Mais de duas décadas depois da morte de Shogo Shiotani — o ator que deu rosto ao herói Marte em "Cybercop, os Policiais do Futuro" e integrou o elenco de duas séries da franquia Ultraman —, amigos, colegas de elenco e fãs de tokusatsu ainda tentam entender por que ele decidiu tirar a própria vida sem deixar uma explicação.
TÓQUIO — Na manhã de 5 de maio de 2002, um homem de 35 anos caiu de um prédio na região de Dogenzaka, no bairro de Shibuya, em Tóquio. Não havia bilhete de despedida. Não havia, segundo todos os relatos reunidos nos anos seguintes, uma explicação clara para o que o havia levado até ali.
O homem era Shogo Shiotani, um ator nascido em Osaka que, uma década e meia antes, havia se tornado uma pequena celebridade do gênero tokusatsu — o cinema e a televisão japoneses de heróis fantasiados, monstros de borracha e efeitos práticos — ao interpretar Akira Hojo, codinome Marte, um dos líderes de uma equipe policial futurista na série Dennou Keisatsu Cybercop, exibida no Japão entre 1988 e 1989 e no Brasil, pela Rede Manchete, como "Cybercop, os Policiais do Futuro". Ele também apareceu como o alienígena Zala em Ultraman Tiga (1996) e como o membro da equipe Falcon, Koichi Hayashi, em Ultraman Gaia (1998–1999).
Sua morte não foi manchete nos grandes jornais japoneses — ao menos não em nenhum registro que sobreviveu à indexação da web. O que sobrou dela está espalhado por um blog de um diretor que o considerava amigo, por fóruns de fãs de tokusatsu que discutiam, dias depois, se ele havia morrido "de doença ou acidente", por uma reportagem de homenagem em uma revista de nicho e por um funeral que reuniu, entre outros, o astro Hideaki Ito e o veterano das artes marciais no cinema Sonny Chiba. É uma biografia reconstruída em fragmentos — e o fragmento mais consistente de todos é que ninguém que fale sobre Shiotani hoje afirma saber, com certeza, por que ele morreu.
De Osaka aos estúdios de ação
Shiotani nasceu em 11 de setembro de 1966, na Prefeitura de Osaka. Media 1,87 m, pesava cerca de 85 kg e tinha faixa marrom em caratê kyokushin, além de saber equitação e andar de skate — um físico e um repertório de habilidades que se tornariam sua marca registrada no cinema de ação. Ainda jovem, ingressou na 15ª turma da Japan Action Club (JAC), a escola de dublês e atores de ação fundada por Sonny Chiba que formou boa parte de uma geração de intérpretes do gênero tokusatsu e de filmes de artes marciais no Japão. Mais tarde, passou a ser representado pela agência Spice.
Sua carreira diante das câmeras começou em 1986 e, ao longo de quinze anos, somou cerca de duas dezenas e meia de créditos em cinema, televisão e vídeo — de dramas de ação a produções V-cinema, incluindo o filme Hakken, dirigido pelo próprio Sonny Chiba, no qual Shiotani assinou suas próprias cenas de luta.
O nascimento de Marte
Foi em "Cybercop, os Policiais do Futuro", porém, que Shiotani encontrou o papel que definiria sua carreira e, segundo praticamente todos os que escreveram sobre ele depois de sua morte, o papel ao qual permaneceu emocionalmente ligado até o fim. Na série, ele interpretava Akira Hojo — codinome Marte, como o herói ficou conhecido na dublagem brasileira da Rede Manchete —, um ex-hacker redimido que se torna o líder disciplinado da equipe de "Bit Suits" da polícia do futuro, ao lado de colegas batizados na versão brasileira como Júpiter, Saturno e Mercúrio. Marte era descrito pela produção como alguém "calmo e comedido, que não deixa o sentimentalismo interferir no cumprimento da missão".

Como muitos atores formados pela JAC daquela geração, Shiotani não se limitava a atuar: também executava as próprias acrobacias. Durante as filmagens do sétimo episódio da série, fraturou o pulso esquerdo — e, segundo relatos preservados sobre a produção, continuou trabalhando. Apaixonado por modelismo, chegou a fabricar pessoalmente peças do figurino do herói, incluindo componentes com iluminação eletrônica embutida. Sua insistência em atuar com o rosto mais exposto teria contribuído para uma característica visual da série: a remoção parcial do visor do capacete, permitindo que suas expressões faciais aparecessem em cena — um detalhe incomum para o gênero tokusatsu da época, no qual o rosto do herói costuma ficar oculto atrás de um capacete fechado.

