Entrevista 02 · Exclusivo

EXCLUSIVO: Shirakura fala sobre o futuro de Super Sentai, os planos do PROJECT R.E.D. e o filme brasileiro de Jaspion

Shinichiro Shirakura · Executivo sênior da Toei e produtor-chefe das produções audiovisuais da empresa · 28 jul 2026

Shinichiro Shirakura
Entrevista exclusiva do Kyoudai Express, realizada com o apoio da Toei.

Um dos nomes mais influentes do tokusatsu moderno conversa com o Kyoudai Express sobre o fim do ciclo anual de Super Sentai, a nova marca PROJECT R.E.D. e o filme brasileiro de O Fantástico Jaspion.

Shinichiro Shirakura ao lado de Jaspion e de um herói vermelho do PROJECT R.E.D.
Jaspion no PROJECT R.E.D.? O executivo brincou com a possibilidade durante a conversa · arte: divulgação

Entrevista com Shinichiro Shirakura

Kyoudai Express: Ao longo de sua carreira, o senhor trabalhou em inúmeras produções de heróis. Quando começa a planejar uma nova obra, qual é a primeira coisa em que pensa: "que tipo de herói criar", "que tipo de história contar" ou "para quem essa obra será destinada"? Essa maneira de pensar mudou em comparação com sua juventude?

Shinichiro Shirakura

A primeira coisa que faço é elaborar uma lista das "condições exigidas por aquele projeto". Entre as alternativas apresentadas, acredito que "para quem a obra será destinada" seja a mais próxima.

Depois disso, penso na imagem do herói e na história que correspondam às condições exigidas.

Essa maneira de desenvolver projetos não mudou desde a minha juventude. Entretanto, naquela época, as condições eram mais simples. Não sei se isso acontece porque adquiri mais experiência ou porque perdi parte do ímpeto que possuía quando era jovem, mas sinto que as condições se tornaram progressivamente mais complexas, tornando o trabalho mais difícil.

Kyoudai Express: Entre as obras nas quais o senhor trabalhou, houve alguma ideia que inicialmente enfrentou forte oposição dentro da empresa ou entre as pessoas envolvidas, mas que acabou se tornando um ponto de transformação para a franquia?

Shinichiro Shirakura

Quando propusemos para Kamen Rider Ryuki (2002) a ideia de "13 Kamen Riders lutando e matando uns aos outros", não houve uma única pessoa que concordasse com ela.

Além de ter sido um sucesso comercial, a obra provocou um impacto muito forte na sociedade. Acredito que, de diversas maneiras, ela acabou definindo os rumos que a franquia Kamen Rider seguiria posteriormente.

Kyoudai Express: Os lugares nos quais as gerações mais jovens entram em contato com conteúdos estão muito mais fragmentados atualmente, incluindo televisão, serviços de streaming, YouTube, vídeos curtos nas redes sociais e jogos. Em sua opinião, como a maneira pela qual as crianças e os jovens assistem às produções de heróis mudou em comparação com o passado?

Shinichiro Shirakura

Não apenas nas produções de heróis, mas em qualquer obra de gênero, é necessário que o público possua certo grau de familiaridade e compreensão das convenções daquele gênero.

Por exemplo, para que alguém experimente a catarse de uma história na qual "o herói enfrenta dificuldades e depois vence", é necessário que o espectador já conheça previamente a estrutura narrativa básica: "surge um inimigo poderoso → o herói enfrenta dificuldades → o herói vence".

Esse tipo de familiaridade vem diminuindo a cada ano. Tenho a impressão de que está aumentando o número de espectadores que considera o "trecho em que o herói enfrenta dificuldades" uma perda de tempo.

Kyoudai Express: Achei muito marcante sua observação de que está aumentando o número de espectadores que considera as cenas em que o herói enfrenta dificuldades uma perda de tempo. Diante desse público, as produções deveriam mudar a gramática e a estrutura das histórias? Ou deveriam reencontrar uma nova maneira de transmitir a graça e a catarse de superar as dificuldades e vencer?

Shinichiro Shirakura

A maneira de construir as obras e as histórias deve mudar de acordo com a época e as preferências do público. Indo além, o ideal é antecipar-se ao próprio público, inventar formas de criar que ainda não existiam e liderar o seu tempo.

