Coluna · Henshin Hero

O robô com um defeito de fábrica no coração

Silvio Dória · 12 min

O robô com um defeito de fábrica no coração

Tem um herói japonês dos anos 70 que sofre mais do que luta, e é justamente por isso que ele me fascina até hoje. O Kikaider, ou melhor, o androide Jiro, nasceu com um defeito de fábrica bem no lugar mais importante de todos, o circuito que deveria dizer a ele o que é certo e o que é errado.

A ideia veio de Shotaro Ishinomori, o mesmo criador do Kamen Rider, e é de uma tristeza linda. O professor Komyoji construiu o Jiro com um circuito de consciência, batizado de Gemini, mas não conseguiu terminá-lo antes de ser sequestrado. O androide ficou pela metade, capaz de sentir o peso da consciência sem ter a certeza tranquila de quem nasce sabendo distinguir o bem do mal.

Metade santo, metade máquina

Esse detalhe muda tudo na forma de assistir. Por ter uma consciência incompleta, o Jiro vive em dúvida constante, sofrendo pra separar o certo do errado numa angústia que nenhum herói perfeito sentiria. Ele não é heroico por natureza, ele luta pra ser, e erra, e hesita, e se atormenta no caminho como qualquer um de nós.

O vilão da história explora exatamente essa brecha de um jeito cruel. O Dr. Gill comanda os androides com o som de uma flauta, uma melodia que dobra as máquinas à vontade dele. O Jiro resiste por causa do circuito de consciência, mas resistir dói nele de um jeito quase físico, como se a própria virtude fosse uma ferida que insiste em não cicatrizar.

Do outro lado existe o Hakaider, o rival, talvez o vilão mais icônico que esse tipo de série já produziu. Ele é um androide vermelho construído sem nenhum circuito de consciência, e ainda por cima carrega dentro de si o cérebro do professor Komyoji. É tudo o que o Jiro poderia ter sido se a imperfeição não existisse, frio, eficiente, sem nenhuma dúvida atrapalhando o gatilho.

O ator que virou ponte

Vale uma curiosidade gostosa de bastidor. O Jiro foi vivido por Daisuke Ban, um rosto que o fã de tokusatsu reencontra a vida inteira, inclusive décadas depois num papel coadjuvante lá no Gridman dos anos 90. Aquele andar meio melancólico, a pose com a guitarra e a moto, tudo virou marca registrada do personagem e também do próprio ator.

E nada disso era pesado de propósito pra afastar criança. A série tinha ação, monstros coloridos, a moto do herói e a transformação, tudo que a molecada da época queria ver no domingo. Só que, por baixo dessa embalagem alegre, escondia uma melancolia que ficava grudada na memória muito tempo depois de o episódio acabar.

No mangá original, escrito pelo próprio Ishinomori, o tom é ainda mais sombrio do que na televisão. Ali a história do Jiro caminha pra um lugar bem mais cruel e ambíguo, reforçando que, pra aquele autor, super-herói nunca foi sinônimo de final feliz garantido, e sim de conflito, culpa e sacrifício.

A imperfeição como virtude

O que o Ishinomori sugere ali é provocante até hoje. Talvez ser bom de verdade não seja ter um circuito perfeito que decide tudo sozinho, e sim duvidar, sofrer e escolher o caminho certo mesmo sem nenhuma certeza. A humanidade do Jiro mora justamente naquilo que, no papel técnico, é apontado como o seu maior defeito.

Por isso eu coloco o Kikaider num patamar à parte dentro do henshin boom, e não por nostalgia barata. Por baixo das lutas semanais, ele faz uma pergunta que pouca gente esperava de um programa infantil, a de se um coração quebrado, cheio de dúvida e culpa, não seria no fim das contas mais humano do que um coração perfeito que nunca erra.

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