Nos anos seguintes, Shiotani voltaria ao universo dos heróis de borracha e metal em duas ocasiões: como o alienígena antagonista Zala em Ultraman Tiga (1996) e, entre 1998 e 1999, como Koichi Hayashi, membro da equipe Falcon do esquadrão XIG em Ultraman Gaia — trabalhando ao lado do ator Takashi Ukaji, que interpretava o comandante Tsutsumi, e com quem manteria uma relação de amizade que ecoaria, de forma indireta, nos meses seguintes à sua morte.
Depois de Gaia, porém, os papéis de destaque começaram a rarear. Nos últimos anos de sua vida, Shiotani apareceu majoritariamente em participações e pontas, sem voltar a assumir um protagonismo como o de Marte. Alguns retrospectos publicados anos depois de sua morte especulam que essa estagnação profissional possa tê-lo afetado emocionalmente — mas, como se verá adiante, essa é uma hipótese que carece de qualquer confirmação por parte de familiares, empresários, colegas próximos ou das próprias fontes contemporâneas à sua morte.
O reencontro
Por volta do ano 2000, Shiotani reencontrou Kazuya Hatazawa, diretor da série tokusatsu Jikuu Keisatsu Wecker e, segundo o próprio Hatazawa relataria anos depois em seu blog, um amigo pessoal de longa data. Os dois tinham a mesma idade, eram originários da região de Kansai e compartilhavam a paixão pelo gênero. Naquele reencontro, discutiram a possibilidade de reviver "Cybercop" e de desenvolver novos projetos juntos. Hatazawa se lembraria de um Shiotani ainda cheio de entusiasmo pelo papel de Marte e pelo tokusatsu em geral — nada, em sua descrição, sugeria alguém prestes a desistir da vida.
Os compromissos de cada um, no entanto, foram adiando o próximo encontro.
"Na vez seguinte em que o encontrei, ele estava dentro de um caixão frio."
Kazuya Hatazawa, diretor e amigo — em seu blog5 de maio de 2002
Shiotani morreu por suicídio, ao cair de um prédio na região de Dogenzaka, em Shibuya, aos 35 anos. É essa a versão dos fatos que aparece, de forma consistente, tanto em bases de dados japonesas sobre falecimentos de figuras públicas quanto no relato do próprio Hatazawa, publicado anos depois:
"Em 5 de maio de 2002, Shogo Shiotani, deixando mistérios que permanecem até hoje, morreu por suicídio após uma queda."
Kazuya HatazawaSegundo o diretor, o amigo parecia ter uma expressão tranquila — quase um sorriso — quando o viu, pela última vez, dentro do caixão. Hatazawa afirmou ter ficado tão abalado que evitou rever "Cybercop" por cerca de sete anos, guardando fitas, brinquedos e lembranças relacionados a Shiotani e à série antes de conseguir voltar a falar publicamente sobre o amigo.
Nenhuma fonte consultada para este perfil — contemporânea ou posterior — indica a existência de uma carta de despedida ou de uma explicação divulgada pela família, por representantes ou pela polícia. Um retrospecto japonês publicado décadas depois resume o que parece ser o consenso disponível:
"Não havia carta de despedida nem nada do tipo, e o motivo também não está claro."
Retrospecto japonês, anos depoisA notícia parece ter circulado de forma discreta a princípio. Registros de discussões entre fãs de tokusatsu na época — preservados e posteriormente reproduzidos em sites especializados — sugerem que mesmo pessoas próximas ao universo das séries em que Shiotani atuou levaram dias para confirmar as circunstâncias de sua morte, perguntando inicialmente se ele havia sido vítima de doença ou acidente. Esse tipo de fonte, oriunda de fóruns antigos e hoje difícil de verificar em sua forma original, deve ser tratado com a devida cautela — mas é consistente com outro fato bem estabelecido: a morte de Shiotani não parece ter recebido grande cobertura na imprensa generalista japonesa, permanecendo memorializada, sobretudo, dentro dos círculos de tokusatsu, da JAC e de seus amigos pessoais.
O funeral
O funeral de Shiotani teria ocorrido em 10 de maio de 2002, cinco dias após sua morte, no crematório e casa funerária Yoyohata Saijo, em Shibuya. Relatos da época — reproduzidos por sites japoneses de memória sobre o ator — indicam a presença de antigos colegas da JAC, do ator Hideaki Ito, com quem Shiotani teria mantido uma amizade próxima, e do ator Shuji Kashiwabara. O mesmo tipo de relato menciona a presença de Sonny Chiba, fundador da JAC e diretor com quem Shiotani havia trabalhado.
"É triste reencontrar os rostos de antigos companheiros justamente em um funeral."
