Tetsuya Nakayashiki no traje de Kamen Rider V3
KYOUDAI EXPRESS / COLUNA · PERFIL
Tetsuya Nakayashiki · n. 1948 Mr. Showa Rider · Suit Actor
中屋敷哲也 · スーツアクター列伝

O Homem Que Foi
Todos os Riders

Do interior gelado de Iwate ao topo de uma chaminé de cinquenta metros, a história do intérprete que vestiu os Kamen Riders da era Showa quase do primeiro ao último, e que passou treze anos sonhando em fazer o contrário: mostrar o rosto.

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KUJI, IWATE · 1948·ŌNO KEN'YŪKAI·KAMEN RIDER 1 → SUPER-1·TREZE ANOS DENTRO DO HERÓI

No quarto episódio de Kamen Rider V3, exibido no começo de 1973, existe um plano que ainda hoje faz o espectador prender a respiração. A câmera da Toei sobe pela lateral de uma chaminé industrial de mais de cinquenta metros e encontra, lá em cima, o herói de pé na boca do cano, recortado contra o céu, com o vento batendo no lenço.

O Japão daquela época já estava acostumado aos truques do gênero — maquetes, transparências, cortes espertos de montagem —, e por isso o plano parece, à primeira vista, mais um deles. Não era. Lá em cima havia um homem de carne e osso, vestido de V3 da cabeça aos pés, equilibrado no único ponto de apoio disponível, o para-raios, sem cabo de segurança e sem rede. A tomada quase não aconteceu: o diretor a havia descartado, perigosa demais para valer o risco, e coube ao mestre de luta Kazutoshi Takahashi, o Kashira do grupo, insistir que dava para fazer. Anos mais tarde, Takahashi confessaria o que lhe passava pela cabeça enquanto acompanhava a subida do rapaz — se ele caísse, pretendia se atirar atrás. O rapaz não caiu. Quando voltou ao chão, tirou a máscara e reclamou com a franqueza de quem tinha pouco mais de vinte anos, perguntando ao diretor se a intenção era matá-lo. Durante décadas circulou a versão de que um colega estaria escondido dentro da chaminé, segurando seus tornozelos; ele próprio desmentiu a lenda anos depois, lembrando que qualquer mão ali só o desequilibraria. Era um intérprete sozinho, no alto de uma estrutura de concreto, vestindo um traje que pertencia a outro personagem. É desse tipo de cena, feita de coragem prática e anonimato absoluto, que se compõe a carreira de Tetsuya Nakayashiki.

Primeiro Ato
Aprender o Ofício por Acidente

O homem sem rosto

No Japão, ele é conhecido como "Mister Kamen Rider". Uma rádio especializada em tokusatsu, ao recebê-lo em 2020, foi um passo além e o apresentou como "Mister Showa Rider". Os dois apelidos tentam abarcar um feito que nenhum outro intérprete da franquia pode reivindicar: ao longo de treze anos, entre 1971 e 1984, Nakayashiki vestiu praticamente todos os Kamen Riders da chamada era Showa. Kamen Rider 1 e 2, V3, X, Amazon, Stronger, Skyrider, Super-1 — a lista atravessa uma década inteira de televisão japonesa, e a única falta é o Riderman, personagem que coube a um colega. Temporada após temporada, mudavam o traje, a história e o ator que emprestava o rosto ao herói; o corpo por baixo da máscara continuava o mesmo.

A explicação mais repetida é de ordem física. A Wikipedia japonesa credita a escolha ao porte de Nakayashiki — alto, de pernas longas, com o tipo que a câmera pedia para um protagonista de ação. Os fãs traduzem isso de um jeito mais direto: a silhueta que vem à cabeça quando se pensa num Kamen Rider parado, o tronco firme e o braço pronto para o golpe, é a que ele ajudou a fixar. O que raramente entra nessa conta é o que o próprio Nakayashiki sentia a respeito. Numa noite de 2025, diante de uma plateia lotada em Shibuya, já com 76 anos, ele foi direto ao falar da própria juventude.

"Eu odiava. Entrei nessa vida porque queria ser ator. Eu não queria esconder o rosto. Hoje tem jovem que sonha em ser suit actor. Na nossa época, não havia ninguém assim. A gente fazia porque era trabalho, porque pagava. Foi esse o começo."