Kyoudai Express: Existe algo sobre as crianças e os jovens espectadores atuais que, em sua opinião, seja mal compreendido pela indústria televisiva ou pelos adultos? Caso alguma reação real do público tenha contrariado suas expectativas, poderia nos contar essa experiência?

Shinichiro Shirakura

Isso não acontece apenas atualmente. A indústria televisiva e os adultos sempre tendem a acreditar que uma "pessoa justa e correta" conquistará o apoio do público.

Entretanto, ao observarmos as reações, percebemos que aquilo que as crianças e os espectadores procuram parece ser uma "pessoa atraente e fascinante", independentemente de ela representar o bem ou o mal: alguém forte, interessante, bonito ou cheio de energia e ímpeto.

Kyoudai Express: Entre as crianças e suas famílias, os fãs de longa data, os jovens que não estão familiarizados com o tokusatsu e os espectadores estrangeiros, a qual desses públicos a Toei pretende alcançar especialmente com suas futuras produções de tokusatsu? Que tipos de pontos de contato pretende ampliar para alcançar esse objetivo?

Shinichiro Shirakura

Pretendemos separar "as crianças e suas famílias", "os fãs de longa data" e "os jovens que não estão familiarizados com o tokusatsu e os espectadores estrangeiros", oferecendo obras diferentes para cada um desses públicos.

Especialmente para "os jovens que não estão familiarizados com o tokusatsu e os espectadores estrangeiros", pretendemos oferecer principalmente filmes.

As produções de tokusatsu da Toei sempre tiveram as séries de televisão como seu eixo central. Entretanto, assistir a um único filme e compreender por meio dele o que torna aquela obra interessante representa uma barreira de entrada menor do que assistir aos 50 episódios produzidos durante um ano inteiro.

Kyoudai Express: Com No. 1 Sentai Gozyuger, a série televisiva anual de Super Sentai chegou a um ponto de interrupção. Por que essa decisão se tornou necessária neste momento? Entre "encerramento", "pausa" e "um período para renascer sob uma nova forma", qual seria a maneira mais adequada de compreender a situação de Super Sentai? Poderia também explicar quais condições seriam necessárias para que a franquia retornasse futuramente com uma nova produção?

Shinichiro Shirakura

O modelo de negócios de Super Sentai possui uma característica específica: "somente a produção nova é forte". Nesse aspecto, ele é diferente da franquia Kamen Rider, cujas obras e personagens do passado continuam populares durante muito tempo.

Como o negócio inevitavelmente acaba se limitando a um fenômeno passageiro, restrito a um único ano, não é possível elaborar um plano de desenvolvimento de médio ou longo prazo que abranja vários anos. Consequentemente, existem limites para o crescimento da franquia como marca.

Quando acumularmos conhecimento por meio das tentativas e experiências do PROJECT R.E.D. e encontrarmos maneiras de superar essas limitações, acredito que estarão criadas as condições para o retorno de Super Sentai.

No entanto, penso que esse retorno acontecerá sob uma forma diferente daquela do Super Sentai tradicional. Nesse sentido, acredito que seja correto afirmar que o momento atual representa um período para que Super Sentai renasça sob uma nova forma.

Kyoudai Express: O PROJECT R.E.D. nasceu para enfrentar quais desafios e experimentar quais formas de expressão que seriam difíceis de realizar dentro dos modelos tradicionais de Super Sentai e Kamen Rider?

Shinichiro Shirakura

Em primeiro lugar, queremos criar uma variedade maior de propriedades intelectuais de heróis.

A Toei se orgulha de possuir experiência e competência na produção de programas de heróis. Na prática, entretanto, produzimos essencialmente apenas duas franquias: Super Sentai e Kamen Rider. As produções de heróis possuem possibilidades muito mais amplas, e pretendemos explorá-las.

Em segundo lugar, queremos romper com o sistema tradicional de produção de programas que a Toei manteve durante várias décadas: o ciclo de um ano, ao final do qual tanto o universo da obra quanto seus personagens são completamente reiniciados.

Pretendemos criar um novo universo de heróis, diferente também do MCU.

Kyoudai Express: Dentro do PROJECT R.E.D., existe a possibilidade de que o formato mude radicalmente de uma obra para outra, incluindo heróis individuais, vários heróis, robôs gigantes e até gêneros diferentes dos Policiais do Espaço? Por outro lado, qual seria o elemento central compartilhado por todas essas produções?

