Reportagem · Metal Hero
Quando os heróis erravam: o raro mangá de Shocker Ohno que revelou os bastidores do tokusatsu

Antes de ocupar estádios, parques temáticos e grandes eventos, o tokusatsu também viveu em palcos improvisados, lojas de departamentos e centros comerciais. Nesses lugares, frequentemente havia poucos atores, orçamento reduzido, figurinos desgastados e quase nenhuma margem para erros. Mesmo assim, diante de uma plateia de crianças, o herói precisava aparecer, derrotar os monstros e preservar a ilusão.
É justamente esse universo que está no centro de ショッカーO野の熱血ヒーロー日記, romanizado como Shocker Oono no Nekketsu Hero Nikki. Seu título pode ser traduzido aproximadamente como O Diário Ardoroso dos Heróis de Shocker Oono. Para a edição brasileira, a obra recebeu o título O Bombástico Diário dos Heróis por Shocker Ohno.
Publicado no Japão em 1989, o mangá é difícil de classificar. Não é exatamente uma aventura de super-heróis, tampouco uma história convencional sobre os bastidores da televisão. É um relato autobiográfico e profissional em quadrinhos, marcado pelo humor, sobre as pessoas que vestiam as fantasias, executavam as quedas, organizavam os espetáculos e improvisavam quando alguma coisa inevitavelmente dava errado.
Quem é Shocker Ohno?
O nome verdadeiro de Shocker Ohno é Hiroshi Oono. Seu nome artístico aparece romanizado de diferentes formas, como Shocker Oono, Shocker Ohno e Shocker OH!NO!.
De acordo com seu perfil oficial, Oono trabalhou, ainda estudante, como stuntman auxiliar ligado à Oono Kenyukai e ao Japan Action Club. Participou de produções das famílias Kamen Rider, Super Sentai e Uchuu Keiji, conhecidas no Brasil principalmente por séries como Jaspion, Changeman e os Policiais do Espaço.
Entre seus trabalhos estão participações como Crusher em Uchuu Keiji Gavan, Fightlow em Uchuu Keiji Sharivan, Mecha Clone em Choudenshi Bioman, Shitoppei em Kagaku Sentai Dynaman, Madaraman e Imperador Taboo em Dai Sentai Goggle V, além de Dustler em Denshi Sentai Denziman. Oono também interpretou o monstro Kamagirigan e um Combatroid no especial Nascimento do Décimo! Kamen Rider Todos Juntos!!.
Esses trabalhos ajudam a compreender a perspectiva do mangá. Oono não era um jornalista observando os bastidores de fora. Ele conhecia a experiência física de atuar sob máscaras, vestir fantasias quentes e pesadas, cair no chão repetidas vezes e interpretar criaturas quase anônimas que existiam para serem derrotadas pelo herói.
Mais tarde, trabalhou como escritor de rádio, apresentador, produtor de televisão e eventos, diretor, coreógrafo de ação e empresário de talentos. Também foi manager de Shotaro Ishinomori, criador de Kamen Rider, que lhe deu o nome artístico Shocker Oono.
Em sua bibliografia oficial, o mangá aparece ao lado de livros e colunas como Rider Kick wa Itakatta, algo como O Rider Kick Doía, Tokusatsuman Genba Houkoku, As Pessoas que Sustentaram os Defensores da Justiça e O Homem Modificado Segue em Frente Hoje. Os próprios títulos revelam uma preocupação recorrente: mostrar as pessoas comuns escondidas por trás da iconografia heroica.
Os bastidores dos shows de heróis
Uma das melhores descrições japonesas disponíveis está no pedido de republicação publicado pelo Fukkan.com. Segundo o texto, o mangá percorre desde os grandes espetáculos realizados em locais como o parque de diversões de Korakuen até apresentações itinerantes conduzidas por uma equipe de apenas três pessoas.
Essa informação é fundamental para entender a verdadeira natureza do livro. Embora ele dialogue com as séries televisivas da Toei e utilize experiências de profissionais que atuaram nelas, seu centro de gravidade parece estar nos shows de heróis ao vivo, conhecidos no Japão como attraction shows ou character shows.
Nessas apresentações, a logística era muito diferente de uma filmagem televisiva. Não havia montagem para esconder erros, repetir cenas ou substituir imediatamente um ator. O elenco precisava representar heróis, monstros e soldados inimigos com poucos integrantes. Algumas pessoas trocavam de fantasia várias vezes durante o mesmo espetáculo. O som era pré-gravado ou operado localmente, e qualquer falha precisava ser resolvida diante do público.