Tetsuya Nakayashiki, Shibuya, 2025

A franqueza ajuda a entender de onde vem essa trajetória. Ela não começou como vocação nem como sonho de infância, mas como um emprego entre outros, numa época em que ninguém no Japão imaginava ganhar a vida dentro de um traje de herói. Tudo o que hoje se admira nela — o método, o rigor, a entrega que o tornariam lendário — foi se formando aos poucos por cima do ofício, ao longo dos anos, quase à revelia da vontade dele.

Iwate, os cartazes inventados e uma fuga para Tóquio

Nakayashiki nasceu em 5 de junho de 1948 em Kuji, uma cidade litorânea no norte gelado da província de Iwate, região que o cinema japonês costuma associar à pesca, ao frio e à distância dos grandes centros. Do mesmo interior sairia, décadas mais tarde, Hiroaki Murakami, o jovem ator que Nakayashiki acabaria transformando em Skyrider — uma dessas coincidências de que a história do tokusatsu está cheia. No registro civil ele se chama Tetsuo; o "Tetsuya" pelo qual ficaria conhecido foi invenção de adolescente. Fã dos astros de ação da Nikkatsu, gente como Akira Kobayashi e Jō Shishido, o menino passava as tardes desenhando cartazes de filmes que não existiam, todos estrelados por ele mesmo e assinados com nomes artísticos que criava e trocava semana após semana. Era o retrato de alguém que queria, antes de qualquer coisa, aparecer.

Aos 17, largou a escola e a casa numa saída que seus biógrafos descrevem quase como uma fuga, e subiu para Tóquio. Durante o dia trabalhava numa empresa de alimentos; nas folgas, rondava o mundo do entretenimento pela porta dos fundos, como figurante. O caminho para o ofício se abriu por indicação de um mestre de tate, a esgrima cênica dos filmes de época, chamado Kandō Arashi. Foi ele quem apresentou Nakayashiki, em dezembro de 1966, aos 18 anos, à organização que definiria sua vida: a Ōno Ken'yūkai, o grupo de espadachins cênicos que Kōtarō Ōno havia fundado poucos anos antes para abastecer a televisão japonesa de lutas, quedas e mortes convincentes.

O começo de verdade não teve nada de glamouroso. Nos primeiros anos, entre as gravações de Jūdō Icchokusen e do recém-nascido Kamen Rider, sobrava tempo e faltava trabalho, e a rotina se resumia a treinar. Eram dois treinos por dia, uma hierarquia de ferro e uma turma de veteranos de expressão fechada, que ele lembra até hoje com bom humor: "As caras deles eram assustadoras", conta, antes de emendar, no tempo cômico de um homem de palco, que a dele também não ficava atrás.

A fábrica de chocolate

Em 1970, Nakayashiki fez o que muitos aspirantes a ator fazem uma vez na vida e quase nenhuma biografia oficial registra: desistiu. Deixou a Ken'yūkai, afastou-se do meio e foi trabalhar no turno da noite de uma fábrica de chocolate, passando as madrugadas entre esteiras de bombons. A pausa durou cerca de um ano. No outono de 1971 ele voltou ao grupo, e o grupo, naquele momento exato, estava com as mãos cheias de um programa novo, gravado às pressas num estúdio precário chamado Ikuta, sobre um homem-gafanhoto que enfrentava uma organização secreta. Kamen Rider já ia ao ar havia alguns meses, e Nakayashiki entrou por baixo, como todo mundo entrava: combatentes da Shocker, monstros da semana, pequenas figurações de rosto.

Dois pilares sustentam a formação desses anos. O primeiro é o código que Kōtarō Ōno impunha ao grupo, uma ética que hoje soa quase monástica: ter orgulho de interpretar o Rider, não estragar o sonho das crianças, jamais fumar ou se esparramar no chão onde o público pudesse ver. O velho mestre, avaro em elogios, resumiria Nakayashiki numa expressão que valia por uma medalha — chamou-o de "um homem de esforço". O segundo pilar tem nome próprio: Masaru Okada, que entrou na Ken'yūkai apenas quatro meses depois dele. Espremidos entre veteranos intimidadores, os dois novatos se tornaram uma espécie de irmãos, combinando que, se levassem bronca, levariam juntos. Seis décadas mais tarde, ainda sobem no mesmo palco.