Shinichiro Shirakura

A missão atribuída ao PROJECT R.E.D. é justamente modificar radicalmente o formato de uma obra para outra.

Entretanto, se tudo for excessivamente diferente, as produções poderão ficar fragmentadas demais e perder a unidade necessária para constituir uma única marca.

Por esse motivo, estabelecemos como elemento comum algo herdado de Super Sentai: "um personagem vermelho ocupando a posição central" — embora "R.E.D." não signifique propriamente a cor vermelha.

Kyoudai Express: O novo universo de heróis que o PROJECT R.E.D. pretende construir prevê que as obras se conectem no nível da narrativa, com personagens de diferentes produções aparecendo e se cruzando entre si? Ou trata-se de desenvolver obras independentes, cada uma por si, reunidas sob um pensamento e uma marca em comum?

Shinichiro Shirakura

Trata-se de crossovers, em que personagens de obras diferentes se cruzam, mas isso não significa necessariamente que estejam conectados no nível da narrativa, como acontece no MCU. É justamente nesse ponto que buscamos uma forma nova.

Kyoudai Express: Que tipo de resultado ou de reação do público o senhor precisaria observar para concluir que o PROJECT R.E.D. está seguindo na direção certa e que as condições para ressuscitar Super Sentai sob uma nova forma estão reunidas?

Shinichiro Shirakura

No mínimo, a condição essencial é alcançarmos um estágio em que nós próprios sintamos que estamos conseguindo criar obras de heróis realmente novas, que não existiam antes, e que construímos uma estrutura de produção capaz de entregar imagens inéditas, que não existem em nenhum outro lugar do mundo.

Kyoudai Express: Foi noticiado que a Sato Company, no Brasil, está planejando e desenvolvendo um filme baseado em O Fantástico Jaspion e que mantém conversas com a Toei a respeito do roteiro. De que maneira o senhor está envolvido nesse projeto?

Shinichiro Shirakura

Quando o projeto foi iniciado, visitei o Brasil e mantive discussões aprofundadas com a equipe da Sato Company.

Atualmente, apenas recebo relatórios sobre o andamento do projeto, portanto minha participação é somente indireta. Entretanto, quando o projeto avançar significativamente, gostaria de visitar o Brasil novamente.

Seria interessante se ele também pudesse ser relacionado ao PROJECT R.E.D.... embora Jaspion não seja vermelho.

Kyoudai Express: No caso de uma adaptação cinematográfica brasileira de O Fantástico Jaspion, quais seriam, em sua opinião, os elementos ou princípios essenciais que precisam necessariamente ser preservados para que a obra continue sendo Jaspion?

Shinichiro Shirakura

Acho que o ideal é justamente não se prender necessariamente ao Jaspion original e criar com liberdade.

Afinal, o próprio original também nasceu da incorporação ávida dos elementos considerados interessantes na época — tomando como base a série de Policiais do Espaço que o antecedeu, mas também à luz de Star Wars, de Ultraman, dos filmes de kung fu e do chamado boom da JAC (o Japan Action Club, que de fato existia então).

Kyoudai Express: No Brasil, diversas produções de tokusatsu da Toei já são distribuídas e disponibilizadas oficialmente por meio da Sato Company e de outras empresas. Existe a possibilidade de ampliar essas parcerias, possibilitando lançamentos em períodos mais próximos aos do Japão, a distribuição contínua de novas produções, legendas e dublagens destinadas ao público local e até futuras coproduções?

Shinichiro Shirakura

Continuaremos nos empenhando para que as novas produções japonesas possam ser assistidas regularmente no Brasil.

O objetivo é ampliar a escala dos negócios, mas fazemos isso para que seja possível produzir obras mais ricas e ambiciosas.

Por meio do projeto de Jaspion, começamos a perceber que o Brasil também possui muitos criadores extremamente talentosos.

Se o Brasil e o Japão puderem unir forças por meio de uma coprodução e criar uma obra capaz de surpreender o mundo inteiro, não poderia haver alegria maior para nós.

Jaspion e o herói vermelho do PROJECT R.E.D. lado a lado
A nova marca reúne produções protagonizadas por heróis vermelhos, com mundos que podem se cruzar entre dimensões · arte: divulgação

Entrevista exclusiva Kyoudai Express, concedida por Shinichiro Shirakura com o apoio da Toei. Reprodução mediante crédito e link para esta página.

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