Coluna · Kamen Rider
A perna quebrada que inventou a pose de henshin

Pouca gente sabe que o gesto mais copiado da história do tokusatsu, aquela pose de transformação com os braços, nasceu de um acidente real e bem doloroso. Sem um osso quebrado, talvez o henshin como a gente conhece nunca tivesse existido.
Voltando a 1971. O ator Hiroshi Fujioka vivia o Takeshi Hongo, o Kamen Rider original, e fazia questão de pilotar suas próprias cenas de moto. Numa dessas acrobacias, ele caiu feio e fraturou a perna com gravidade, a ponto de ficar afastado das gravações por meses.
Um herói no hospital, outro na tela
A produção entrou em pânico, porque a série estava no ar e o protagonista de repente não podia mais correr nem lutar. A solução foi ousada, criar um segundo Kamen Rider, o Hayato Ichimonji, vivido por Takeshi Sasaki, pra segurar a história enquanto o Fujioka se recuperava.
E aqui mora a genialidade acidental. O Rider original transformava de um jeito trabalhoso, ligado ao vento da moto em movimento. Como o novo herói precisava virar Kamen Rider parado, sem a moto, os roteiristas inventaram um gesto simples e um grito, o henshin, que qualquer criança podia imitar no quintal.
O efeito foi imediato e gigantesco. A molecada do Japão inteiro passou a repetir a pose, a brincadeira virou febre nacional, e a audiência da série disparou. O que era uma emergência de produção se transformou no maior trunfo comercial do programa.
O acidente que virou tradição
Quando o Fujioka finalmente voltou, recuperado, a série fez questão de juntar os dois heróis, e nasceu ali a ideia dos Dois Riders, parceria que viraria marca registrada da franquia. O azar de um ator acabou criando dois ícones em vez de um.
Acho lindo pensar que praticamente toda transformação que veio depois, em Kamen Rider, em Sentai, em qualquer herói japonês, descende daquele improviso. A pose existe porque um homem se machucou de verdade fazendo o trabalho dele.
Por isso, quando vejo uma criança fazendo o gesto de henshin hoje, penso naquele acidente de cinquenta e poucos anos atrás. Algumas das melhores tradições não nascem de um plano genial, nascem de um tombo e de uma equipe que soube transformar o problema em lenda.
← Voltar ao início