O texto do Fukkan compara a obra a uma versão em quadrinhos de Rider Kick wa Itakatta. O título não celebrava somente as façanhas dos heróis, mas também os tombos, o cansaço, os figurinos, as viagens, a precariedade e a capacidade de improvisação dos profissionais.
Um leitor japonês que trabalhou com shows de ação escreveu que o livro lhe ensinou a postura profissional e a maneira correta de encarar esse tipo de trabalho. Outro recordou que, mesmo sem soldados rasos suficientes para compor o exército dos vilões, as equipes apresentadas no mangá encontravam soluções para realizar o espetáculo.
Esses comentários sugerem que a obra funcionou não apenas como entretenimento, mas quase como um manual informal de sobrevivência para atores de ação. O conhecimento não aparece na forma de instruções técnicas convencionais. Ele é transmitido por meio de histórias sobre erros, dificuldades e soluções improvisadas.
Humor, acidentes e improvisação
Parte da riqueza do mangá está nas pequenas histórias que sobreviveram na memória de leitores japoneses.
Uma delas envolve um espetáculo em uma loja de departamentos no qual, por um erro de organização, Gavan não poderia aparecer. A informação teria sido comunicada ao público, mas as crianças e familiares não se acalmaram. Por fim, um funcionário administrativo da loja precisou subir ao palco e declarar: “Pedimos desculpas a todos. O Gavan realmente não virá.”
A lembrança foi publicada por um leitor japonês que afirma ter comprado o mangá e conservar seu exemplar na casa dos pais. Como se trata de uma recordação pessoal, e não da reprodução digital da página, o episódio deve ser tratado com cautela.
Ainda assim, a história sintetiza perfeitamente a comicidade da obra. De um lado está a promessa mitológica do herói, alguém capaz de atravessar o espaço para defender a Terra. Do outro está a realidade burocrática de uma apresentação comercial, na qual um funcionário precisa explicar que o personagem simplesmente não poderá comparecer.
Outra lembrança associada ao livro conta que Sharivan e Shaider, depois de derrotarem os inimigos, teriam deixado o local de braços dados e quase saltitando, quebrando de maneira cômica a postura solene dos dois Policiais do Espaço. A história reapareceu em uma discussão japonesa do Hero News sobre antigos shows de tokusatsu.
Há também uma referência curiosa ao grito katsudon, uma porção!. Ao analisar o episódio 29 de Uchuu Keiji Shaider, um blog japonês afirma que a explicação para o uso dessa frase nos bastidores das produções da Toei pode ser encontrada em Nekketsu Hero Nikki.
A menção aparece no blog Darupen, que recomenda consultar o livro para conhecer a história completa. Aparentemente, a expressão era utilizada como uma indicação sonora ou grito de referência durante as gravações, ilustrando o tipo de solução informal que se tornava parte da cultura interna das equipes.
Isoladas, essas anedotas podem parecer apenas piadas internas. Reunidas, porém, revelam o valor documental do mangá. O livro preserva uma cultura profissional transmitida oralmente entre atores, assistentes, diretores de ação e organizadores de eventos. São histórias que dificilmente seriam registradas nos materiais promocionais oficiais das séries.
A possível ligação com a revista Animec
O perfil oficial de Shocker Oono relaciona separadamente o livro e a coluna Tokusatsuman Genba Houkoku, cujo título pode ser traduzido como Relatório de Campo de um Homem do Tokusatsu, publicada na revista Gekkan Animec.
Leitores japoneses descrevem o mangá como uma obra herdada dessa conhecida série de artigos. É possível, portanto, que parte do material tenha origem nas experiências e relatos publicados anteriormente na revista.
A natureza exata dessa relação, contudo, permanece incerta. As fontes disponíveis não esclarecem se o mangá é uma adaptação direta da coluna, uma seleção de casos, uma continuação ou um projeto inteiramente reescrito.
Como a revista Animec deixou de circular em 1987 e o volume foi publicado em 1989, a hipótese de reaproveitamento ou reelaboração do material é cronologicamente plausível. Entretanto, ela não deve ser apresentada como fato definitivo sem acesso ao prefácio, ao posfácio ou a uma declaração direta dos autores.
Da mesma forma, a divulgação brasileira descreve a obra como baseada em um diário mantido por Oono. Essa informação pode ter sido fornecida pelos próprios autores durante as negociações, mas ainda não aparece explicada detalhadamente nos registros japoneses acessíveis pela internet.
O mais seguro é dizer que o mangá foi construído a partir das experiências, anotações e relatos de Hiroshi Oono. A expressão diário faz parte do título e da apresentação da obra, mas isso não significa necessariamente que todas as histórias sejam transcrições literais de um único caderno pessoal.
