Reportagem · Kamen Rider
A década em que o Kamen Rider sumiu da TV

Hoje é difícil imaginar um ano sem um Kamen Rider novo na televisão. Mas existiu um buraco enorme na história da franquia, mais de dez anos em que o herói simplesmente desapareceu da telinha. Esse hiato explica muita coisa sobre a série moderna.
A última temporada da era clássica foi o Black RX, que encerrou em 1989. Depois dele, silêncio. Por motivos de mercado e desgaste do formato, a Toei tirou o Kamen Rider da grade semanal, e o que parecia uma pausa curta acabou virando uma travessia de mais de uma década.
Sobrevivendo no cinema
Não que o herói tenha morrido de vez. Ele sobreviveu em três filmes esquisitos e fascinantes lançados nos anos 90, o Shin, o ZO e o J, cada um tentando uma abordagem diferente e mais adulta. Eram experimentos de bastidor, longe da febre infantil de antes.
O Shin, de 1992, é o mais radical de todos. Apostou num tom de horror biológico, com uma transformação visceral e realista, quase nojenta, bem distante do herói colorido e heroico. Era o Kamen Rider olhando pro próprio umbigo, tentando descobrir o que queria ser.
Esse período no limbo teve um custo alto. Uma geração inteira de crianças japonesas cresceu praticamente sem um Kamen Rider semanal pra chamar de seu, algo impensável pra quem veio antes ou depois. A franquia virou lembrança dos pais, não programa dos filhos.
A virada só veio em 2000, com o Kuuga, que ressuscitou a série na TV e inaugurou a era Heisei. E é justamente por causa do longo jejum que o Kuuga pôde ousar tanto, reinventando o herói do zero, sem o peso de uma continuidade recente pra respeitar.
Eu acho esse hiato pouco comentado, mas decisivo. Sem aquele vácuo, talvez a franquia nunca tivesse sentido a necessidade de se reinventar de forma tão radical. Às vezes um herói precisa sumir um tempo pra voltar com algo novo a dizer.
Fica a lembrança de que nem as franquias mais sólidas são eternas por decreto. O Kamen Rider já esteve perto do esquecimento, segurando as pontas em filmes de nicho, antes de virar a máquina anual que conhecemos. Toda lenda tem o seu período no escuro.
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