo Kenji Ōba como Denzi Blue?
Trabalhar por uns dois anos em personagens ligados a ele me ensinou muito. Ōba era minucioso até com a posição dos dedos nas poses. Dizia: "Ninguém consegue me imitar. Supere-me; quando você me superar, eu vou superar você novamente". Quando eu dominava uma coisa, ele criava outra. Esse rigor ensinava a não copiar apenas a forma externa, mas a continuar evoluindo.

Curiosamente, a primeira vez que reconheci você não foi em Sentai nem em Kamen Rider — foi no comercial do macarrão Wang Fu Mian, da House Foods, com Fei Fei Ouyang. Você levava uma queda espetacular, o corpo tombando ereto, as pernas no ar. Uma revista perguntou quem era aquele "Kung Fu Man" e mostrou você treinando de agasalho no ginásio de Ōkubo.
Esse comercial acabou sendo importante de uma forma que eu não imaginava.
Você também esteve no famoso comercial do Honda City, com a banda Madness.
Eu não fui simplesmente o coreógrafo. Os integrantes eram indisciplinados e não obedeciam facilmente; me chamaram para ocupar a posição de um professor de artes marciais. Primeiro demonstrei nunchaku e movimentos de ação — profissionais estrangeiros não confiam no título de alguém, querem ver a habilidade. Depois da demonstração, passaram a aceitar o que eu dizia.
Qual foi um dos trabalhos mais assustadores? Uma antiga entrevista mencionava uma cena em que você ficou cercado pelo fogo.
Foi em The Phoenix, de Kon Ichikawa (1978), baseado em Osamu Tezuka. Substituí Toshinori Omi no trecho em que se entra numa árvore em chamas. Eu usava proteção de algodão molhada, e o plano parecia ser apenas passar pelo fogo — depois mandaram que eu entrasse e permanecesse lá dentro, enquanto partes do adereço derretiam. Combinei que sairia quando não aguentasse mais. Foi um trabalho imprudente, diferente do que eu havia entendido.
Em outra produção, uma reconstituição de um caso real no metrô, ateei fogo ao próprio corpo. A pessoa do extintor se assustou e paralisou — eu gritava de verdade, "apague! apague!", e ela achava que era atuação. Com fogo, não se pode inspirar as chamas. Mantive o rosto para baixo e continuei pedindo. É possível estudar uma queda; não existe treinamento que torne alguém imune ao fogo. Em situações sem cálculo seguro, é necessário recusar. Dizer "não é possível" também exige coragem.
No evento de 30 anos de Maskman, perguntaram sobre o plano da abertura: os cinco na borda do telhado de um arranha-céu de Shinjuku, sem grade, com um helicóptero produzindo vento. Não havia medo?
Eu não precisava saltar dali, portanto não via o plano como especialmente assustador. Se o vento me desequilibrasse, bastava mover-me para trás. Existe uma lógica curiosa: em alturas até uns 25 metros, ainda existe a possibilidade de alguém mandar o dublê saltar. Em 40 ou 50, sabe-se que não haverá salto. Às vezes a posição muito alta parece psicologicamente mais simples justamente porque ninguém exigirá a queda. O medo continua existindo; o importante é calcular. Quem só testou vinte metros não deve fazer trinta. Não se executa algo simplesmente porque nunca aconteceu um acidente antes.
Você sofreu alguma lesão realmente grande? Em Bioman, vi você com dois dedos presos por fita — pareciam apontar para o lado errado. Você vestiu a luva por cima e continuou lutando.
A lesão mais séria foi um ligamento rompido; também tive fraturas nos dedos. Se os olhos ou as pernas não funcionassem, seria impossível. Mas, quando eu ainda conseguia me mover, trabalhava. Se faltasse, outra pessoa faria o personagem. Blue Three era meu papel; eu queria ser também aquele que executava sua ação. Enquanto houvesse uma maneira de continuar, eu continuava.
"Blue Three era meu papel. Enquanto houvesse uma maneira de continuar, eu continuava."
Kitagawa, sobre lutar com dois dedos quebrados sob a luva
Além das filmagens, havia os shows — Kōrakuen, lojas de departamentos, conjuntos habitacionais.
Os shows eram divertidos, mas exigiam muito. Muitas vezes chegávamos cedo e construíamos tudo diante do público: em cerca de duas horas era preciso criar o espetáculo inteiro. Nós dois quase não trabalhamos juntos nesses shows porque normalmente éramos distribuídos para lados opostos — você fazia vilões; eu, heróis. Mais tarde, quando comecei a atuar em teatro, tive vontade de fazer também os vilões que falavam.