Toshihiro Ono antes de Pokémon
Os desenhos são de Toshihiro Ono, artista que posteriormente ficaria conhecido por Barcode Fighter, adaptações de The Legend of Zelda e, sobretudo, Dengeki! Pikachu, publicado no Brasil pela Conrad como As Aventuras Elétricas de Pikachu.
O mangá de Shocker Oono ocupa uma posição particularmente interessante em sua carreira. Bases japonesas como o MangaSeek costumam indicar 1992 e The Legend of Zelda Gaiden como seu debut oficial. Entretanto, Nekketsu Hero Nikki foi publicado três anos antes, em 1989.
Isso transforma o livro em um raro exemplo do trabalho profissional inicial do desenhista, anterior às séries pelas quais ele se tornaria conhecido. Em vez de uma aventura infantil baseada em videogames ou personagens licenciados, encontramos Toshihiro Ono trabalhando com relatos profissionais, humor de bastidores e caricaturas de pessoas reais.
O traço precisava cumprir uma tarefa delicada. Além de representar heróis e monstros reconhecíveis, Toshihiro Ono tinha de transformar profissionais reais em personagens cômicos sem apagar a dimensão física de seu trabalho.
O resultado é descrito por livreiros japoneses como um mangá incomum sobre os bastidores dos shows de heróis, capaz de divertir mesmo leitores sem grande interesse prévio por tokusatsu. Um comentário publicado por uma livraria especializada resume essa qualidade ao afirmar que a obra é muito engraçada mesmo para quem não acompanha profundamente o gênero, porque o que sustenta as histórias é o amor pelos heróis e pelo trabalho.
Para a campanha brasileira, Toshihiro Ono enviou uma rara declaração pessoal sobre a criação da obra. Segundo a mensagem divulgada pelo Tokusatsu.com.br, o desenhista vivia na época em um apartamento antigo de apenas um cômodo e enfrentava dificuldades até para fazer três refeições por dia.
O editor-chefe teria lhe entregado uma carteira com dinheiro e pedido que ele se alimentasse e desenhasse um bom mangá. Toshihiro afirma que concluiu a obra em meio a esse período difícil e continua grato pela ajuda que recebeu.
Embora o livro retrate o universo dos shows de heróis de quase quatro décadas atrás, o desenhista acredita que seu encanto e seu humor permanecem válidos. Ele também manifestou o desejo de compartilhar essa diversão com os leitores brasileiros.
A declaração muda significativamente a maneira de enxergar o volume. Nekketsu Hero Nikki não é apenas um registro das dificuldades dos suit actors. Também nasceu em um momento de precariedade na vida do próprio desenhista.
Há uma espécie de correspondência entre tema e produção. Um livro sobre trabalhadores anônimos que mantinham os heróis em pé foi desenhado por um jovem artista que também lutava para sobreviver profissionalmente.
Por que o livro desapareceu?
A Rapport foi uma editora profundamente associada à cultura de fãs, animação, mangá e tokusatsu. Com o encerramento de suas atividades, parte de seu catálogo tornou-se difícil de recuperar. Nekketsu Hero Nikki nunca recebeu uma republicação japonesa conhecida e permaneceu restrito à edição original.
Em 2009, leitores abriram no Fukkan.com uma campanha solicitando sua republicação. Os comentários são reveladores. A obra é chamada de um clássico que não deveria permanecer enterrado. Há quem peça não apenas uma nova edição, mas também um segundo volume.
Outro leitor afirma que deseja recuperar o livro justamente porque ele o orientou quando começou a trabalhar com shows de ação. Esse tipo de comentário demonstra que sua importância não está restrita ao colecionismo. Para determinadas pessoas, o mangá se tornou uma referência profissional e afetiva.
A raridade material e a falta de digitalização explicam por que existem tão poucas entrevistas e análises aprofundadas. Durante muito tempo, a maior parte das informações circulou por meio de lembranças fragmentárias, catálogos de sebos e comentários de fãs.
Mesmo no Japão, encontrar um exemplar em boas condições não é simples. O livro passou a ocupar uma posição curiosa: é uma obra sobre personagens extremamente populares, produzida por dois profissionais posteriormente reconhecidos, mas que permaneceu desconhecida de grande parte do público.
A iniciativa de Michel Borges
A história do mangá ganhou um capítulo inesperado no Brasil graças ao quadrinista Michel Borges, conhecido por sua participação em Combo Rangers e por desenhar O Regresso de Jaspion, projeto oficial escrito por Fabio Yabu e publicado pela Editora JBC.