Episódio 46: o dia em que ele virou o Rider

A entrada de Nakayashiki dentro do herói aconteceu em duas etapas, no ritmo improvisado das produções da época. Primeiro veio o arco especial rodado em Sakurajima, em que ele vestiu o traje do Kamen Rider 1 original — a versão que os colecionadores apelidariam de "1 de Sakurajima". Pouco depois, no episódio 46, assumiu pela primeira vez o Rider titular do programa, o 2, cobrindo a escalação regular. A coincidência tem um quê de simetria: o episódio 46 marcou também a estreia de Masaru Okada como mestre de luta, substituindo o Kashira machucado. Os dois companheiros de turma subiram de posto no mesmo dia, sem saber que ali começava uma era.

Tetsuya Nakayashiki no traje de Kamen Rider, segurando a máscara
O corpo por trás do herói: Nakayashiki no traje de Kamen Rider. A partir do episódio 46, foi ele quem passou a dar corpo ao Rider titular do programa.
Segundo Ato
Ser Todos os Heróis

V3: o homem que decorou todas as falas

Kamen Rider V3, em 1973, foi o ponto de virada. Pela primeira vez Nakayashiki começava uma série já como titular do herói e precisava construir um personagem do zero, com 25 anos e ainda pouca bagagem. Ele é severo ao lembrar aquele início, dizendo que era travado, que só se mexia do jeito que o Kashira mandava. Foi dentro do V3, no entanto, que se firmou o método que o distinguiria pelo resto da carreira, e que o ator Hiroshi Miyauchi, o rosto de Shirō Kazami, fez questão de revelar ao público numa entrevista muitos anos depois.

"O Tetsu-chan decorava todas as falas do V3 do roteiro e as dizia inteiras dentro da máscara. Eu vivia de cabeça baixa de gratidão."

Hiroshi Miyauchi, o ator de V3

O que Miyauchi descreve tinha menos de excentricidade do que de cálculo. Antes de cada cena falada, os dois combinavam onde o corpo respiraria, em que ritmo cada frase seria dita e em que ponto entraria cada pausa, de modo que a voz gravada mais tarde por Miyauchi encaixasse com exatidão nos gestos de Nakayashiki. Um mesmo personagem, montado por duas pessoas em dias diferentes, precisava chegar à tela como uma coisa só. "Para as crianças, aquele V3 era um só", costuma dizer, e a frase resume o pacto silencioso entre o ator e o intérprete.

Havia também uma convicção que ele carregaria para todos os trajes seguintes. Depois da transformação, o herói passava a ser, para Nakayashiki, uma criatura própria, com um peso e uma física que já não eram os do ator civil. Em vez de copiar os trejeitos de Miyauchi, ele procurava dar ao V3 uma presença inteira, construída de dentro do traje, com um jeito de correr, parar e golpear que fosse do herói e de mais ninguém. Era uma ideia que décadas depois viraria lugar-comum entre os suit actors, mas que naquele momento estava sendo inventada no dia a dia do set, por profissionais que aprendiam na prática, sem manual e sem teoria.

A chaminé, e três quase-mortes

A chaminé de V3 é a imagem que ficou, mas está longe de ser a única vez em que o perigo passou perto. Numa entrevista de 2017, pediram a Nakayashiki que lembrasse as cenas em que sentiu a morte à espreita, e o que impressiona na lista é que nenhuma delas fora planejada como cena de risco. Numa gravação com explosões coordenadas, ele correu, tropeçou e caiu de corpo inteiro exatamente sobre o ponto onde a carga seguinte estava enterrada; escapou porque o técnico de efeitos, num reflexo de frações de segundo, decidiu não apertar aquele botão. Noutra, um salto no mar terminou com uma pancada violenta no flanco, e ele ficou preso embaixo d'água, o corpo sem responder e a água entrando pela máscara, até sentir, nas palavras dele, a força brotar do nada, arrancar a máscara e subir.

"Lembro que primeiro boiei eu, e depois boiou a máscara."

Tetsuya Nakayashiki, sobre o salto no mar em V3

Sobre a chaminé, Nakayashiki fala com a naturalidade dos homens da geração dele. O Kashira e o velho mandaram, então ele fez, e por sorte não tinha medo de altura. Só depois, quando aperta a memória, deixa escapar o tamanho do susto.

"Subir até o topo foi um pavor sem tamanho. Mas 'e se eu cair e morrer' — isso nunca me passou pela cabeça. Eu só pensava no que fazer para alegrar as crianças. No meio do trabalho, a gente entra numa espécie de transe, e o perigo não registra."

