Reportagem · Henshin Hero
O henshin boom: quando todo estúdio quis seu herói transformável

No comecinho dos anos 70, a televisão japonesa virou um verdadeiro campo de batalha de heróis transformáveis. Foi um fenômeno tão intenso e tão concentrado no tempo que ganhou nome próprio, o henshin boom, e entender ele é entender por que existe um gênero inteiro vivendo fora das quatro grandes franquias.
O estopim foi o Kamen Rider, em 1971. O sucesso estrondoso daquele herói que gritava henshin e mudava de forma diante das câmeras acendeu uma corrida no mercado inteiro. De repente, toda emissora e todo estúdio queria desesperadamente o seu próprio herói transformável pra surfar a mesma onda de audiência e de venda de brinquedo.
Cada estúdio com seu herói
A Toei, que tinha começado a festa, despejou heróis em série, um atrás do outro, do Kikaider ao Inazuman, passando pelos ninjas transformáveis. A Tsuburaya, dona do Ultraman, resolveu criar gigantes que não eram Ultras, como o Mirrorman e o Fireman, pra não ficar de fora. E surgiram rivais ferozes e menores, com destaque pra P Productions, que mandou pra guerra o Spectreman e o Lion-Maru brigando de igual pra igual.
Foi uma explosão de criatividade meio caótica e maravilhosa. Heróis ciborgues, ninjas transformáveis, gigantes do espaço, homens-leão de espada, robôs detetives, cada semana parecia surgir um novo. Era gente testando ao vivo todas as variações possíveis de uma mesma ideia básica, a de alguém comum que de repente vira um ser extraordinário pra defender os fracos.
Esse caldo todo produziu obras geniais e produtos descartáveis na mesma velocidade vertiginosa. Mas mesmo as séries menores, hoje meio esquecidas, ajudaram a firmar a gramática do gênero que a gente reconhece de olhos fechados, as poses, os gritos, os vilões semanais, a relação tensa entre o herói e a sua identidade secreta.
Uma terra de ninguém criativa
Tem uma graça enorme em pensar nesse período como uma terra de ninguém criativa. Sem uma franquia dominante pra ditar todas as regras, cada estúdio puxava o gênero pro seu lado, inventava a sua própria gíria visual, e essa disputa toda acabou elevando o nível geral na base da concorrência pura e simples.
Vale lembrar que o boom não vivia só de transformação e pancadaria. Muitas dessas séries carregavam, por baixo da fantasia, temas pesados como poluição, guerra, solidão e preconceito, herança direta da veia mais sombria de autores como o Ishinomori. Era entretenimento de domingo com uma camada de inquietação que hoje surpreende quem revê com olhos de adulto.
O preço da febre
Como toda febre, essa também cobrou o seu preço lá na frente. O excesso de heróis parecidos foi saturando o público, os orçamentos começaram a apertar, e por volta da metade da década o boom murchou quase tão rápido quanto havia crescido. Muitos desses programas sumiram da memória popular, sobrevivendo apenas no coração dos fãs mais raiz e em fitas guardadas a sete chaves.
Mas o legado ficou plantado e nunca mais saiu. Boa parte do vocabulário que a gente associa ao tokusatsu até hoje foi forjada naquele formigueiro de heróis dos anos 70, e franquias inteiras, dos Sentai aos Metal Heroes, beberam daquela fonte. O henshin boom foi curto, mas plantou as raízes de quase tudo que veio depois, inclusive das marcas que acabaram ofuscando os próprios pioneiros.
← Voltar ao início