Michel Borges entrou em contato com Shocker Oono para consultar a possibilidade de uma publicação brasileira. Segundo o Tokusatsu.com.br, Oono intermediou o contato e a autorização com o desenhista Toshihiro Ono, permitindo o desenvolvimento da edição nacional.
O projeto foi anunciado em 3 de julho de 2026, durante o Anime Friends, e a campanha de financiamento coletivo começou em 10 de julho. A publicação está sendo apresentada com o título O Bombástico Diário dos Heróis por Shocker Ohno.
A edição brasileira deverá preservar o formato de encadernação do livro original. De acordo com o Sushi POP, ela também contará com páginas coloridas por Michel Borges, produzidas especialmente para a edição nacional com autorização dos autores.
Mais do que simplesmente traduzir os balões, Michel assumiu o trabalho de adaptação e produção gráfica. Isso representa um desafio considerável. A obra contém nomes, expressões profissionais, trocadilhos e referências a produções japonesas dos anos 1980.
Uma edição brasileira precisa equilibrar fidelidade histórica e compreensão, sobretudo para leitores que conhecem os personagens pelos nomes e pelas dublagens utilizadas no Brasil. Também será necessário contextualizar práticas profissionais que faziam sentido para as equipes japonesas da época, mas que podem ser desconhecidas do público atual.
A campanha permanece disponível no Catarse.
Uma edição brasileira de importância histórica
A possível chegada desse mangá ao Brasil possui uma relevância que ultrapassa a nostalgia. Durante muitos anos, a memória brasileira do tokusatsu esteve concentrada nos atores cujos rostos apareciam na televisão.
Os suit actors, dublês, coreógrafos e auxiliares permaneceram muito menos conhecidos, embora fossem responsáveis por uma parte essencial da identidade visual das séries. Eram esses profissionais que davam peso aos golpes, personalidade aos monstros e presença física aos heróis mascarados.
O Bombástico Diário dos Heróis oferece a oportunidade de inverter essa perspectiva. Em vez de observar o herói exclusivamente pela frente, o leitor pode enxergá-lo pelos bastidores: a pessoa tentando respirar dentro da máscara, o ator que acabou de trocar de fantasia, o funcionário tentando acalmar a plateia e a pequena equipe responsável por fabricar um espetáculo maior do que seus recursos permitiam.
Essa dimensão também aproxima o livro da realidade dos eventos brasileiros. Muitas gerações conheceram heróis japoneses não apenas pela televisão, mas em apresentações de shopping centers, convenções, circos e festas.
Ainda que as condições e os sistemas de licenciamento sejam diferentes, a necessidade de construir uma fantasia coletiva com poucos recursos é imediatamente reconhecível. Para o público, o herói precisa ser convincente. Para quem está nos bastidores, é preciso lidar com horários, equipamentos, transporte, figurinos, segurança e imprevistos.
Caso a campanha seja concluída com sucesso, o Brasil poderá receber uma obra que permaneceu inacessível até mesmo para boa parte dos leitores japoneses. Mais do que resgatar uma curiosidade editorial, a edição ajudará a preservar a memória de uma profissão feita de anonimato, esforço físico e improvisação.
Os homens por trás das máscaras
Na televisão, o herói quase sempre chega no momento certo. Sua armadura está intacta, sua transformação funciona e seu golpe final derrota o monstro. Nos bastidores descritos por Shocker Oono, nada disso era garantido.
O herói podia atrasar. A fantasia podia rasgar. O elenco podia ser pequeno demais. Um ator precisava interpretar vários personagens. Uma gravação podia exigir que alguém gritasse uma frase absurda para marcar o momento de uma ação. Em algum palco de loja de departamentos, um funcionário podia precisar explicar a centenas de pessoas que Gavan realmente não viria.
É nesse espaço entre a imagem perfeita e o trabalho imperfeito que Nekketsu Hero Nikki encontra sua força. O mangá não diminui os heróis ao revelar seus truques. Ao contrário, mostra que o verdadeiro heroísmo talvez estivesse nos profissionais que, mesmo sem superpoderes, faziam o espetáculo continuar.
Quase quatro décadas depois, a tentativa de Michel Borges de publicar o livro no Brasil prolonga esse gesto de preservação. Se a obra original salvou da memória oral as histórias dos antigos shows de heróis, a edição brasileira pode impedir que o próprio mangá desapareça e finalmente apresentar aos fãs os homens que sustentavam, literalmente, as máscaras do tokusatsu.
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