Tetsuya Nakayashiki

Os anos em que ele era todo mundo

O período entre 1974 e 1978 é aquele em que a expressão "homem-orquestra" deixa de ser força de expressão. Kamen Rider X, de 1974, foi, por admissão do próprio Nakayashiki, o mais confortável de todos: a série apostava em duelos de armas brancas, terreno de quem se formara na esgrima cênica e no manejo de bastão da Ken'yūkai, e a máscara do X, de desenho mais limpo, deixava enxergar. Kamen Rider Amazon, no fim do mesmo ano, trouxe um revezamento com o veterano Fumiya Nakamura e guarda uma curiosidade pouco lembrada: o "Rochedo de Face Humana", a pedra gigante e falante que guardava os segredos incas da trama, ganhou feições moldadas a partir do próprio rosto de Nakayashiki — de modo que, na única vez em que seu rosto apareceu na série, foi emprestado a uma rocha.

Kamen Rider Stronger, de 1975, fechou a fase e ficou, no depoimento dele, como o traje mais difícil de vestir da era: a máscara enxergava mal, os chifres eram enormes e as ombreiras atrapalhavam cada movimento. E tudo isso convivia com uma agenda que o punha dentro de vários outros heróis ao mesmo tempo. Foi o Aorenger de Gorenger, o robô prateado Skyzel em Kyōdain e, em 1978, o protagonista civil de Red Tiger, a primeira vez em que teve nome no alto dos créditos e apareceu de rosto limpo. Nos primeiros episódios dessa série suas falas eram dubladas por um estreante chamado Tōru Furuya, futuro Amuro Ray de Gundam; a partir do quinto, Nakayashiki exigiu falar com a própria voz. Foi, aos 30 anos, o gostinho de ser ouvido que ele havia perseguido desde os cartazes de menino.

Terceiro Ato
Sair no Auge, Deixar um Método

Skyrider: "usem a gente"

Em 1979, depois de quatro anos sem um Kamen Rider no ar, a Toei decidiu ressuscitar a franquia, e o produtor Tōru Hirayama procurou a Ken'yūkai com um pedido que trazia nome e sobrenome: o Rider tinha de ser o Nakayashiki. O problema é que o Nakayashiki daquele momento andava cansado de máscaras e tinha na mão o convite para um filme de rosto, o tipo de papel que sempre quisera. A Toei insistiu, e ele acabou aceitando, mas a condição que colocou entrou para a memória do grupo, porque o que pôs na mesa não foi cachê, crédito nem conforto.

"Usem a gente — a Ōno Ken'yūkai inteira. Essa é a condição para eu aceitar."

Tetsuya Nakayashiki, sobre voltar como Skyrider

Ele topava voltar a uma máscara de que já estava cansado, desde que os mais jovens do grupo entrassem junto, com trabalho garantido na produção. Era um gesto de chefia que dizia sobre ele mais do que qualquer entrevista: a lealdade ao grupo vinha antes da própria vontade. No set, o herói civil era Hiroaki Murakami, um estreante de 22 anos escolhido entre milhares de candidatos e, como ele, natural de Iwate. Nakayashiki adotou o rapaz, e o carinho durou: numa aparição em rede nacional, décadas depois, Murakami mostraria uma carta que guardava do suit actor e lembraria dos jantares que os veteranos pagavam ao novato.

Super-1: o auge, com um osso quebrado

Kamen Rider Super-1, de 1980, costuma ser apontado como o ponto mais alto de tudo. Quando o mangaká Kenichi Muraeda, autor de Kamen Rider SPIRITS, precisou explicar aos leitores quem era Nakayashiki, escolheu uma frase que virou referência entre os fãs.

"Se você perguntar a várias pessoas qual foi a melhor ação da história de Kamen Rider, acho que todas vão responder: o Nakayashiki no Super-1."

Kenichi Muraeda, autor de Kamen Rider SPIRITS

O próprio Okada, mestre de luta da série, define o Super-1 como a forma final do tate da Ōno Ken'yūkai. E Nakayashiki, tão duro consigo em todas as outras fases, abre aqui uma exceção: diz que corpo e mente estavam no ponto mais maduro, e que já sabia como se mover sem precisar conferir o resultado no copião. Para chegar lá, levou a preparação ao extremo. A produção pediu que ele, Okada e o ator principal treinassem kenpō chinês com um mestre de verdade, para que herói e intérprete civil partilhassem o mesmo vocabulário de golpes; Nakayashiki, não satisfeito, ainda se matriculou num dojô de karatê Gōjū-ryū e quebrou um osso num torneio, em plena série. No filme de Super-1, a fratura ganhou seu detalhe mais improvável: numa única sequência de luta ele aparece dos dois lados, de rosto como o vilão Ryūtarō Ōtora e dentro do traje como o herói, disfarçando o osso quebrado sob uma luva de apoio preta que os fãs de olho treinado reconhecem na tela até hoje.