Frase atribuída a alguém presente na cerimôniaEsses detalhes — nomes, local e data do funeral — aparecem em registros que remontam a poucos dias após a cerimônia, o que lhes confere um grau razoável de credibilidade, ainda que não substituam uma cobertura jornalística contemporânea que possa ser hoje consultada diretamente.
Uma homenagem na revista BURST

Cerca de dois meses após a morte de Shiotani, a revista japonesa Burst — uma publicação de contracultura da editora Core Magazine — teria dedicado quatro páginas de sua edição de julho de 2002 a uma entrevista de homenagem com um amigo próximo do ator, identificado como Hiro. Segundo relatos de leitores da época, a matéria não apresentava uma causa objetiva para o suicídio, mas descrevia quem era Shiotani fora das telas: um homem fisicamente dedicado ao treinamento, leal e protetor com os amigos homens, competitivo, por vezes impulsivo e, segundo o entrevistado, alguém que "nunca falava mal de ninguém".
Este perfil não teve acesso direto e independente ao conteúdo integral dessa reportagem, e por isso trata seu conteúdo como uma fonte secundária relevante, mas não definitiva. Vale registrar, no entanto, um dado relatado por leitores da época: a publicação não parece ter atribuído a morte de Shiotani a frustrações profissionais — ao contrário de teorias que circulariam informalmente muitos anos depois. Também consta, entre relatos associados a esse período, que o ator Takashi Ukaji — colega de elenco em "Ultraman Gaia" — teria escrito, em seu próprio site, sobre a perda de um ator mais jovem de quem gostava, sem compreender por que ele havia decidido morrer. Esse relato específico não pôde ser confirmado neste perfil a partir da fonte primária.
As teorias
Anos mais tarde — em um texto datado de 2006 publicado no site japonês Rondan —, surgiu uma versão bem mais sensacionalista da morte de Shiotani, associando-a a um suposto conflito envolvendo um ex-prefeito japonês, acusações de intermediação de jovens atores e um bar da noite de Tóquio. Esse mesmo texto é a origem de um rumor específico que circulou depois em blogs e fóruns: o de que o corpo de Shiotani teria sido encontrado a cerca de 15 metros de distância da base do prédio, o que teria alimentado especulações de que sua morte não teria sido, de fato, um suicídio.
Há um problema sério com essa versão: o próprio texto de 2006 contém uma incoerência cronológica. Ele situa o suposto conflito entre Shiotani e o ex-prefeito no período entre o fim de 2002 e o início de 2003 — ou seja, meses depois de Shiotani já estar morto, uma vez que seu falecimento ocorreu em maio de 2002. Essa contradição interna compromete seriamente a credibilidade da fonte e, por extensão, de todas as alegações mais graves associadas a ela, incluindo a distância de 15 metros, sugestões de envolvimento com drogas e qualquer insinuação de homicídio.
Não foi localizado, para a elaboração deste perfil, nenhum relatório policial, reportagem jornalística contemporânea, testemunha identificada ou documento oficial que sustente essas versões. A avaliação mais responsável, à luz do que está disponível publicamente, é a de que não existe hoje uma base factual sólida para tratar a morte de Shiotani como algo além do que amigos próximos, como Hatazawa, sempre descreveram: um suicídio cujas razões nunca foram esclarecidas.
O que permanece, mais de duas décadas depois, é a imagem de um ator lembrado com afeto por quem trabalhou com ele — alguém fisicamente destemido o bastante para quebrar o pulso em cena e continuar atuando, dedicado o bastante para fabricar à mão peças do próprio figurino, e querido o bastante para reunir, cinco dias depois de sua morte, colegas de gerações diferentes em um funeral em Shibuya. E permanece também a pergunta que Kazuya Hatazawa registrou por escrito, anos depois de guardar as fitas de "Cybercop" numa gaveta que não conseguia abrir: a de que Shogo Shiotani partiu "deixando mistérios que permanecem até hoje".
Sobre a razão final que o levou àquele prédio em Dogenzaka na manhã de 5 de maio de 2002, o registro histórico disponível hoje é o mesmo que era em 2002: silêncio.
Shogo Shiotani (1966–2002). Perfil reconstruído em fragmentos: o blog do diretor Kazuya Hatazawa, a homenagem da revista BURST (jul. 2002), bases de dados japonesas e relatos de fãs de tokusatsu. Papéis: Cybercop (1988–89), Ultraman Tiga (1996), Ultraman Gaia (1998–99).
Se você ou alguém que você conhece está passando por sofrimento emocional, procure ajuda. No Brasil, o CVV atende 24h pelo telefone 188 e em cvv.org.br.