Homenagem · Metal Hero
Do JAC ao mar de Okinawa: a despedida ao eterno Jaspion

Receber a notícia da morte de Hikaru Kurosaki, o nosso eterno Jaspion, justamente no dia em que o Brasil enfrentou o Japão na Copa, carrega um simbolismo difícil de ignorar — uma data importante para os dois países. Enquanto o Brasil parava para torcer, o anúncio oficial do falecimento do ator começou a circular pelas redes da associação de mergulho de Motobu, em Okinawa, pegando os fãs de tokusatsu completamente de surpresa.
Ele não virou o Jaspion por acaso ou apenas por ter um rosto marcante. Ele era cria do Japan Action Club, o JAC. A diferença dele para outros nomes da escola não era só saber chutar ou dar piruetas, mas sim ter passado pelo trabalho de base mais duro da companhia. Kurosaki sabia o que era carregar figurino pesado, entendia o tempo da câmera e cresceu convivendo com profissionais que tratavam o corpo como a ferramenta principal de trabalho.
Essa bagagem fez a diferença quando a Toei o escolheu para protagonizar a série em 1985. Ele já conhecia o motor da produção por dentro. Um ano antes, em Choudenshi Bioman, ele havia feito o papel de Shota Yamamori, o jovem que quase se tornou o sexto membro da equipe. Naquela metade dos anos 1980, a Toei consolidava um modelo de televisão que dependia totalmente da sintonia entre o elenco principal e os dublês. O JAC era o grande fornecedor dessa mão de obra.
Bastidores de Bioman e o casamento com a vilã
Foi justamente nos bastidores de Bioman que Kurosaki conheceu Yuko Asuka, a vilã Farrah, com quem se casaria anos mais tarde. Esse casamento, que muitos relembram apenas como nota biográfica, ajuda a ilustrar a realidade da época: o meio do tokusatsu era um circuito pequeno e fechado. Os profissionais mudavam de função e de série o tempo todo. Em Jaspion, essa parceria de bastidor funcionou diretamente com Hiroshi Watari, o Boomerman. Como ambos eram do JAC e confiavam cegamente no treino um do outro, eles mesmos gravavam várias cenas de risco, dispensando dublês em saltos e quedas nas pedreiras.

A exigência interna no JAC era implacável e moldava uma mentalidade de sobrevivência no set. Veteranos da companhia e dublês da Toei, como o lendário Kazuo Niibori, relembram em registros históricos que o ritmo das gravações não perdoava erros: se um ator novato não acompanhasse a coreografia física de imediato, o diretor simplesmente colocava um dublê mascarado e a câmera continuava rodando. Kurosaki sobrevivia a essa pressão porque tinha uma agilidade natural que impressionava os veteranos. O próprio Hiroshi Watari costuma destacar em entrevistas retrospectivas que, apesar do treino militarizado da escola, Kurosaki tinha um espírito leve e uma energia contagiante nos bastidores, qualidades que ele acabou transferindo para o personagem.
Enfim, Jaspion
Quando a série começou, Kurosaki dominava o ritmo do set. O diferencial do seu trabalho não aparecia nas lutas com a armadura, que ficavam a cargo dos dublês de corpo, mas sim no Jaspion de carne e osso. Ele quebrou o padrão dos heróis espaciais anteriores, que seguiam uma linha séria e quase militar. O Jaspion era brincalhão, informal, sentia dor e errava. O cabelo de permanente, que imitava o visual dos jovens urbanos da época, ajudava a humanizar o personagem.
Essa dualidade, aliás, rendeu conversas duras nos bastidores. O diretor Ogasawara Takeshi chegou a chamar a atenção do ator no início das gravações, reclamando que ele estava sendo "palhaço demais" e que o herói à paisana parecia uma pessoa completamente diferente daquele que lutava a sério. O próprio Kurosaki admitia em entrevistas que achar o tom ideal do personagem era um desafio imenso: ele queria um Jaspion que estivesse um tom abaixo do galã perfeito, mas sem parecer um bobo completo. Encontrar esse meio-termo foi o grande trunfo de sua atuação.
Até os mínimos detalhes visuais passaram pelo crivo do ator. A icônica pose de transformação, com as mãos espalmadas ao lado das orelhas antes de materializar a armadura em 0,03 segundos, nasceu de uma ideia do próprio Kurosaki e acabou aceita pela equipe. Antes do seriado, ele já vinha sendo moldado para ser uma espécie de resposta japonesa a Jackie Chan devido ao seu timing para misturar humor e pancadaria física, o que explica a enorme quantidade de cambalhotas e saltos reais que ele fazia questão de executar sem o traje metálico.
Mas a rotina das produções japonesas cobra um preço físico alto. Anos após o fim da série, Kurosaki se afastou da televisão e dos estúdios de Tóquio. Ele se mudou para Okinawa e virou instrutor de mergulho, profissão que exerceu por décadas. No fim das contas, ele trocou o peso da armadura pelos equipamentos de oxigênio, mas manteve a lógica que aprendeu no JAC: a de usar o corpo e a ação direta para ganhar a vida, longe dos holofotes.
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