"Eu entro no Super-1, mas não faço mais um Rider novo"

O fim da era tem data, lugar e uma frase. Em 1984, a Toei preparou o especial de televisão que apresentaria o ZX, décimo Rider da linhagem, e convocou a Ken'yūkai mais uma vez. Todos esperavam a escalação óbvia. Foi Okada quem levou ao jovem Mitsutoshi Shiroya o recado que encerrava treze anos de história.

"O Nakayashiki disse: 'no Super-1 eu entro, mas Rider novo eu não faço mais'. Shiroya, só sobrou você."

Masaru Okada, transmitindo o recado

Vale reparar no cuidado da recusa. Nakayashiki não abandonou o especial: aparece nele o tempo todo, de rosto, como um dos vilões. O que declinou foi vestir um Rider inédito, e ainda assim fez questão de um gesto que nenhum contrato exigia — ofereceu-se para encarnar, uma última vez, o Super-1, o papel do auge, aquele que não passava a ninguém. Foi a despedida que escolheu para si: encerrar sua passagem pela franquia de dentro do trabalho que considerava o seu melhor.

Tetsuya Nakayashiki hoje, segurando uma figura de Kamen Rider
Nakayashiki hoje, entre as memórias do ofício. Aos 78 anos, sem redes sociais e sem agência, ainda aparece quando o chamam — e refaz, para cada fã, a pose de transformação que ajudou a eternizar.

Depois da máscara

Aos 36 anos, tendo sido praticamente todos os heróis da televisão japonesa, Nakayashiki voltou ao ponto de partida: o jidaigeki, o teatro de espadas que dava nome à Ken'yūkai. Virou freelancer e fez do EDO WONDERLAND, o parque temático em Nikkō que reconstrói o Japão dos samurais, sua casa artística por décadas, atuando de rosto limpo, espada na mão, diante de plateias que não faziam ideia de quem era aquele senhor elegante. Na televisão, tornou-se um daqueles rostos que o público de dramas de época reconhece sem saber o nome, com pontas em produções como Ryōma ga Yuku e no taiga Sanga Moyu, da NHK. Em 2001, a Toei lhe prestou uma homenagem discreta e certeira: no episódio 28 de Kamen Rider Agito, o herói precisa de ajuda com a moto e quem aparece é um velho dono de oficina, reumático e resmungão, que solta uma frase de quem entende do assunto — olhando a moto, dá para saber como é o dono. O homem que fora o Kamen Rider por treze anos voltava à franquia como o mecânico que cuida das motos dos Riders.

O homem que odiava esconder o rosto

Toda carreira longa guarda um nó difícil de desatar, e o de Nakayashiki está na distância entre o que ele queria e aquilo que fez. Sonhava em ser ator de rosto, ver o próprio nome em cartazes como os que rabiscava quando menino, e terminou passando a vida emprestando o corpo a heróis que o público jamais associaria a ele. Diante desse desencontro, entregou-se ao trabalho com uma seriedade rara. Decorava falas que ninguém ouviria na sua voz, ajustava a respiração para servir a um ator que levaria os créditos, subia numa chaminé de cinquenta metros para arrancar o espanto de crianças que nunca saberiam seu nome — e fazia tudo isso, ano após ano, tratando como ofício aquilo que, no fundo, teria preferido não estar fazendo.

"Um Kamen Rider nato. A postura parada dele já era o personagem."

Hiroo Kawarasaki, colega da Ōno Ken'yūkai

O reconhecimento acabou chegando pela via mais silenciosa possível. Meio século depois, quando alguém em qualquer canto do planeta imita um Kamen Rider — o tronco firme, o braço cortando o ar, o grito de transformação —, está repetindo, sem saber, os gestos de um homem nascido em Kuji, no norte de Iwate, que teria preferido estar fazendo outra coisa. "Na nossa época, ninguém sonhava com isso", ele diz dos suit actors de hoje. Foi justamente o cuidado que pôs num trabalho que não escolheu para si que transformou esse ofício em algo com que, agora, se pode sonhar.

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Tetsuya Nakayashiki 中屋敷哲也 (n. 1948). Perfil apurado em agosto de 2026 a partir de fontes japonesas — entrevistas do próprio ator e depoimentos de colegas sobre sua trajetória como o suit actor dos Kamen Riders da era Showa.