Os trajes antigos tinham cabeças maiores e mais folga. Em shows, dava para levantar a máscara por dentro do cenário para respirar.
Exatamente. As máscaras modernas ficam muito justas. Nos shows antigos do Kōrakuen, corríamos por trás do cenário levantando a máscara até a testa para respirar e recolocando-a antes de reaparecer. Hoje isso seria impossível.
Os veteranos formaram uma banda, e você toca guitarra elétrica. Como começou?
Desde a adolescência eu gostava de instrumentos — comecei pelo violão, com músicas folk e canções do Kaguyahime. Uns dois ou três anos atrás, Jirō Okamoto pediu que eu tocasse guitarra elétrica. Para alguém criado com a ideia de que guitarra elétrica era coisa de delinquente, aquilo era um mundo diferente. Comprei um instrumento de iniciante por uns dez mil ienes e comecei a praticar no camarim. Eu não consigo acompanhar partitura no palco, especialmente com as mudanças de luz: preciso decorar a melodia e localizar as posições pelos marcadores do braço da guitarra. Cheguei a memorizar mais de cinquenta músicas.
Por que você considerou adotar outro nome profissional?
Meu nome era frequentemente escrito errado — existem diferentes kanji lidos como Tsutomu, e os créditos às vezes usavam a forma incorreta. Ver o próprio nome errado na tela era um choque profissional. Durante um trabalho de palco, Kazutoshi Yokoyama sugeriu um jogo de palavras com a ideia de "dois Toms" — ele é o padrinho do apelido. Pensei em adotar a grafia na fase Godzilla, mas me disseram que, como eu interpretava um símbolo do Japão, deveria usar um nome japonês. Como passei a viajar mais aos Estados Unidos e "Tom" era fácil de pronunciar, comecei a pedir que me chamassem assim.
Como surgiu o convite para interpretar os monstros da Toho?
Tudo volta ao comercial de Wang Fu Mian. O escultor de monstros Shinichi Wakasa guardou na memória a imagem daquele "Kung Fu Man". Durante Rebirth of Mothra III, o diretor de efeitos Kenji Suzuki queria um King Ghidorah jovem, da era Cretácea, capaz de correr — o traje tradicional pesava perto de duzentos quilos e dependia de cabos. Wakasa procurou alguém que combinasse atuação de monstro com movimento acrobático, lembrou-se de mim e localizou meu telefone. Pensei: é o rei dos monstros, será uma lembrança para a vida toda. Aceitei.
E no ano seguinte, o telefone tocou de novo.
— Podemos pedir sua ajuda outra vez?
— Claro. Qual é o personagem?
— Godzilla.
Fiquei em choque. Godzilla é Godzilla, um símbolo do Japão. Pensei: "É mesmo algo que eu posso fazer?". Pedi um tempo para pensar.
Você não realizou literalmente o sonho de ser Ultraman, mas, ao tornar-se Godzilla, passou a conviver com os pioneiros que admirava — Haruo Nakajima, o primeiro Godzilla, e Bin Furuya, o primeiro Ultraman.
Sou muito grato. Fazer Godzilla tornou possíveis encontros que eu nunca teria imaginado.

Em Super Hero Taisen Z, na filmagem gelada do monte Iwafune, você voltou como Ninja Black em meio a centenas de heróis.
Meu filho viu uma imagem promocional na televisão, apontou para um personagem e disse que era eu. Respondi: "Sou eu mesmo". Ele sabia que eu havia feito Ninja Black no passado, mas não sabia que eu participara daquela filmagem. Fiquei espantado por ele me reconhecer apenas pelo movimento e pela silhueta.
Também interpretei Ki Ranger em outra reunião de heróis. Como o traje havia sido feito para outro corpo e eu era mais esguio, minha versão parecia elegante demais — uma conhecida disse que ficou decepcionada: para ela, Ki Ranger precisava ter o corpo arredondado tradicional. Entendo: a silhueta faz parte da memória do personagem.
Para encerrar, deixe uma mensagem aos ouvintes.
Ainda tenho muitas histórias que não consegui contar. Vou continuar trabalhando e me esforçando. Por favor, continuem me apoiando. Muito obrigado.
"Fiquei espantado por ele me reconhecer apenas pelo movimento e pela silhueta."
Kitagawa, sobre o filho apontar para o Ninja Black na TV